Fora da linha de montagem

Educador espanhol aponta dilemas do construtivismo e questiona eficácia das escolas que pretendem que todos os alunos aprendam o mesmo, em tempo igual

Compartilhe
, / 1037 0




Faoze Chibli

Uma cúpula de intelectuais, nos anos 90, recebeu a incumbência de estabelecer Parâmetros Curriculares Nacionais para o Brasil (PCNs ). Na mesma década, a Espanha mostrou ao mundo que o investimento em cultura era um ótimo negócio – acabou com o ranço da ditadura franquista na educação, melhorou seus indicadores econômicos e sociais e se tornou referência em turismo, principalmente cultural. César Coll Salvador, catedrático em psicologia da educação e um dos expoentes dessa mudança no país europeu, foi chamado para ajudar na elaboração dos parâmetros. Mas é equívoco pensar que, com isso, o Brasil lançou as bases para uma transformação de mesmo porte. Para Coll, não dá para comparar os projetos educacionais de um e outro país. “O modelo espanhol é muito mais potente”, acredita. Em passagem pelo Brasil, a convite do Colégio Pueri Domus, de São Paulo (SP), Coll falou à
Educação

sobre os rumos do construtivismo, os desafios de ensinar e o medo que tem de errar.




Revista Educação – Por que é importante a insegurança provocada no aluno por um novo conteúdo?



César Coll –



Uma aprendizagem significativa sempre comporta um momento inicial de confusão, de renúncia, de incerteza. Quando se pensa no ensino e em como proporcionar aprendizagens verdadeiras, é importante levar em conta que os alunos experimentem esse momento de desconcerto. Se não há isso, não há possibilidade de se construir uma nova aprendizagem.




Qual é o problema desse processo?




Toda a problemática do construtivismo gira em torno de como o professor pode ajudar o aluno a construir seu conhecimento a partir desse desequilíbrio inicial. O construtivismo sempre esteve mais preocupado em tentar explicar o que se passa dentro da cabeça do aluno quando ele aprende e não tanto em descobrir o que tem de se passar entre professor e aluno e entre o aluno e seus companheiros.




O sr. se refere aos conceitos elaborados por Piaget?




Sim, mas hoje falar em construtivismo é dizer muito pouco. Há muitas variantes, algumas são mais diferentes entre si do que entre outras perspectivas construtivistas. Quando falamos em construtivismo, colocamos um adjetivo: o construtivismo cognitivo lida com o processamento da informação; o construtivismo piagetiano é baseado na psicologia genética; o construtivismo de orientação sociocultural, embasado na teoria histórica e sociocultural. Há ainda o construtivismo da psicologia discursiva, da psicologia social, que nega a existência de processos psicológicos internos ao indivíduo. Há construtivismos muito diferentes. O que eu estava dizendo responde melhor a uma visão que poderíamos chamar de orientação sociocultural, segundo a qual aprender se dá quando se constrói uma representação, mas isso é feito em conjunto – o apoio vem dos companheiros, do professor. Pode parecer um pouco heterodoxo, mas a chave do construtivismo não está na aprendizagem e sim no ensino. Está em como o professor pode chegar realmente a ajudar seus alunos a aprender – ou o professor ou os companheiros, com um trabalho colaborativo, em equipe.




Especialistas relacionam problemas como indisciplina com a decadência das figuras de autoridade na sociedade. O que o sr. acha disso?




Esse é um fator complexo, que tem muitas causas. Alunos agressivos ou pouco colaborativos não têm estímulo [
na escola

] e se dedicam a fazer outras coisas porque o que aprendem, muitas vezes, não tem sentido. Não só na escola, mas na sociedade em geral, a figura do “maestro” perdeu prestígio. Vivemos em um contexto cultural impregnado pelo pós-modernismo, em que tudo vale. O conhecimento é efêmero. O que hoje é uma verdade absoluta amanhã é um erro enorme. Perdeu-se a noção do conhecimento como um processo acumulativo. É como se cada vez que se propõe algo novo, não vale se não se questionar radicalmente o conceito anterior – não se constrói sobre o anterior. O princípio da “autoridade” passar o conhecimento está em crise. Isso se reflete também na escola. À medida que essa legitimidade entra em crise, entra em crise a figura do professor. Mas o problema não está na escola.




É mais importante ajudar a aprender do que transmitir a verdade?




Não concordo com isso. Creio que tudo não vale igual: minha opinião sobre um edifício vale muito menos que a de um arquiteto. Posso opinar, mas é só uma opinião, não conhecimento. É nesse sentido que eu creio ser fundamental a transmissão. Não no sentido da transmissão unidirecional, com recepção passiva. Para mim, a palavra “transmissão” merece um grande respeito. O que nos distingue dos outros animais não é a capacidade de aprender e, sim, a de ensinar – eu, por exemplo, posso ajudar você a aprender o que já aprendi. Há animais com capacidade de aprender tão grande ou superior à nossa. Agora, ensinar, não, somos a única espécie que tem essa capacidade. Provavelmente pelo uso que somos capazes de fazer dos instrumentos semióticos, da língua e da fala, que nos permite reconstruir o conhecimento fora do contexto.




