Fantasias alternativas

Caminhos pelos quais os sonhos apartados do real dominaram as políticas públicas

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Monoar Rahman Rony | Pixaby

Monoar Rahman Rony | Pixaby

As revoltas de 68 foram um marco para minha geração. Ainda crianças, não vivemos seus acontecimentos, mas a imagem que legaram para os jovens que os sucederam. O regime militar, com a pretensão de controlar a memória compartilhada, procurou por todos os meios silenciar seus ecos. Mas eles se propagavam por panfletos e sussurros, ignorando a força bruta dos burocratas do regime. O silêncio oficial sobre os acontecimentos daquele ano só aumentava sua importância a nossos olhos. Invejávamos a coragem dos estudantes brasileiros que haviam tomado as ruas clamando por liberdade; a ousadia dos franceses que sonhavam com a imaginação no poder ou a radicalidade dos negros norte-americanos na luta pela afirmação de sua identidade.

Mas havia um eco desse movimento que nos chegava sem que, à época, dele tivéssemos clara consciência: a profunda transformação que começava a se operar nos costumes e na moral sexual. Convicções, crenças e tradições que guiaram as condutas e as consciências das gerações precedentes pareciam hipócritas e obsoletas. Não era sequer o caso de reformá-las, mas de eliminá-las em nome de uma nova era. E assim – na lúcida insensatez de nossos sonhos juvenis – fantasiávamos comunidades fraternas e livres da repressão política e sexual. Cantávamos com Lennon a possibilidade de uma irmandade humana a compartilhar um mundo sem guerras, sem fome e unido em torno ao gozo sem limites da vida. E sonhávamos com escolas nas quais esse destino futuro fincasse suas raízes
já no presente.

Derrubar os muros que separavam as salas de aula do mundo; acabar com o currículo compulsório que atava o presente a um passado indesejável e abolir a disciplina que castrava no berço a curiosidade intelectual de cada criança. Esses eram – no geral – os ideais pedagógicos que se teciam em torno do que acreditávamos ser a aurora de uma nova era. E a partir deles se fundaram dezenas de escolas que, à época, chamávamos de “alternativas”. O que as unia – como se depreende da própria designação – era mais uma recusa ao passado do que um claro conjunto compartilhado de práticas ou princípios.

Suas mais exitosas experiências vingaram entre os segmentos economicamente privilegiados e familiarizados com a cultura letrada. Ou seja, mostraram-se boas escolas para um público que pouco dependia da própria experiência escolar para alcançar o desempenho que dele se esperava. O destino que essas instituições tomaram foi tão variado como suas experiências pedagógicas. Face à pressão cada vez maior por resultados tangíveis, expressos na aprovação em vestibulares concorridos e avaliações comparativas, muitas fecharam. Outras se tornaram tão rígidas e conservadoras quanto as que criticavam. Mas, o fato é que, a despeito da retórica politizada que as embalava, pouco efeito direto tiveram sobre as práticas cotidianas das escolas públicas.

Paradoxalmente, há um campo no qual seus pedagogos triunfaram: transformaram-se em ideólogos de políticas públicas, disseminando um discurso cuja aceitação generalizada esconde seu completo divórcio com a concretude do cotidiano da escola pública. Talvez, de uma forma que os jovens franceses jamais pudessem esperar, a imaginação tenha chegado ao poder: não exatamente como um exercício crítico do real, mas antes como uma doce e inócua fantasia que dele nos mantém apartado.

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