Faltam professores

Carência de professores de ciências atrasa o desenvolvimento ecônomico do Brasil

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Por Alexandre Sayad



 


Um levantamento realizado em 2004 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Inep, revela uma carência no sistema educacional brasileiro, inusitada para um país que ostenta altos índices de desemprego: faltam professores em sala de aula. Além de surpreendentes, os dados são alarmantes. Eles mostram que seriam necessários 254 mil professores para turmas do segundo ciclo do Ensino Fundamental, que exige formação em licenciatura.









 Cárcamo





 Além da falta de professores de ciência, equipamentos obsoletos e laboratórios

precários atrasam o desenvolvimento da área

Contando com o Ensino Médio e mais o primeiro ciclo do Ensino Fundamental, o déficit chega a 711 mil professores na rede pública. O quadro varia de região para região do país e aponta para a diferença entre uma demanda “ideal” do ensino e a quantidade de professores licenciados. Pior que isso, revela uma situação peculiar: embora todas as disciplinas sofram com a falta de profissionais, Química, Física e Matemática são as mais carentes.



“O caso é gravíssimo e pode piorar com a inexorável expansão do ensino médio”, alerta Ebenezer Pacheco, presidente do Inep. “Nas escolas o que se vê são professores cumprindo aulas não diretamente ligadas à sua formação, outros com carga horária excessiva e alunos de ensino médio se formando sem cursar Física ou Matemática por falta de docentes”. Ainda que o MEC tenha recentemente aberto oitocentas vagas para professores de algumas instituições federais, essa improvisação cotidiana tenta compensar a falta de novos concursos, inclusive nas secretarias estaduais ou municipais.


Dentre todas as disciplinas, o caso mais preocupante é o da Física. Hoje faltam quase 24 mil profissionais e a perspectiva de licenciados até 2010 é de apenas mais 14 mil professores. Há problemas também no caso da disciplina Ciências, do segundo ciclo ensino fundamental. A maioria dos docentes atuais é licenciada em Biologia, mas Química e Física também são habilitações importantes para essa cadeira, e sua falta causa um desequilíbrio de visões nessa área.


Segundo uma pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os estudantes brasileiros têm o pior desempenho nas áreas de Matemática e Ciências entre 37 países. A pesquisa fez parte do PISA (Avaliação Internacional de Estudantes) e estava relacionada à aplicação prática do conhecimento, porque as questões abordavam aspectos do dia-a-dia. Ebenezer Pacheco do Inep informa que novos dados, mais precisos, sobre a demanda de professores de exatas e biológicas serão divulgados até o fim do ano. “Há uma necessidade urgente de precisarmos mais a situação”, afirma.


Um conjunto de fatores e distorções históricas podem ter causado essa situação. Além dos proverbiais baixos salários dos professores, o país despertou tardiamente para a importância da pesquisa científica (cerca de apenas 1% dos artigos científicos publicados no mundo são de brasileiros, segundo estudo da revista britânica
Nature

), para a formação acadêmica do pesquisador e do professor e para a importância de ensinar as ciências como algo que esteja presente no dia-dia dos estudantes, como propõem os PCNs desde a década de 90.


Para a Professora Eda Tassara, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, não é mera coincidência que as áreas mais deficitárias sejam também as mais antipatizadas pelos estudantes. “Ciência é forma de se enxergar o mundo, mas a universidade e a escola trabalham como se fosse uma abstração; há necessidade de se refletir sobre o que ensinar e como ensinar”, afirma. “As ciências até a II Guerra Mundial eram coisas de filósofos, intelectuais, gente que pensava o mundo. Hoje o sistema todo pode produzir ciência. As pessoas vêem isso como inovação, mas não como um dado da cultura, ou seja, como um bem do patrimônio coletivo”, explica Eda.


Segundo ela, para que os profissionais que se formam na área sigam a carreira na educação é necessária uma melhor preparação do professor e da escola para a abordagem das ciências. “É surrealismo ensinar equação de segundo grau como apenas uma abstração para um garoto de 16 anos. Há um mundo de descobertas que podem ser relacionadas àquele procedimento algébrico. A educação cientifica pode esclarecer elementos que compõe a cultura dele.”


Por ocasião do Prêmio Cientistas de Amanhã, do qual é coordenadora, Eda observou o desperdício de talentos na área. Realizado pela Unesco e pela SBPC, o evento reúne projetos científicos pré-universitários. Segundo ela, a qualidade da maioria das propostas apresentadas no 47º encontro é boa, mas poderia ser excelente. “Os melhores projetos são os que têm apoio das universidades, como a UFRS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)”.


Produção de ciência é desenvolvimento



É com ênfase política que o representante da Unesco (Organização das Nações Unidas para Ciência e Cultura) no Brasil, Jorge Werthein, alerta para a relação entre a produção de conhecimento e o desenvolvimento econômico e social dos países. “Se considerarmos as nações que crescem rapidamente ou que estão no topo da lista, todas estão liderando a produção de conhecimento científico”, afirma. Para ele, os governos devem urgentemente reforçar o estudo das ciências exatas e biológicas e torna-lo popular.”O ensino das ciências seria uma solução para muitos problemas no Brasil e é muito importante para que o estudante reforce sua curiosidade e raciocínio e melhore seu desempenho nas outras disciplinas”, defende. Para ele, o aprendizado de Química, Física e Biologia deveria se iniciar logo nas primeiras series do primeiro ciclo do Ensino Fundamental.


Com o objetivo de discutir e apresentar experiências em disseminação de conhecimento científico, educação e divulgação científica, acadêmicos, governos e profissionais da área de diversos países se reuniram em 2004, na sede da Estação Ciência da USP (Universidade de São Paulo) para um encontro inédito.


“Quem se forma em Química na universidade brasileira, como eu, não se sente um cientista e muito menos um professor”, acredita Ivo Leite Filho, docente do setor educativo da Estação Ciência e um dos organizadores do evento. Para ele, o professor deve sentir-se um cientista para poder ensinar ciência como visão de mundo.


Leite foi por 12 anos professor dos ensinos Fundamental e Médio em Campo Grande (MS) e sentiu na pele a falta de estímulo para o exercício da profissão de educador no Brasil. Segundo ele, as questões fundamentais ligadas ao quadro de falta de docentes no Brasil residem no papel da Universidade, na política salarial aplicada aos professores e na importância da divulgação científica.


“Segui a carreira de professor porque tive grandes referências no ensino universitário, grandes mestres que me estimularam, além de muita vontade em transformar meu conhecimento pessoal em coletivo, mas não foi definitivamente por conta da boa remuneração”, relembra Leite.


Quando ele lecionava para a rede pública do Mato Grosso do Sul, tinha dificuldade em aplicar o conhecimento às questões do dia-a-dia porque sofria com a falta de laboratórios bem equipados. “O professor não é um é um mero transmissor de informação, mas deve aplicar aquela informação para que se transforme em conhecimento”.


Agora professor acadêmico, Leite acredita também que o papel da universidade deve ser totalmente repensado. “Só se faz pesquisa na universidade a partir da pós-graduação; a pesquisa deveria existir sempre, porque desperta o profissional para o conhecimento; o acadêmico que se forma e vai dar aula se torna um repetidor daquelas abstrações que acabou de aprender”, explica. Como conseqüência disso, segundo ele, as bolsas e os incentivos à pesquisa ficam concentrados nos doutorados, gerando um círculo vicioso. A universidade deve ter um papel provocador, que reverteria em melhorias para os ensinos médio e fundamental.


Assim também pensa o professor de Física Alberto do Carmo, redator do Departamento de Promoção do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que lamenta a atual condição da universidade. “Os ditos centros de excelência vêm sucateando seus cursos de licenciatura em favor das áreas de bacharelado e das pesquisas nas áreas de pós-graduação. A maior parte dos estudantes de Física se direciona para a pesquisa e não se aprimora em termos pedagógicos. E o atual professor de universidade é dispensado de preparação didática”, reclama.


Nesse sentido, o encontro anual de 2004 da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que aconteceu em Cuiabá (MT), ousou em sua proposta de reforma universitária. A idéia mais discutida no encontro foi a de reestruturar o modelo de curso para que o estudante tenha mais flexibilidade ao escolher uma carreira a seguir. Dessa forma, os atuais cursos, de quatro ou cinco anos, se transformariam em dois cursos seqüenciais de dois ou três anos cada, com grau crescente de especialização. A criação de grupos de estudos, a redução do número das disciplinas e a criação de uma agência verificadora de novos cursos foram outros temas debatidos que evitariam a evasão de estudantes. Por outro lado, o MEC já planeja ampliar as vagas universitárias para cursos que sofrem mais carência de professores, além de criar outros incentivos aos professores que utilizem a experiência de sala de aula como proposta de pesquisa acadêmica.


O Ministério da Ciência e Tecnologia também analisa o déficit de professores e a precariedade da divulgação científica no Brasil. Independente do que a sociedade civil possa trazer em termos de contribuição, o problema da difusão das ciências como questão cultural também é foco de ações do MCT para 2005.


“Existem várias ações previstas para a popularização da ciência no Brasil. Na questão educativa o foco é o fortalecimento dos museus, a criação de centros de ciências e o fornecimento de bolsas para professores. Na questão da divulgação científica estamos formando parceria com universidades inglesas para melhor preparar o jornalismo científico brasileiro”, garante Ildeu Moreira, da Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social, do MCT. “Como estímulo aos professores em 2005, o Ano Mundial da Física, realizaremos atividades e desenvolvimento de ações educativas em museus itinerantes com esse tema”, completa.