O sr. concorda com as análises que definem a educação como um processo de produção de indivíduos iguais?




Isso é impossível. A afirmação é certa no sentido em que a educação formal, escolar, cumpre muitas funções. Uma delas é tentar reproduzir o sistema, criar clones. Mas isso se choca com uma realidade psicológica: diante da mesma mensagem, diante do intento de ensinar o mesmo a cada um de nós, as pessoas percebem coisas diferentes. Em nosso funcionamento psicológico, cada um lê a mesma coisa de maneira diferente. Só podemos dar sentido ao que é dito a partir de nossa experiência, nossos interesses, nossa motivação, nossa carga genética. Muitos sistemas educativos pretendem que todos os alunos aprendam exatamente o mesmo, no mesmo dia, na mesma hora. Se a educação pretende reproduzir indivíduos iguais, fracassa sempre.




O conceito de arte-educação ajuda a quebrar esse padrão?




Eu não utilizaria essa expressão. Porque me dá medo de muita gente pensar que é algo não-canônico, que tudo é possível. Quando tento explicar a meus alunos algo, a primeira coisa que digo é que o primeiro que se deve fazer é entender. Quando um aluno me diz “penso que”, digo: “Muito bem, você pensa, mas experimente, depois me mostre que entendeu.” Só então se pode construir conhecimento. Eu, como professor, quero que meus alunos entendam o que explico. Senão, que faço eu aqui? Há que se partir do que se sabe. É como querer ler ou escrever utilizando códigos raros. Quero que meus alunos aprendam a escrever – e bem. A partir daí, quero que aprendam de tal maneira que possam converter isso em algo criativo, fazê-lo para uso próprio e ir mais adiante.




Então, o relativismo é um mal para a escola?




O relativismo total é contrário ao conhecimento científico, impede essa ação acumulativa, transformativa do conhecimento. Não sou partidário do relativismo atual, nem no conhecimento, nem nos valores, na política ou na ideologia. As opiniões não são idênticas. O relativismo levado aos extremos é desmobilizador e, para mim, absolutamente reacionário. Eu sigo pensando que uma cultura não justifica, digamos, uma discriminação da mulher, por muito que tenha se enraizado ao longo do tempo. Há coisas que não são iguais. A humanidade se conquista. Não vem por força divina nem por geração espontânea. Construímos a civilização, em muitos anos, com valores. O direito à vida, o direito à educação, a não-discriminação, a igualdade, há princípios que não se podem relativizar.




Por que há resistência às mudanças?




Em geral, o professorado não é melhor, nem pior, nem mais, nem menos resistente à mudança do que o conjunto da população. Vivemos em uma sociedade que não é caracterizada pelo altruísmo, nem por ganas de mudança, é evidente. O individualismo é crescente. Como querer que o professor se comporte de maneira diferente? Não há razão nenhuma para pensar que os professores sejam diferentes do comum dos mortais. Somos como todos, temos nossos medos, nossos fantasmas, uns somos de direita, outros somos de esquerda.




Quais são as responsabilidades da escola e da família na sociedade atual?




Sozinhas, nem a família nem a escola podem fazer alguma coisa. Nos equivocaríamos se esperássemos demais, com expectativas absolutamente desproporcionais. Trata-se de buscar co-responsabilidades e compromissos. Creio que é fundamental o reconhecimento das coisas que a escola pode fazer sozinha e tem a responsabilidade de fazer. Há outras coisas com que a escola pode colaborar, mas não pode fazer sozinha – tem que fazer com a co-responsabilidade de outros agentes sociais. E há, ainda, coisas que a escola não pode fazer de nenhuma maneira. Não lhe competem. Competem a outras instâncias sociais, aos poderes públicos, aos meios de comunicação, às associações, às organizações.




Qual é a sensibilidade fundamental para o professor?




Eu creio que sempre houve professores que souberam ajudar os alunos à margem de teorias pedagógicas. Alguns se saem melhor porque fazem e como fazem. O que há são instrumentos para ajudar a pensar um pouco mais. É como se você me perguntasse: “O que distingue um bom carpinteiro de um mau carpinteiro?”




Talento inato?




Não é inato. Provavelmente há uma predisposição, mas é preciso a busca da orientação, do progresso, avançar. Alguns professores têm mais sensibilidade, mas isso se adquire com os anos. Para mim, o fator fundamental é como se posiciona uma pessoa diante do conhecimento. Valorizando, sendo crítico, mas, ao mesmo tempo, sendo respeitoso, tentando ir além. Estou há muitos anos ensinando e sempre que termino um curso fico com a sensação de que fracassei com um número muito importante de alunos porque não consegui contextualizar. Me pergunto onde errei. No próximo ano, não me equivoco com a mesma coisa, mas com outra coisa.




Não é preciso paixão?




Isso em qualquer profissão. A primeira coisa que distingue um bom profissional é o prazer pelo que faz. Senão, não será um bom profissional.


Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN