Fotógrafa de guerra e mãe

Cinema europeu desta vez retrata a vida de Rebbeca, uma das maiores fotógrafas de guerra do mundo, que além dos conflitos que cobre, lida com outros próprios

Compartilhe
, / 1269 0

 

Divulgação
Cenas de Mil vezes boa noite: drama sobre os conflitos pessoais de uma fotógrafa de guerra

 

Conseguimos nos manter indiferentes às imagens de dor e violência que vemos na mídia, ainda que sejam associadas a lugares e eventos distantes da nossa realidade? Poucos diriam que são totalmente imunes, nessas circunstâncias, a alguma dose de empatia pelo sofrimento alheio. O que dizer, então, de pessoas que convivem in loco com os personagens dessas situações, obrigadas a domar suas emoções em nome do bom desempenho profissional? O universo do jornalismo abriga muitas delas, como lembra o drama Mil vezes boa noite (Noruega/Irlanda/Suécia, 2013, 117 min).

A protagonista do filme é Rebecca (interpretada pela atriz francesa Juliette Binoche), uma respeitada fotógrafa de guerra. Não se trata de uma especialização que ela mantenha por razões meramente profissionais. Pode-se dizer que há algo de obsessivo na sua procura por coberturas jornalísticas de risco, como se ela julgasse ter um papel importante a contribuir na denúncia, para todo o mundo, de episódios que violam os direitos humanos, por exemplo. E, também, como se o seu corpo já não conseguisse viver sem a adrenalina fornecida por essa modalidade perigosa de trabalho.

Em Mil vezes boa noite, vemos Rebecca inicialmente em ação na Ásia, fotografando mulheres-bomba no Afeganistão, e depois na África, em um campo de refugiados do Quênia. Mas a vemos também em casa, na Irlanda, enfrentando dificuldades em família. O marido (o dinamarquês Nikolaj Coster-Waldau, da série Game of thrones) gostaria que ela abandonasse as atividades de risco, e a filha adolescente do casal (Lauryn Canny) termina atraída por uma das viagens da mãe – que, em tese, seria segura. Não é bem o que ocorre, e o comportamento de Rebecca nesse momento revela que seu processo de tomada de decisões contraria até mesmo o impulso de sobrevivência.

Filmografia
A presença de Juliette Binoche ajuda no prestígio e na circulação de qualquer filme. Oscar de atriz coadjuvante por O paciente inglês (1996) e indicada ao prêmio de melhor atriz da Academia de Hollywood por Chocolate (2000), ela tem alternado papéis em obras de diretores consagrados (como Michael Haneke e David Cronenberg) com projetos que ganham maior visibilidade graças a ela, como o de Mil vezes boa noite.

Inspiração autobiográfica
O diretor norueguês Erik Poppe, hoje com 55 anos, trabalhou como fotógrafo antes de se tornar cineasta, cobrindo eventos domésticos e internacionais para veículos de seu país e para a agência Reuters. Seu currículo inclui o prêmio de maior prestígio nessa área, o World Press Photo. As experiências de Poppe como fotógrafo em conflitos na África, no Oriente Médio, na Ásia e na América Central inspiraram situações de Mil vezes boa noite.

Zonas de guerra
Algumas das fotografias de zonas de guerra que aparecem no filme são genuínas. O responsável pela maior parte delas é o britânico Marcus Bleasdale, que há quase 20 anos cobre conflitos na África – primeiro no Congo e depois na República Centro-Africana – e já recebeu diversos prêmios internacionais, como o de fotógrafo do ano pelo Unicef em 2004.


FILMOTECA

No olho do furacão

A rotina perigosa e estafante de fotógrafos, cinegrafistas e repórteres que cobrem regiões de conflito, como a da protagonista de Mil vezes boa noite, já foi abordada por diversos outros filmes. Confira alguns exemplos:

O ano que vivemos em perigo (1982)
Baseado em romance do australiano C. J. Koch (1932-2013), com direção do também australiano Peter Weir (Sociedade dos poetas mortos). Um repórter estrangeiro (Mel Gibson) tem a ajuda de um fotógrafo local (a atriz Linda Hunt no papel masculino que lhe deu o Oscar de coadjuvante) na Indonésia, durante a ditadura de Sukarno.

Os gritos do silêncio (1984)
A história verídica da amizade entre Sydney Schanberg (interpretado por Sam Waterston), repórter do jornal The New York Times que cobriu a guerra civil no Camboja, nos anos 1970, e seu assistente local, Dith Pran (interpretado pelo médico cambojano Haing S. Ngor, que foi perseguido pelo Khmer Vermelho e ganhou o Oscar de coadjuvante pelo papel).

Antes da chuva (1994)
Vencedor do Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza, entre outros prêmios internacionais. A história vai e vem no tempo em torno de diversos personagens, como um fotógrafo macedônio (Rade Serbedzija) que registra a guerra nos Bálcãs e uma editora inglesa (Katrin Cartlidge) que se torna sua amante.

Testemunhas de uma guerra (2009)
Dois fotógrafos de guerra (Colin Farrell e Jamie Sives) trabalham no Curdistão, no final dos anos 1980, mas apenas um deles conseguirá voltar a salvo para casa – e seu comportamento jamais será o mesmo. Dirigido pelo bósnio Danis Tanovic, que fez também Terra de ninguém (2001), sobre a presença de jornalistas internacionais na guerra dos Bálcãs.

Repórteres de guerra (2010)
Baseado em experiências verídicas de um grupo de fotógrafos apelidado de “the bang bang club” (o clube do bangue-bangue), que assinou o livro no qual o filme é inspirado. Quatro colegas (interpretados por Ryan Phillippe, Taylor Kitsch, Neels van Jaarsveld e Frank Rautenbach) cobrem o final do regime de apartheid na África do Sul.

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN