Falta de acesso é maior obstáculo para visitas monitoradas a museus

Apesar de polêmicas recentes com relação à adequação de conteúdos ao público infantil, problema maior está no afastamento de milhões de estudantes desses espaços: de acordo com levantamento de 2010, 79% dos municípios do país não possuem museus

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Falta de acesso é maior obstáculo para visitas monitoradas a museus

Crédito: Gustavo Morita

Em setembro do ano passado, o Brasil viveu duas polêmicas envolvendo conteúdos de museus de arte e sua adequação ao público infantil. Em Porto Alegre, o Santander Cultural encerrou antes do previsto a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira em decorrência de uma onda de reclamações e boicote. Grupos divulgaram imagens nas redes sociais alegando que a mostra promovia a pedofilia e a zoofilia. Semanas depois, em São Paulo, foi o Museu de Arte Moderna (MAM) o alvo de críticas, depois que uma criança tocou no pé do artista Wagner Schwartz, que fazia uma performance nu.

Sob o calor das controvérsias, ao inaugurar em outubro a exposição Histórias da Sexualidade, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) vetou a presença de menores de 18 anos na mostra — uma orientação do departamento jurídico. Contudo, após uma nota técnica da procuradoria federal, a restrição etária passou a ser uma indicação etária, ou seja, menores passaram a ter permissão para entrar desde que acompanhados por responsáveis.

Para as escolas que levam os alunos para museus regularmente, apesar da grande repercussão dos casos polêmicos, pouco parece ter mudado. “Quando veio a decisão de que a mostra faria restrições à entrada de menores, ligamos para todas as escolas que tinham visita agendada, para explicar. Achamos que iriam reclamar pelo fato de as crianças não terem acesso a todo o museu, mas a notícia foi recebida com tranquilidade — até uma certa indiferença”, conta Lucas Oliveira, da Mediação e Programas Públicos do Masp.

Mesmo no MAM, o número de visitas ou a forma como elas acontecem não sofreram nenhuma alteração. “Os professores e demais profissionais das escolas conhecem bem nosso trabalho e, portanto, as visitas mediadas seguiram como sempre: prezando o diálogo e o compartilhamento de diferentes repertórios e reflexões”, afirma Daina Leyton, coordenadora dos programas educativos do museu. Nas visitas escolares, a rotina é alinhar antes o conteúdo com os professores, explica ela. Em geral, os professores vão antes às mostras, discutem o conteúdo com os monitores, e podem escolher dar ênfase a certas obras e não abordar outras, conforme seus objetivos pedagógicos.

Como todo o alvoroço se concentrou nos últimos meses do ano letivo, as escolas não sentiram grande impacto na aceitação das visitas por parte das famílias, mas é cedo para garantir que não haverá uma cobrança diferente dos pais a partir de agora. Para lidar com possíveis tensões, coordenadores e professores de arte apostam no diálogo. “Os pais têm o direito de questionar, afinal estamos com os filhos deles. Nosso papel é mostrar que temos tranquilidade com as nossas escolhas, apontar que são ações embasadas e amadurecidas”, afirma Silvana Leporace, coordenadora do colégio particular de São Paulo Dante Alighieri.

O Dante tem uma grande tradição de levar seus alunos a exposições de arte, sobretudo na etapa do ensino fundamental, e tanto o Masp quanto o MAM estão entre os lugares frequentados. Para os menores, as visitas se dão no horário regular. A partir do segundo ciclo do fundamental, elas são organizadas no contraturno. “Temos uma adesão muito grande mesmo fora do horário regular, porque as visitas fazem sentido para os alunos e para as famílias”, diz Silvana. E assim devem continuar.

