Finlândia inicia mais uma reforma em busca de melhorias

Marjo Kyllönen, secretária de Educação de Helsinque, detalha mudanças que trabalharão colaboração e habilidade social

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Divulgação
Marjo Kyllönen: colaboração e habilidade social são algumas das principais competências que precisam ser trabalhadas

Marjo Kyllönen é uma entusiasta da transformação educacional. Com o pensamento lá na frente, imagina como será o mundo daqui a 50 anos e confronta a imagem com o perfil de pessoas que está sendo forjado nas escolas de hoje, um exercício que usa para defender a realização de mudanças profundas. Se não fosse por esse olhar, aliás, sua posição estaria muito confortável. Desde 2004, Marjo está à frente da secretaria de Educação da capital da Finlândia, país tido como modelo para muitos gestores educacionais. Seus estudantes têm desempenho acima da média mundial, sem que para isso seja necessário massacrá-los diariamente com horas e horas de estudo, como na Coreia do Sul e na China, outras estrelas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Pisa.

Entre todos os membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada majoritariamente por nações de elevado PIB per capita e alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a Finlândia também é o país onde a lacuna de aprendizado entre os alunos de baixo rendimento e os de alto rendimento é a menor, o que comprova a eficácia das ações empreendidas a partir da década de 1960 para tornar o sistema educacional mais igualitário. Mas apesar desses fatos, Marjo e outras lideranças finlandesas não estão satisfeitas. Querem inovar e a razão disso é muito simples para a gestora: o mundo mudou e as crianças precisam adquirir competências diferentes daquelas trabalhadas por esse modelo de escola que vigora desde a era industrial.

Rumo a essa transformação necessária, o país está promovendo uma reforma curricular cujo aspecto que mais chama a atenção é a adoção de uma metodologia de ensino baseada na observação de fenômenos. A maioria das aulas será ministrada de forma interdisciplinar por vários professores, que passarão a trabalhar em equipe. Isso já está acontecendo em algumas escolas de Helsinque e será adotado nacionalmente, como detalha a gestora, que veio ao Brasil para participar do evento Transformar, promovido pela Fundação Lemann e os institutos Inspirare e Península.

O sistema educacional finlandês é considerado um dos mais bem-sucedidos do mundo. Por que reformulá-lo?
A escola tradicional foi criada para a era industrial, um tempo marcado pela produção em massa e pela estabilidade do mercado de trabalho. As pessoas se formavam e se aposentavam naquela profissão e até na mesma empresa em que começavam a vida profissional. A obediência, a adesão a regras, a capacidade de trabalhar individualmente – e não em colaboração com outras pessoas – eram competências muito valorizadas. Essa realidade foi ultrapassada e a escola precisa se adaptar ao contexto atual. Mais do que isso: precisa de visão de longo prazo. Uma criança matriculada no 1º ano do ensino fundamental hoje será um profissional ativo do mercado de trabalho em 2070! Vejo um gap entre a escola e a vida real. Não estamos preparando as crianças adequadamente para o que vem por aí e para o que já está acontecendo.

Quais são então as competências que precisam ser trabalhadas daqui para frente?
As primeiras são a colaboração e a habilidade social. Essas competências são importantes para preparar os jovens para trabalhar, resolver problemas e construir co­nhecimento em equipe. Essas habilidades também são úteis para formar pessoas que não busquem apenas benefícios próprios, mas que se preocupem com os outros, algo que considero essencial para o fortalecimento das sociedades. Outra habilidade é a do pensamento crítico. As crianças têm de aprender a interpretar informações, a fazer análises, a empregar conceitos adequadamente, enfim, a pensar de forma independente. A informação está disponível para quem quiser acessá-la hoje; não há sentido em memorizá-la. A criatividade é outro aspecto importante que precisa ser enfatizado em oposição à valorização do acerto. As crianças devem ser encorajadas a se arriscar, a tentar coisas diferentes, mesmo que nesse processo cometam mais erros.

De que maneira a reformulação curricular e a adoção da metodologia baseada na observação de fenômenos contribuirá com o desenvolvimento dessas competências?
As mudanças tornarão a aprendizagem significativa para os alunos, uma vez que não se baseará na exposição isolada de conteúdos de diferentes disciplinas. Os conteúdos serão ancorados na vida real, daí a ideia de trabalhar com a observação de fenômenos que possam ser explorados por professores de diferentes disciplinas. Estes passarão a trabalhar juntos, e não mais isoladamente. Os alunos terão uma participação mais ativa também, o que lhes dará condição de desenvolver as competências que mencionei anteriormente.

