Fórum Social debate televisão

Encontro abre espaço para discussão crítica do conteúdo televisivo

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Laurindo Lalo Leal Filho*




 


Pode até não parecer, mas o Fórum Social Mundial faz um bem danado para a televisão. A cada encontro aumenta o número de debates em torno do assunto e os participantes se multiplicam. Na recente edição, realizada em Porto Alegre, até o espaço físico reservado à comunicação cresceu. Várias tendas instaladas ao lado da Usina do Gasômetro, hoje um centro cultural importante da cidade, abrigaram os interessados no tema “Comunicação: práticas contra-hegêmonicas, direitos e alternativas”. E, dentro dele, a televisão foi cuidadosamente analisada.


Por se tratar de uma concessão pública e por ser o mais abrangente veículo de comunicação, a TV acaba centralizando as atenções. E é bom que seja assim. Com todo esse reconhecido poder, ela é pouco discutida. Fala-se muito da televisão enquanto negócio ou tecnologia. Feiras se espalham pelo mundo reunindo produtores em busca de novos formatos de programas (geralmente
game-shows

ou
sitcoms

) ou empresários buscando os equipamentos mais modernos e sofisticados. O Fórum Social Mundial abriu espaço para a discussão crítica dos conteúdos da TV e de suas relações com o Estado e a sociedade. Falava-se sobre isso na Universidade ou nas organizações profissionais, mas de maneira parcial e fragmentada. O Fórum globalizou o debate.


Os resultados concretos começam a surgir. Redes de organizações preocupadas com o papel da TV firmam-se pelo mundo. Propostas de ação junto aos organismos internacionais e aos governos locais se concretizam. No Brasil, o melhor exemplo é o compromisso assumido por várias entidades de participarem ativamente no processo de elaboração da nova Lei de Comunicação Eletrônica de Massa prometida pelo governo federal.


Ao mesmo tempo, outra iniciativa, resultado do Fórum de 2003, começa a dar frutos. Naquele ano foi criado o “Midia Watch Global”, um observatório internacional presidido pelo jornalista Ignácio Ramonet, do
Le Monde Diplomatique

, destinado a acompanhar o trabalho dos meios de comunicação. E de incentivar o surgimento de observatórios nacionais. A França saiu na frente e sob a direção do professor Armand Mattelart criou o seu. Agora, neste Fórum, foi a vez da instalação do Observatório Brasileiro da Mídia, uma iniciativa que tem o respaldo acadêmico do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP.


Trabalho não vai faltar, especialmente em relação a TV. Basta ver como a Rede Globo cobriu o Fórum de Porto Alegre. Enquanto os participantes do encontro debatiam, por exemplo, o destino do planeta e por conseqüência da humanidade, alertando para o perigo da escassez de água, da destruição das florestas ou da escalada militarista, a principal emissora de TV do país mostrava o movimento nas churrascarias de Porto Alegre e tratava o Fórum como se fosse um “Woodstock” redivivo. Diante de casos assim, o Observatório se propõe não apenas a observar, mas a denunciar e exigir mais seriedade no trato da informação pública. Está ai um belíssimo fruto gerado pelo Fórum Social Mundial.



*Sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP





laloleal@uol.com.br


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