Fundação Carlos Chagas premia projetos inovadores em formação docente


Trabalhos vencedores trazem para a sala de aula a cultura indígena e o uso da tecnologia de forma significativa

Compartilhe
, / 995 0







Ilana Bar
Raquel de Sá e Luciane dos Santos, vencedoras da terceira edição do Prêmio Professor Rubens Murillo Marques

Usar a tecnologia de forma significativa na educação, invertendo a dinâmica da sala de aula por meio das redes sociais e ampliar a visão de futuros professores sobre a cultura indígena, dando a oportunidade de aplicar a teoria na prática.  Esses são os objetivos das duas iniciativas inovadoras desenvolvidas em cursos de formação docente e premiadas pelo Prêmio Professor Rubens Murillo Marques.


Promovido pela Fundação Carlos Chagas (FCC), o prêmio chega à sua terceira edição com um recorde de inscrições. “Estamos muito satisfeitos com a realização da terceira edição do prêmio, pois o número de inscrições aumentou quase três vezes em relação ao último ano. Isto mostra o crescente interesse dos docentes por esta iniciativa, que tem por objetivo valorizar a profissão do professor no Brasil”, declara Claudia Davis, superintendente de Educação e Pesquisa, da FCC.


As professoras vencedoras receberam um prêmio de R$ 30 mil, diploma, troféu e publicação do projeto premiado na coleção Textos FCC e no site da fundação.


Conheça abaixo os projetos das professoras Luciane Mulazani dos Santos, da Universidade do Estado de Santa Catarina, e Raquel Mello Salimeno de Sá, da Universidade Federal de Uberlândia, vencedores desse ano.







Invertendo a sala de aula





Ilana Bar
A dinâmica tradicional de uma sala de aula, seja universitária ou da Educação Básica, já é velha conhecida: o professor expõe um conteúdo em frente aos alunos; uma parte irá fazer anotações e trazer dúvidas para a aula seguinte, outros vão retomar o que foi dito alguns dias antes da prova e alguns passarão batido pelo o que foi exposto. Para tentar engajar mais seus alunos e provocar discussões em sala de aula, a professora Luciane Mulazani dos Santos, do curso de Licenciatura em Matemática da Universidade do Estado de Santa Catarina, decidiu aplicar o modelo Flipped Classroom (sala de aula invertida) em suas aulas na disciplina Didática de Matemática.


“O projeto é fruto das minhas pesquisas teóricas e da minha prática docente”, conta a professora, que se dedica a estudar o uso da tecnologia na educação, mais especificamente das redes sociais. “Quando preparei a disciplina pensei em alguma ação que se relacionasse com o que eu estava estudando e foi assim que surgiu o projeto Invertendo a sala de aula usando o Facebook: inovando experiências de professores em formação inicial com o modelo Flipped Classroom na disciplina de Didática de Matemática“, explica.


Luciane criou um grupo no Facebook onde publicava todo o material de estudo e estimulava os alunos a usar a rede social como um espaço de aprendizagem.  “Com o Facebook nós conseguimos colocar em prática a sala de aula invertida. Eu colocava todo o material lá e os alunos já vinham para as aulas com ideias e discussões. Aquilo que eu normalmente mandaria como tarefa de casa era feito junto em sala”, exemplifica a professora.  A nova metodologia estimulou o protagonismo dos alunos, que propunham discussões e atividades. A professora destaca que no modelo tradicional isso é mais difícil até mesmo por uma questão prática que é a carga horária. Por causa do grupo do Facebook, as discussões não paravam em sala de aula e a professora conseguia acompanhar o que os alunos estavam lendo e visualizando.


Luciane ressalta também que a ferramenta permitiu um contato mais rápido entre professor e aluno, além de servir como um acervo para todos. “O grupo se tornou um verdadeiro repositório de objetos de aprendizagem. Ao longo do semestre foram 150 postagens que receberam em torno de oito comentários cada”, conta.








A cultura indígena na sala de aula





Ilana Bar
Os Parâmetros Curriculares Nacionais determinam que a diversidade cultural deva ser abordada nas propostas educativas. Essa mesma preocupação é expressa na Lei 11.645/08, que diz respeito à obrigatoriedade da inclusão do estudo e da valorização da cultura indígena no currículo oficial da rede de ensino, para todos os níveis. Entretanto, como os professores podem trabalhar com seus alunos aspectos da cultura indígena se ela ainda permanece tão distante do meio acadêmico e dos cursos de formação docente? Com essa preocupação, a professora Raquel Mello Salimeno de Sá, da Universidade Federal de Uberlândia, elaborou o projeto “Visualidades étnicas: as culturas indígenas na escola”, que oferece condições para que licenciandos em Artes Visuais incluam, na prática docente, valores estéticos até então desconsiderados no ensino formal.


“Nós desenvolvemos um trabalho a partir das potencialidades dos licenciandos e da poética deles”, explica Raquel. Para inserir os licenciandos na cultura indígena foram realizadas oficinas de pintura corporal, estudo de grafismos indígenas e produção de painéis em tecido com tramas indígenas. “Muitos alunos incorporaram esses grafismos indígenas às suas produções clássicas”, conta. 


O projeto foi levado para além dos muros da universidade por meio de uma parceria com escolas da rede pública, a Escola Estadual Bueno Brandão e a Escola Municipal Professor Oswaldo Vieira Gonçalves. Os licenciandos foram divididos em dois grupos e, sob a supervisão dos professores de artes de cada escola, desenvolveram atividades que buscavam compreender a visão dos alunos sobre si e o outro para assim trazer a temática indígena à Educação Básica.


Na Escola Estadual Bueno Brandão, por exemplo, o professor supervisor e os licenciandos estimularam a criação de gibis para compreender a visão dos alunos sobre os índios brasileiros. Os licenciandos se envolveram também na Feira Cultural da escola e na elaboração do Jornal Mural, por meio dos quais puderam atualizar alunos e professores sobre a temática do projeto.  Já na Escola Municipal Professor Oswaldo Vieira Gonçalves, os licenciandos colaboraram com a professora supervisora na preparação de materiais, como máscaras indígenas e pranchas com grafismos indígenas.


Os licenciandos realizaram também visitas técnicas a galerias e museus, como o Museu do Índio, com o objetivo de ampliar seu repertório. Além disso, a turma fez trabalhos de campo em aldeias indígenas no Mato Grosso do Sul, por meio de uma parceria entre PIBID/UFU Artes Visuais e PIBID/UFU Educação no Campo. “Ficamos acampados em escolas indígenas, o que mudou completamente a percepção dos alunos, e até mesmo a minha, sobre a cultura”, conta Raquel. “Essa visita nos deu a ideia de como tem sido difícil a vida desses índios. Seus territórios estão sendo invadidos e sua população está sendo morta. Foi muito importante ouvir as lideranças indígenas e estreitar relações”, acrescenta. A visita rendeu um vídeo chamado Terra (veja aqui).


Para a professora, é importante não só trabalhar a arte indígena, mas sim a realidade dos índios. “Normalmente quando se fala em índio, parece que é só uma cultura. Mas é importante reconhecer que existe uma diversidade dentro da cultura indígena e deixar de lado essa visão romantizada e deturpada do índio. As pessoas não nascem com preconceitos. O desafio é fazer com que elas tenham uma nova visão sobre essa cultura”, finaliza.

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN