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Educador espanhol estimula que escolas ensinem o aluno a falar ao testar oralmente seus conhecimentos

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Marina Caruso



Responsável pela maior transformação do sistema de ensino espanhol, pós-ditadura de Franco, o educador Antoni Zabala tornou-se uma referência internacional na educação. Estudioso e mestre dos diferentes aspectos do desenvolvimento curricular e da formação de professores, Zabala presta consultorias a escolas e ministérios da educação de diferentes países na América Latina, como Argentina, Peru, Bolívia e México.

Nos últimos oito anos, esteve regularmente no Brasil dando palestras e conferências em diferentes instituições de ensino. Catalão, formado em filosofia e ciências da educação pela Universidade de Barcelona, na Espanha, o educador preside atualmente o Instituto de Recursos e Investigação para a Formação (Irif) e é diretor do Campus Virtual de Educação da Universidade de Barcelona.

Em entrevista exclusiva à
Educação

, em seu escritório, na capital catalã, o professor critica a resistência dos órgãos que regulamentam os sistemas de ensino brasileiro e espanhol. Defende a criação de provas orais dentro do exame vestibular e de cargos de tutores de classe para o ensino fundamental e médio. Para o educador uma boa escola é aquela que prepara o aluno para a vida e não para uma prova “elitizada” que pauta, inclusive, a vida de quem nem sequer terá acesso às universidades.




Revista Educação – Recentemente, o sr. participou de um encontro com professores brasileiros, em Barcelona. Quais dúvidas foram mais freqüentes?








Antoni Zabala –



Participo com freqüência de muitos encontros entre professores de diferentes países e, geralmente, são reuniões mais acadêmicas e menos profundas, que acabam me impedindo de localizar as raízes do problema dos sistemas educacionais. Mas no caso do Brasil – país para o qual viajo com uma certa freqüência, há oito anos – é diferente. Tem uma coisa que já percebi tanto nessa mostra privilegiada do professorado brasileiro que esteve aqui em Barcelona quanto em encontros anteriores com professores de escolas públicas: não existe a função do tutor de classe. Muitas vezes me peguei falando em tutoria sem me dar conta de que no Brasil essa função não existe. Trata-se de uma função quase indispensável e bastante comum em toda a Europa. O tutor, diferentemente dos professores de matérias, se atenta mais à dinâmica dos alunos do que ao conteúdo das disciplinas. Ele é o responsável pelo grupo, o que fala pela turma, que sabe quem lidera, quem precisa se expor mais, quais são as afinidades. Enfim, o tutor é o grande referencial do aluno e, por isso, recebe um salário específico.




Que tipo de “falta grave” a ausência do tutor acarreta? Isso coloca a educação brasileira em desvantagem em relação à européia?



Em quase todos os países que prestei consultoria – Argentina, Uruguai, Peru, Bolívia, México -, me pedem para comparar o sistema educacional latino-americano com o europeu. Respondo com outra pergunta, então. Como anda a cirurgia brasileira em relação à européia? E a arquitetura? Estou certo de que existem centros de excelência em ambos os continentes, a diferença é o acesso que se tem a eles. O Brasil tem escolas que exprimem a alta pedagogia, como no primeiro mundo, só que quase ninguém tem acesso a essa formação privilegiada. As escolas aqui na Espanha só funcionam durante um período do dia, não há dois ou três turnos de aulas. O aluno chega de manhã e sai no começo da tarde. Em São Paulo, sei que há escolas assim também, em que o professor cuida apenas de uma turma, isso aproxima o mestre dos alunos. Não posso afirmar que a ausência do tutor seja uma falta grave. Mas quanto mais atenção um educador puder dar para seu grupo de alunos, melhor.



Alguma outra diferença entre os sistemas de ensino brasileiro e europeu que tenha chamado a atenção do sr.?



Aqui a escolaridade obrigatória vai até os 16 anos. E no Brasil os alunos prestam o vestibular em torno dos 18. Mas aqui, todo mundo está escolarizado até os 16 anos, no Brasil não. Mais do que reforçar as desigualdades sociais que, afinal, afetam não só a educação, mas outros tantos setores no país, acho que temos que valorizar o que o Brasil tem de bom. Por exemplo: Paulo Freire. Freire é uma referência pedagógica de altíssimo nível, apreciado no mundo todo. Isso o Brasil tem e a gente não [
risos

].



Mas a Espanha tem Cesar Coll, aliás, seu colega de trabalho na Universidade de Barcelona.



Claro, mas são personalidades completamente diferentes. Coll é um investigador. Construiu um conceito importante de ensino e aprendizagem em torno da idéia de socioconstrutivismo – que ainda é bem dividida em dois, entre Piaget e Vigotsky. Já Freire tem um trabalho distinto. É um referencial prático da educação. Freire ante a Coll ficaria mal cientificamente e Coll, ante a Freire, perderia em termos práticos.



O sr. é apreciador das boas teorias da educação, mas diz que de teorias a educação está cheia e que carece de mudanças práticas. Por que essa passagem para a prática é tão custosa?



Por causa de uma coisa chamada resistência. O ser humano tem resistência em mudar. Uma vez, li um artigo falando do escorbuto na Inglaterra, entre os séculos XVII e XVIII. A armada inglesa já tinha o conhecimento teórico necessário para solucionar a enfermidade. Mas demorou 70 anos até que a doença fosse realmente tratada. Por quê? Por dois motivos: resistência e dificuldade de compreender os preceitos teóricos e sua linguagem específica.



Qual a melhor forma de combater a resistência à mudança?