A difusão das ciências no exterior e no interior



Quando analisamos a situação do Brasil e a comparamos a um país em que a educação científica tem outro porte percebemos que, de fato, a ciência ainda não ocupa por aqui um lugar tão importante no imaginário popular. A experiência do Reino Unido, mais precisamente no País de Gales, é exemplar: quando a ciência tem importância semelhante à arte ou mesmo ao futebol, o estímulo ao ensino acaba por se desenvolver.


“Os salários de nossos professores não são tão baixos quanto os brasileiros, mas enfrentamos diariamente problemas semelhantes aos de vocês com relação ao ensino de ciência e a conseqüente questão da indisciplina da classe ou falta de professores. Vencemos isso com criatividade”, explica Colin Johnson, diretor do
Techniquest

, o maior museu de ciências interativo da Europa que tem sua em Cardiff, País de Gales.


Johnson esteve no Brasil para apresentar a educadores a forma com que o museu se sustenta financeiramente e interage com o currículo escolar. O museu é público e mantido pela venda de ingressos e pelo
Commonwealth

(organização dos países de língua inglesa). Recebe semanalmente dois mil visitantes, em sua maioria de escolas públicas do Reino Unido. Utiliza-se de 50 diferentes exibições para reforçar, junto a educadores e estudantes, as disciplinas e o conteúdo do ensino básico.


“Não há como o educador não vincular seu conhecimento às experiências práticas, isso torna o ensino estimulante. Trabalhamos com 1400 escolas e envolvemos mais de 300 educadores no projeto”, orgulha-se Johnson. O museu foi um passo importante para a revitalização urbana da cidade de Cardiff e agora se associou a museus de outros cinco países.


No Brasil, se depender das parcerias realizadas entre poder público, a iniciativa privada e a universidade, o ensino de ciências começará em breve ganhar sua devida importância. A cidade de Santo André (região da grande São Paulo), por exemplo, ganhou no ano passado a Escola Parque da Ciência, numa área de 420 mil metros quadrados. O projeto de R$114 milhões, no modelo da Estação Ciência e do
Techniquest

, entrelaça o currículo do ensino básico a atividades práticas, envolvendo professores e alunos me exposições fixas e itinerantes.


Em São Paulo, capital, ganhou força no segundo semestre de 2004 a terceira fase do projeto “A cidade que a gente quer”, parceria entre o MIT (
Massachussetts Institute of Technology

), a USP e a Secretaria Municipal de Educação. “Esta parceria surgiu da necessidade de levar às escolas públicas do município de São Paulo novas metodologias de trabalho com alunos e professores”, explica Roseli de Deus Lopes, coordenadora do projeto.


“Por meio de um tema gerador, envolvemos os professores e os estudantes na busca de soluções científicas para os problemas da comunidade, utilizando sucata eletrônica, princípios de robótica, softwares, máquinas fotográficas, filmadoras, webcam, componentes eletromecânicos, criamos um ambiente rico em estímulos”, completa. A meta principal do projeto na nova gestão da cidade é estender o projeto a todas as escolas da rede nos dois próximos anos.


É também na rede municipal de educação de São Paulo que a empresa produtora de material didático Sangari aplicou seu primeiro programa CTC (Ciência Tecnologia e Criatividade). “A questão de exclusão científica no Brasil é preocupante. Professores têm que estar aptos a preparar os estudantes para enxergarem o mundo de forma diferente, sob a ótica da ciência”, explica a Professora Ana Rosa Abreu, diretora de projetos especiais do Instituto Sangari, acerca dos objetivos do programa.


No ano passado, 15 escolas e CEUs receberam material didático e metodologia de ensino de ciências aplicada à prática, relativa ao primeiro ciclo do ensino fundamental e trabalharam os projetos. Como experiência piloto, foi considerada bem sucedida por ambos os lados.”Acreditamos que um professor bem instrumentalizado é o primeiro passo para reverter a situação do ensino de ciências”, pontua Ana Rosa. Em 2005, a secretaria Estadual de Educação do São Paulo e a Unesco acabam de unir-se ao projeto para amplia-lo a toda rede pública.


Quem também aponta sua luneta para o ensino e ciências no Brasil e pretende aumentar a oferta de metodologias e material didático para os professores é o Discovery School, versão escolar do canal Discovery Channel. “Estamos fechando as parcerias até julho para tradução de todo o material do Discovery, entre fitas de vídeo, apostilas, revistas e DVDs, e pretendemos garantir a implantação de uma nova metodologia de ciências”, garante Adolfo Schmukler, diretor geral do projeto, que estará presente em redes de escolas particulares e também, de forma subsidiada, em instituições públicas e ONGs que realizam trabalhos educativos.


 




Serviço





Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)




Site:





www.sbpcnet.org.br






Techniquest




Site:





www.techniquest.org




Prêmio Cientistas de Amanhã




Site:





www.cientistasdeamanha.com





Portal Educacional do Instituto Sangari




Site:





www.eduportal.sangari.com.br/home.asp




 




“Cidade que a gente quer” – Informações abertas e algumas fechadas





Site





http://nate.lsi.usp.br/cidade




 

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