Ainda que alguns adultos fiquem mais reticentes, obras de arte — e consequentemente os museus que as abrigam — são feitas para eles também, pois são para todos, defende Daina, do MAM. “A arte é compreendida de forma equivocada como produção de objetos que vão para um mercado. Ao passo que as manifestações artísticas permitem imaginar o possível e o impossível, transcendendo a mera materialidade das obras e afetando a cultura e a sociedade”, explica, citando o artista e pedagogo uruguaio Luis Camnitzer. “Para visitantes que possam considerar a arte distante, pouco útil, ou até perigosa, buscamos esse contato, essa reaproximação para a compreensão de que arte pensada em toda a educação contribui para o desenvolvimento pleno dos sujeitos.”

Essa aproximação, contudo, ainda está aquém do desejado. O fator que realmente afasta as crianças dos museus passa longe das discussões, seja no meio artístico, seja nas redes sociais: é a falta de acesso. Os museus não fazem parte da vida de milhões de crianças pois 79% dos municípios do Brasil não possuem qualquer instituição do tipo, segundo o primeiro Cadastro Nacional de Museus do IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), realizado em 2010. Mesmo em cidades onde há diversas opções, problemas prosaicos como a falta de oferta de ônibus ou a dificuldade de incluir atividades extras numa grade horária apertada fazem com que a relação entre museus e escolas, que levariam suas crianças, seja muito frágil.

Arte para todos: exemplos positivos

Uma escola de educação infantil da Prefeitura de São Paulo, sem verba extra para ônibus ou funcionários de apoio, conseguiu realizar no ano passado quase uma dezena de passeios. Grande parte deles teve como destino exposições artísticas. Localizada perto do parque do Ibirapuera, a Emei Villa Lobos conseguiu aproveitar sua localização. “No Plano Municipal de Educação e nas diretrizes nacionais há toda uma discussão sobre o território educativo, sobre trabalhar com a cultura do local. Analisando o contexto desta escola, temos uma praça, um parque, o Museu Afrobrasileiro, a Oca, o MAM, o Instituto Biológico”, cita Adriana Watanabe, coordenadora. Mas os alunos também puderam explorar territórios para além do entorno: Unibes Cultural, MAB (Museu de Arte Brasileira da Faap), Mube (Museu Brasileiro da Escultura), Itaú Cultural. “Tivemos ainda um projeto junto com o teatro Célia Helena, que veio dar formação para o corpo docente”, relata.

Para pôr em prática tantos passeios, a equipe precisou se desdobrar. “Os ônibus da secretaria vieram apenas no segundo semestre – e foram só dois. Não dava para ficar esperando. Fomos aos locais em que é possível ir a pé e também pedimos ônibus para as próprias instituições culturais”, conta.
Outra dificuldade enfrentada foi falta de pessoal disponível para acompanhar os alunos, porque a escola tem salas com um professor para 35 alunos. “Fiz uma comissão com as famílias e muitas mães e avós se dispuseram a acompanhar os passeios. Sem elas, não teria sido possível.” Mas isso, é claro, exigiu planejamento e tempo para que escola e famílias se alinhassem. “Foram muitas horas de trabalho para conversar, orientar, encontrar o objetivo comum, para que todos pudessem pensar suas ações e termos coerência”, diz Adriana.

A arte que tanto motivou as crianças de 4 e 5 anos pode ter impacto também para os adolescentes do ensino médio. A Escola Estadual Martim Francisco, na capital paulista, tem uma parceria antiga com o MAM e também já levou os alunos à Pinacoteca e Museu do Futebol. As visitas já fazem parte da cultura escolar. “Assumi a coordenação no meio do ano passado, mas o projeto se mantém. Não depende de uma pessoa, é algo que vai continuar”, diz Sueli Pelegrini.

No ensino médio, muitas vezes o desafio é encontrar um espaço na grade horária normalmente já sobrecarregada de disciplinas e conteúdos obrigatórios. Mas o esforço logístico vale a pena, garante Sueli. “Claro que nunca é 100%, mas de modo geral eles gostam muito. Além do valor da arte em si, os alunos se sentem valorizados”, diz. E mesmo as relações se estreitam: “No próprio caminho, professor e aluno conversam sobre coisas além das aulas, se conhecem, se aproximam”.

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