Geléia geral

Livros recuperam obra do jornalista, compositor e poeta tropicalista Torquato Neto, considerado o mais radical e inconformista do movimento

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Alexandre Pavan*


Torquato Neto (1944-1972) teve uma passagem meteórica pela música brasileira. Em cerca de dez anos, atuando como jornalista, poeta, compositor, ator e cineasta, foi um importante personagem que contribuiu para movimentar a cultura brasileira naqueles agitados anos 60. E, embora seu nome seja comumente relacionado ao tropicalismo, a revisão de sua obra oferece um panorama que vai além do movimento encabeçado por Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Esse enquadramento fica bem claro nos dois volumes de Torquatália – Do Lado de Dentro (368 págs., R$ 44) e Geléia Geral (408 págs., R$ 49), ambos da editora Rocco – que reúnem seus escritos: crônicas, poesia, crítica musical e cartas. “Torquato é ao mesmo tempo causa e conseqüência do tropicalismo. Participou ativamente do bota-abaixo de valores estéticos e políticos promovidos por sua geração, mas deixou os companheiros de viagem quando eles, transformados em arquitetos e engenheiros, planejaram e ergueram para si um status artístico, literário e poético que garantiria por mais de trinta anos sua influência. É bom que se diga: ser ‘demolidor’ não o faz melhor ou pior do que seus pares, mas singulariza-o radicalmente”, avalia o jornalista Paulo Roberto Pires, responsável pela organização e textos explicativos de Torquatália.

Nascido em Teresina (PI), Torquato mudou-se para Salvador com 17 anos, onde estabeleceu amizade e iniciou uma parceria musical com os baianos Caetano e Gil, que se consolidaria na primeira metade da década de 1960, quando todos se transferiram para o Rio de Janeiro. Os três, juntamente com Tom Zé, o letrista Capinam, o maestro e arranjador Rogério Duprat, o trio Mutantes e as cantoras Gal Costa e Nara Leão, dariam forma à tropicália, lançada ao longo de 1968.

A intenção dos tropicalistas era muito mais a de propor uma nova atitude artística do que propriamente estabelecer uma revolução musical, como ocorrera anos antes com o surgimento da bossa nova. Aquela era uma época de alinhamentos ideológicos, com a música e as artes em geral entrando no processo de discussão/atuação política. Os jovens de esquerda definiam-se pelos trabalhos dos Centros Populares de Cultura (CPC) e a defesa da música de protesto, ao mesmo tempo em que combatiam a “invasão estrangeira” das guitarras elétricas do rock and roll.

Após debates e discussões a turma tropicalista chegou à conclusão que, para arejar a música brasileira, era necessário aproximá-la dos mais jovens, descartando elitismos e preconceitos nacionalistas e, por que não, aproveitando o iê-iê-iê de Roberto Carlos e o pop-rock dos Beatles.

Autor de músicas como Pra Dizer Adeus (com Edu Lobo), Mamãe Coragem (com Caetano) e Let’s Play That (com Jards Macalé), Torquato foi interpretado por Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano e Elis Regina, entre outros. Depois de ajudar a instalar a geléia geral – aliás, este é o nome de um de seus sucessos, em parceria com Gil – Torquato inesperadamente suicidou-se no dia em que completava 28 anos, deixando uma obra que revela uma importante obra e um grande personagem.



*Jornalista e co-autor do livro Populares e Eruditos





apavan@uol.com.br



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