Falta diversidade

O desconhecimento da história africana e sua influência na cultura brasileira ainda é um empecilho para o planejamento didático, mas cresce a oferta de formação na área

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Cursos de graduação em história e algumas universidades estão abrindo pós-graduação na área

Nunca houve uma produção tão intensa de pesquisas, livros didáticos, histórias infantis e jogos que trabalhem a multiculturalidade e a identidade em sala de aula. Mas, mesmo uma década após a implementação da Lei 10.639/03, que prevê o ensino de história da África e de cultura afro-brasileira nos ensinos fundamental e médio, a formação dos professores ainda é o principal desafio a ser enfrentado. Apesar de alguns cursos de graduação em história começarem a oferecer a disciplina de História da África e algumas universidades estarem abrindo pós-graduação na área, ainda não é o suficiente, avaliam especialistas.
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“Durante séculos a formação do professor foi de uma didática que não lidou com a questão multicultural. Os livros didáticos não oferecem esta abordagem. Então, o professor tem dificuldade de lidar com questões do cotidiano”, diz Marise de Santana, coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação e Relações Étnicas: Saberes e Práticas do Legado Africano e Indígena – ODEERE.


Um dos problemas encontrados nesse campo seria o simples fato de muitos educadores desconhecerem a influência africana na origem de modos, palavras, gestos e cultura dos brasileiros. “Quando o professor de matemática fala sobre conhecimentos matemáticos, ele pode ensinar que a geometria surgiu no continente africano. A técnica de tirar o metal do solo e fazer ferro surgiu no continente africano. Isso contribui para que o aluno perceba que o africano não foi trazido para cá por acaso, mas que ele tinha um conhecimento a ser explorado neste território”, exemplifica Jaqueline Lima Santos, assessora do programa Diversidade, Raça e Participação da ONG Ação Educativa e que trabalha com formação de professores.


Marise cita outro exemplo. “Em aulas que abordem a questão do meio ambiente, existe a mitologia da cultura africana que fala muito sobre as plantas e a relação do homem com a natureza. Por que não abordar o tema a partir deste contexto?”


Apesar de a lei não abordar a educação infantil, essa etapa da Educação Básica pode ser um bom momento para desenvolver o tema. “Por trabalharmos tudo junto, sem distinção de matérias, o professor pode, a partir da leitura de uma história, trabalhar vários aspectos como o legado africano, os heróis negros e também a diversidade dos tipos de cabelo”, diz Míghian Dane, professora de educação infantil na rede municipal de São Paulo e doutoranda em Educação na USP.


Andreia Lisboa de Sousa, hoje doutoranda em educação na Universidade do Texas (EUA), lembra que os professores têm de se ver como pesquisadores. “Há uma infinidade de material disponível, seja no site do Ministério da Educação, como também práticas positivas premiadas no Educar pela Igualdade Racial do Centro Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). É preciso planejar e desenvolver projetos coletivos envolvendo toda a comunidade escolar”, sugere.


Para Andreia, as iniciativas de formação ainda serão raras enquanto os gestores de diferentes instâncias não incluírem a educação para a igualdade racial, não só no planejamento estratégico das secretarias e conselhos de Educação, como também no projeto político-pedagógico das escolas.


Apesar disso, Jaqueline, da Ação Educativa, vê avanços na formação de professores. “Antes a gente tinha de sensibilizá-los sobre a importância dos cursos. Hoje, os professores chegam no curso, reconhecem a lei e querem material didático.”

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