Formação continuada no Brasil tem baixo impacto na melhoria do ensino

Pesquisa do Instituto Ayrton Senna, em parceria com o The Boston Consulting Group, mostra que as ações ainda estão distante da sala de aula e divulga experiências nacionais e internacionais bem sucedidas

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Os cursos de formação continuada realizados em todo o Brasil têm um baixo impacto na melhoria do ensino. Usados muitas vezes com um caráter compensatório, com o objetivo de suprir lacunas na formação inicial dos professores, esses cursos também apresentam problemas como a falta de diálogo com a realidade em sala de aula. As conclusões são da pesquisa “Formação Continuada de Professores no Brasil”, realizada pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com Boston Consulting Group (BCG), e divulgada no início do mês de julho.

“Muitas das práticas de capacitação estão voltadas para conceitos teóricos, que muitas vezes são para o próprio benefício do professor que conhece teorias da educação, desenvolve uma pesquisa. Mas de fato isso está muito longe de ter um impacto concreto no aluno, que é o objeto da nossa educação”, afirma Christian Orglmeister sócio-diretor do BCG.

Foram entrevistados 2.732 profissionais da Educação Básica, entre professores (26% do total), coordenadores pedagógicos (18%), diretores de escolas (51%), supervisores de ensino e secretários de Educação (2%). As entrevistas foram feitas por meio eletrônico entre novembro de 2012 e março de 2013.

A pesquisa destaca também diversas ações possíveis para melhorar a qualidade do ensino brasileiro, como a reforma do currículo pedagógico, aplicação e padronização de métodos de avaliação dos alunos, melhoria no contexto socioeconômicos dos estudantes e suas famílias, investimentos em infraestrutura do ambiente escolar, aumento dos investimentos em educação e desenvolvimento da gestão.

Dentre essas variáveis, contudo, a capacitação dos professores é a alavanca que está mais aberta ao direcionamento por parte das secretarias de Educação e a que pode ter maior impacto na aprendizagem dos alunos em curto prazo. “Diversos estudos compilados na pesquisa mostram que um aluno pode aprender de 47% a 70% a mais se exposto a bons professores”, aponta Daniela Arai, analista de projetos da área de Avaliação e Desenvolvimento do Instituto Ayrton Senna.

Ciclo de desenvolvimento
Segundo o diagnóstico feito pela pesquisa, para que as atividades de formação ocorram em condições ideais, é necessário que diversas etapas aconteçam de maneira interrelacionada. A primeira delas é a avaliação das necessidades da escola e do professor. Em seguida, deve ser definido o conteúdo a ser desenvolvido, além da forma da capacitação. É fundamental também que sejam estabelecidos incentivos para o professor buscar a formação continuada, como uma progressão na carreira. Por fim, deve ocorrer a avaliação de impacto do processo de formação.

Na opinião de Christian Orglmeister, esse ciclo de desenvolvimento não é realizado no Brasil principalmente porque não se tem clareza dos pontos positivos e negativos. “A gente não consegue falar com clareza onde o professor está indo bem e onde está indo mal. Eles próprios revelaram durante as entrevistas que se soubessem quais são esses pontos, já ajudaria bastante”, conta.

Desafios
De acordo com as entrevistas feitas com os quase 3 mil participantes, foram selecionamos os seis maiores desafios para a formação continuada. O primeiro deles é a carência de incentivos formais. “Nós temos maior número de professores que arcam com os custos dessa capacitação”, revela Daniela Arai. O segundo maior desafio apontado principalmente pelos professores é a escassez de tempo. Segundo o Censo escolar 2011, 22% dos professores brasileiros trabalha em duas ou mais escolas de Educação Básica.

Em terceiro lugar está a pouca aplicabilidade do conteúdo das ações oferecidas. “A maior parte dos nossos conteúdos são de caráter coletivo, pontual e fora da sala de aula. Quando todos os nossos cases internacionais mostram que as iniciativas mais eficazes são aquelas customizadas, práticas e dentro da sala de aula”, acrescenta Daniela.

O quarto desafio apontado foi a priorização de outras atividades que tem mais visibilidade em detrimento da formação, como o investimento em infraestrutura. Em quinto está a falta de alinhamento das ações de formação com os planos de carreira e desenvolvimento profissional dos professores. E por último, a alta rotatividade do corpo docente.

Inspirações nacionais e internacionais
A pesquisa traz também experiências internacionais que possam ser utilizadas pelos gestores de políticas públicas de maneira integral ou adaptada às realidades locais. Para selecionar essas experiências, foram levados em consideração países com alto desempenho no PISA, que tiveram uma melhoria na educação nos últimos anos ou que apresentem similaridades com o Brasil.

Entre os países selecionados estão Finlândia, Austrália, China, Estados Unidos, Chile, México e Portugal. Daniela Arai destaca alguns atributos em comum a esses sistemas educacionais, como a valorização docente, a existência de formação inicial de qualidade, práticas de formação continuada aplicáveis no dia a dia da sala de aula, como o coaching. Há também casos de observação de sala de aula e sistematização das práticas, além de incentivos aos professores que se engajam nos processos de formação e uma seleção rigorosa para o ingresso na carreira docente.

Já entre as experiências nacionais, destacam-se os estados de Goiás e Minas Gerais e os municípios Sobral, no Ceará, e Venda Nova do Imigrante, no Espírito Santo. “Em todas essas redes existe uma atenção muito especial com a formação de professores”, observa Daniela.

“Em Goiás, existe o programa de tutoria pedagógica, em que professores itinerantes observam as aulas. Já em Minas, há uma questão muito forte de olhar para a avaliação de desempenho dos alunos para pensar a formação docente. Em sobral, a avaliação casada com a formação também é forte, além da produção de materiais para atender as necessidades dos professores do município. E Venda Nova do Imigrante é um caso interessante porque eles criaram na educação infantil um sistema de observação de sala de aula”, detalha.

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