Aí está. A resistência é o problema mais grave do sistema educativo. Só podemos combatê-la com políticas de estímulo às mudanças. Ou seja, a diferença, a criatividade e a originalidade devem ser premiadas, o professor que inova deve ser promovido. E a promoção não pode ser o afastamento da sala de aula, como acontece na Espanha e no Brasil. É um absurdo que os melhores professores sejam promovidos com cargos de coordenadoria ou direção, ou seja, sejam tirados da sala de aula. Um bom professor poderia ser recompensado com salários maiores, cursos bacanas de aprimoramento, enfim, qualquer sinal que mostre que a escola valoriza seu trabalho. Poderia se tornar um professor de professores, mas não deixar a sala de aula.



Qual é a faixa salarial de um professor na Espanha?



Está entre 1,4 mil e 2 mil euros [
equivale a R$ 5.180 e R$ 7.400, aproximadamente

]. Isso para professores. Na educação em geral, dentro de uma escola, eu diria que quem ganha mais pode ganhar até, no máximo, cinco ou seis vezes mais do que quem ganha menos. Minha luta é para que um bom maestro não ganhe sempre menos que um diretor razoável.



O sr. se tornou famoso como educador principalmente por suas idéias relativas à formação de professores. Como se deve dar essa formação? De quem é a responsabilidade de formar, da escola ou do Estado?



Vamos por partes. Um sistema educativo vai mal quando seu professorado vai mal. Para que o professorado vá bem, ele necessita de algo mais que uma formação, precisa de atualização e criatividade constante. Por isso minha defesa pela formação contínua dos professores. Não se forma um bom professor em um curso universitário de quatro anos. Um bom professor está em constante formação, faz parte do módulo de ponta, está a par de tudo o que pode em termos de educação e conhecimentos gerais. Afinal, hoje estamos formando alunos para a sociedade de 2030, 2040. Logo, nos cabe, também, prever o que essa geração precisa e nos reciclar ao máximo nessa busca. Essa formação do professorado, portanto, pode se dar de duas maneiras. Uma, ultraliberal: a escola, seja pública ou privada, diz que “quem não se reciclar e não for criativo está demitido”. E a outra, no extremo oposto, aquela que reza que o sistema educativo deve ser responsável pelo seu material humano, deve formar constantemente seu corpo docente.



O sr. defende que as escolas devem formar alunos para a vida e não para o vestibular. Como sustentar essa defesa se no final o que importa é que o aluno entre na universidade?



Eu não sou contra as escolas que fazem com que os alunos passem no vestibular. Eu sou contra o vestibular, dessa forma, com esse peso que ele tem no ensino brasileiro. Não faz sentido que todas as escolas de um país, inclusive aquelas dirigidas para os menos favorecidos, estejam pautadas em um exame, em uma prova, que muitas dessas pessoas nem sequer poderão prestar. Ou seja, trata-se de uma prova de elite que pauta o ensino tanto de elite quanto popular. Isso está errado.



Então qual seria a forma correta de testar o conhecimento de um aluno, seja para o ingresso na universidade ou para verificar sua absorção do ensino fundamental?



Temos alguns exemplos que são bem- sucedidos. Aqui na Espanha, por exemplo, o peso do exame de ingresso à universidade é consideravelmente menor do que o histórico escolar do aluno. O vestibular vale 40% da nota, os outros 60% são a média das notas desse aluno no colégio. De qualquer forma, a prova em si também não está correta nem na Espanha, nem no Brasil. Ambos os países têm excelentes escolas de formação mais construtivista, mais aberta, que realmente ensinam o aluno a ser um adulto bacana para viver em sociedade. Eu pergunto, de que adianta formar um aluno para a vida se no final o que conta é passar no vestibular? É uma contradição que a Argentina e a Itália, por exemplo, resolveram de uma maneira mais justa. Se o aluno, afinal, é sujeito de sua aprendizagem e não um mero receptor de conteúdo, há que se medir seu conhecimento tal como ele é. E qual a melhor forma de medir um conhecimento de um estudante de comunicação, por exemplo? Me responda você.



Fazendo com que ele se comunique?



Exatamente. Como um vestibular para áreas da comunicação não tem prova oral? A prova oral é importantíssima. Porque, muitas vezes o que se dissimula na escrita não se disfarça na fala. Isso vale para outras áreas também. Se uma banca avaliadora perguntar para um aluno de física qual é a forma de solucionar determinado problema, o aluno vai ter que explicar que fórmula utilizar e por que, não vai apenas reproduzir algo que se matou para decorar. Em outras palavras, o que eu quero dizer é que na Itália e na Argentina as escolas ensinam o aluno a falar, pois testam oralmente seu conhecimento. No Brasil e na Espanha não. Já cansei de repetir isso, inclusive para o Ministério da Educação espanhol. Mas eles também sofrem daquele mal da resistência que comentamos anteriormente.



Se essa resistência fosse derrubada e o vestibular não mais pautasse o ensino, de que forma se avaliaria o conhecimento do aluno?



Há duas linhas de frente importantes para trabalhar, principalmente nos últimos anos escolares. São a compreensão e a memorização. Além de compreender o conteúdo, o aluno tem que fazer um esforço de memorização. A esse esforço chamamos de estudo. O erro das escolas ativas, modernas, muitas vezes foi condenar essa memorização. Ela é, sim, importante, pois na vida há coisas que temos que saber de memória. Cada profissão tem as suas. Os geógrafos precisam saber das capitais dos países, das formações rochosas. Os matemáticos de fórmulas de calcular. Os médicos de conceitos básicos da constituição dos seres humanos, e assim por diante. Independentemente da linha pedagógica da escola, avaliações periódicas são a melhor formar de testar a memória, pois exigem estudo.


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