Foco em cada aluno

Atenção individualizada é diferencial no Colégio Vértice

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Na segunda semana de abril, diversos jornalistas entraram em contato com a pedagoga Walkiria Gattermaiyr Ribeiro, diretora-geral e fundadora do Colégio Vértice, em São Paulo. Ela, no entanto, estava em Brasília, convidada pela Comissão de Educação do Senado para "fornecer parâmetros capazes de ajudar a melhorar a educação do país", na definição do diretor-adjunto Adilson Garcia. Fez bem a Comissão de Educação. Certamente há algo a aprender com esse colégio paulistano de porte médio, pelos padrões atuais, com seus 860 alunos, vagas disponíveis só em 2010 e uma longa fila de espera para matrícula.

O motivo do convite a Walkiria – e da procura dos jornalistas – foi o excepcional desempenho do Vértice no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): primeiro lugar no Estado de São Paulo pelo terceiro ano consecutivo; terceiro, segundo e terceiro lugares no Brasil em 2005, 2006 e 2007, respectivamente, num universo de mais de 22 mil escolas. O resultado no Enem transformou-se numa vitrine para a escola, mas, segundo sua direção, não é prioridade. "É apenas uma conseqüência do trabalho que realizamos aqui no dia-a-dia", afirma Ana Maria Gouveia Bertoli, que, ao lado do professor Adilson, integra o quadro de nove diretores-adjuntos da escola.

O mesmo ponto de vista é aplicado em relação ao vestibular: a aprovação de um grande número de alunos, sem necessidade de cursinho, "é uma conseqüência, e não um objetivo", na definição dos diretores. A estatística, no entanto, impressiona: nos últimos anos, entre 90% e 95% dos alunos do 3º ano do ensino médio do Vértice ingressaram na universidade. "Desses, de 80% a 85% entraram na primeira opção. Considerando só o universo das faculdades públicas, no âmbito da Fuvest-USP, 60% dos nossos alunos, em média, passaram na primeira fase e por volta de 50% foram aprovados. Ou seja, um terço do total dos alunos do Vértice que prestam vestibular consegue ingressar numa faculdade pública", diz Adilson. "E sem cursinho", acrescenta Ana Maria.

A explicação para isso é que o ensino médio, desde a série inicial, adota uma carga horária diferenciada. No 1º e no 2º anos, o período é semi-integral, com cerca de 38 aulas por semana; no 3º torna-se integral, com 55 aulas semanais – das 7 às 19 horas de segunda a sexta e simulado no sábado. Fora isso, o percentual de retenção de uma série para outra, há vários anos, está entre 1% e 2%. 


O Colégio busca sempre atender às particularidades dos alunos

No começo, uma classe

Ana Maria conheceu o Vértice na condição de supervisora de ensino da Secretaria da Educação do Estado. Ao se aposentar, há dez anos, foi convidada a trabalhar no colégio. "Aqui, o aluno é visto como um indivíduo, um ser biopsicossocial. O atendimento individualizado é fundamental. Queremos saber tudo do aluno, principalmente quando se registra uma dificuldade de aprendizagem: biologicamente, como ele é? Está enfrentando um problema? Chamamos os pais para as reuniões, para saber como está a situação em casa, como é o relacionamento familiar, como ele se alimenta, como dorme, se é um respirador bucal, se tem rinite, se perdeu alguém próximo."

A atenção individualizada, que na opinião dos diretores representa um diferencial de peso, se tornou possível pela própria história do Vértice, iniciada há 31 anos, quando a professora e pedagoga Walkiria Ribeiro abriu a escola. No início, havia apenas uma classe de educação infantil. Nos anos seguintes, foram-se abrindo as séries subseqüentes, ano a ano, até chegar, 11 anos depois, ao ensino médio. Até hoje, 20 turmas já foram formadas.

A menor mensalidade, na educação infantil, é de R$ 1.074; a maior, de R$ 2.336, no 3º ano do ensino médio. "Em nenhum lugar do mundo escola de qualidade é barata", lembra Adilson.


Infra-estrutura


O colégio não impressiona pelas instalações nem pela infra-estrutura. Em duas ruas no Campo Belo, bairro na zona sul de São Paulo, três unidades estão instaladas em duas quadras limítrofes, numa área de 4 mil m2, com soluções arquitetônicas criativas que fizeram a escola parecer uma pequena comunidade, com ruas e praças em miniatura – uma minicidade intrincada, que favorece o relacionamento, sem divisões por séries ou níveis. Há apenas três quadras de esporte, bem menores do que as medidas oficiais. Não há teatro nem auditório. O colégio também não oferece Educação para Jovens e Adultos, novo nome do curso supletivo noturno.