Como vocês estão preparando os professores para essas mudanças?
Essa é uma longa história. Em 2000, comecei a pesquisar o tema da liderança questionando de que tipo de líderes precisávamos em nossas escolas para promover a colaboração entre os professores, algo que estava em falta em nosso sistema educacional. Já na secretaria de Educação de Helsinque, concordamos que tínhamos de investir nesse campo. Em 2005, criamos um grupo de lideranças composto por diretores, vice-diretores e professores. Começamos pelos professores, que diziam que não precisavam desse tipo de treinamento, uma vez que não iriam gerenciar seus colegas. Percebemos então que precisaríamos mudar essa atitude, o que nos consumiu dois anos de trabalho. Em 2010, iniciamos outro programa, também de liderança, para discutir como poderíamos fortalecer a cultura de colaboração. Esse trabalho ajudou a formar um ””estoque”” de professores líderes com condições para atuar na linha de frente de situações como essa. Em vez de o governo dizer como as coisas agora devem ser conduzidas, são os professores que já estão trabalhando nesse modelo que estão fazendo isso. São eles que estão mostrando para os demais como empregar esse método interdisciplinar baseado na observação de fenômenos.
 
Quantas escolas já se adaptaram ao novo modelo?
É difícil dizer, pois, ao menos em Helsinque, a maioria das escolas já fez ao menos pequenos experimentos nesse terreno. Quando todos os professores tiverem essa experiência do ensino interdisciplinar, ninguém vai querer voltar para o modelo antigo. Todos verão o quanto a conexão com o mundo real pode ser motivadora para as crianças e eficaz para o aprendizado. É claro que algumas escolas serão mais rápidas na adoção do método, enquanto outras precisarão de mais tempo para fazê-lo. Para acelerar essa reforma, contaremos a partir de 2016 com a ação dos líderes distritais. Eles farão visitas regulares a cada uma das escolas do distrito a fim de orientar os diretores escolares, e não os inspecionar. Será uma ocasião para os diretores discutirem o que estão fazendo, expor suas dificuldades e dúvidas.

E quanto às instituições de ensino superior que formam professores? Elas também estão passando por um processo de mudança?
Sem dúvida. Nossas universidades entenderam que precisam mudar suas práticas se quiserem formar uma nova geração de professores. Elas também estão contribuindo com a realização de pesquisas sobre a sala de aula invertida, a aprendizagem baseada na observação de fenômenos, o ensino interdisciplinar. E, naturalmente, também estão realizando conferências e encontros sobre o tema da reforma educacional. As discussões estão ocorrendo em todas as universidades. É preciso ressaltar que muitos professores e pesquisadores já defendiam a necessidade de uma reforma, portanto, não estamos falando de algo que elas estão apenas encampando. A gênese da mudança também está na universidade.  

Com um ensino majoritariamente interdisciplinar, os livros e os materiais didáticos tradicionais serão aposentados?
Sim. Isso é uma coisa que estamos discutindo há um longo tempo. Embora o livro seja fonte de informações, nossos professores de­vem ensinar de acordo com o currículo. Os objetivos e os conteúdos de aprendizagem vêm daí. Porém, se não dermos nenhuma ferramenta prática para os professores trabalharem, estaremos negligenciando-os. E isso não pode acontecer. Precisamos dessas ferramentas, de materiais prontos. Os materiais tradicionais estão sendo dispensados aos poucos, mas estamos trabalhando para ter orientações formalizadas, exemplos de boas práticas de ensino baseado em fenômenos. Também estamos produzindo vídeos. Os professores não serão abandonados.

Como funcionará a avaliação nas aulas ministradas com essa nova metodologia?
Continuamos atribuindo notas, pois isso está previsto em nossa legislação. Mas estamos preparando ferramentas práticas para orientar os professores a avaliar os alunos dentro dessa nova realidade. Teremos modelos para conduzir esse processo. Em Helsinque, um professor de escola primária relatou que alguns pais estão desconfiados. Alguns já perguntaram qual referência os professores estão usando para mensurar o estágio de desenvolvimento das crianças, uma vez que não há qualquer livro ou texto de base em uso. Quando os pais chegam com essas dúvidas, eles têm de mostrar que, no lugar das provas e das notas, há um portfólio no qual estão descritos os estágios do processo de aprendizagem e os feedbacks que estão sendo dados às crianças. Com isso, eles estão provando que não precisam de provas para dar feedback e identificar, para cada um dos alunos, quais aspectos precisam ser mais bem trabalhados. Afinal, qual é o objetivo de uma avaliação? Classificar as pessoas em ””A””, ””B””, ””C””? O que isso significa exatamente? Que indicativos essas marcações trazem sobre como evoluir no processo de aprendizagem? Atribuir notas não contribui com o desenvolvimento das crianças; são as orientações, os conselhos de um professor que fazem o aprendizado avançar.

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