Na rua Princesa Isabel, a unidade que deu origem à classe inaugural do Vértice hoje é ocupada pelas primeiras cinco séries do ensino fundamental. Em frente está o Curumim, dos alunos de educação infantil, que se liga com o prédio que dá frente para a rua Vieira de Moraes, onde funcionam as classes finais do ensino fundamental e o ensino médio. Ou seja, desde a abertura do colégio, em 1977, a ampliação se deu de maneira a permitir que a classe mais distante da outra permanecesse num raio máximo de 100 metros.

Essa cultura de permanência repete-se com os professores, como explica Adilson Garcia, que trabalha na escola há 16 anos e continua dando aula: "Cerca de 40% dos profissionais estão conosco há pelo menos dez anos e a rotatividade é muito pequena. Esse é um ponto fundamental, a satisfação no dia-a-dia como um diferencial que dificilmente se encontra no mercado". A escola tem 70 educadores, o que significa pouco menos de dez por aluno, e aproximadamente 30 funcionários. Os professores, segundo Adilson, ganham em média R$ 6 mil mensais e a maioria trabalha em regime de dedicação integral.


Adilson Garcia, diretor – adjunto do Vértice: alto índice de aprovação em universidades públicas

Há um cuidado especial em evitar que os alunos fiquem sem aula. "Quando falta algum professor, há uma disputa para saber quem vai dar aula no lugar dele. A idéia é que o aluno nunca fique sem aula", assegura Adilson.


Proposta pedagógica


 "Visamos sempre à formação integral do aluno. Primeiro, temos uma seqüência didática muito bem definida, que representa o significado de estudar aqui. Depois, fazemos um acompanhamento individual muito forte. Terceiro, temos uma disciplina rigorosa e bem definida. Em quarto lugar, há a questão das avaliações, quantitativa e qualitativa. Esses aspectos são os diferenciais da escola", resume o diretor-adjunto.

Para transformar esse ideário em prática, o primeiro passo é a criação de um quadro de professores, orientadores e coordenadores de excelência, por meio da formação continuada.

Ana Maria Bertoli, diretora pedagógica, acompanha a formação dos professores, a metodologia utilizada em sala de aula, a seqüência didática e o rendimento dos alunos. "Antigamente, pensava-se muito mais em como ensinar do que em como o aluno aprende. Para saber como o aluno aprende, fazemos uma capacitação contínua, com leituras, palestras e reflexão sobre textos que contextualizam os temas das aulas e refletem a realidade: neurociência, dificuldades de aprendizagem, dislexia, avaliação e muitos outros assuntos." 

O projeto pedagógico enfatiza os trabalhos interdisciplinares, tanto nas aulas como nas saídas pedagógicas, para contato com ambientes diferentes. No ano passado, por exemplo, as saídas foram as mais variadas possíveis. A 3ª série do ensino médio foi ao Zoo-lógico de São Paulo e a 2ª, ao Museu de Biologia da USP; o 6º ano foi ao Museu da Língua Portuguesa; as crianças do 1º ano do ensino fundamental conheceram o Museu do Imigrante e um templo budista; os alunos do 2º ano do ensino fundamental visitaram um sítio em Itapecerica da Serra e participaram do projeto Brasil Folclore; o 4º ano foi a uma fazenda de café e ao Museu Ferroviário; o 7º e o 8º anos visitaram o Hospital do Coração.

O projeto anual da escola reúne todas as séries em torno de um mesmo tema e envolve a comunidade da vizinhança. Neste ano, o foco é ecologia, e estão previstas diversas atividades, com destaque para um evento público em que a rua do colégio é fechada para apresentações culturais e artísticas. Na edição anterior o tema foi o Oriente Médio, quando árabes e judeus ganharam espaço para se manifestar.

O que mais chama a atenção no Vértice é a evidente falta de disposição de crescer a todo custo, de multiplicar-se país afora. O crescimento tem sido lento e planejado. Novas vagas, apenas em 2010.

Em 1994, a escola contava com apenas 194 alunos. A idéia inicial, segundo Adilson, era chegar ao máximo de 600 alunos. "Mas, com o efeito multiplicador do Enem e a exposição na mídia, a pressão foi tamanha que ficou difícil não ampliar. Porém, não vai passar muito disso, até 900 alunos", prevê. "Se tivéssemos essa preocupação comercial, amanhã abriríamos três escolas iguais a esta." (RM)

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