Falar bem é bom

Palavras degradadas refletem uma vida social sem rumo; leia coluna de Gabriel Perissé

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Falar bem é bom

Crédito: Shutterstock

O poeta e crítico literário Octavio Paz escreveu: “Quando uma sociedade se corrompe, a primeira coisa que se degrada é a linguagem”. A linguagem desgastada e apodrecida reflete uma vida social sem rumo. As palavras degradadas perderam o sabor, a cor e o viço. Ficou só o vício.

Falar bem e ensinar a falar melhor é fundamental e básico. O respeito pelas palavras aperfeiçoa nosso respeito pela realidade e pelas pessoas. Sala de aula é lugar para conversar, e conversar bem. Lugar apropriado para experimentar a vida intensa das palavras.

A começar pela linguagem dos professores. A nossa expressão verbal afeta diretamente a realidade dos nossos alunos. Cuidar das nossas palavras é estratégia didática refinada. É conduta ética.

A ética na prática

Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você. Esta é a regra de ouro. Vale para professores e alunos. Ninguém gosta de falar e ser desprezado ou desatendido. Ninguém gosta de ser impedido de falar, de expressar-se. Ninguém gosta de ser interrompido ao falar.

Falha quem nega ao outro o direito de falar. Mas falha também quem fala sem pensar ou, na sua fala, quer agredir e vencer o outro a qualquer preço, ou mesmo sem nenhum lucro. Diálogo não é duélogo. Vencer não é importante. O legítimo é tentar convencer, e estar disposto também a se deixar convencer.

Falar bem é ensinar a falar bem. Corrigir é menos eficaz do que mostrar como se faz. Se alguém disser: “Houveram casos”… basta dizer depois: “Sim, houve casos”. A gramática deveria ser afável como uma vovó. Aliás, na língua francesa esse trocadilho é possível: a grammaire (gramática) é nossa grand-mère (avó).

A língua materna deveria ser lanterna na escuridão dos conceitos confusos. A própria palavra “ética”, cuja função é iluminar consciência e atos, perdeu muito da sua credibilidade. Virou ética cética, palavra perdida em conversa jogada fora. Uma ética em que ninguém acredita, nem a plateia nem o próprio falante. Como crer numa ética patética que não tem vergonha de vir a público discursar sobre… ética?

Na ponta da língua

Falamos sozinhos. Falamos dormindo. Falamos de menos. Falamos demais. Às vezes temos a palavra certa na hora errada, ou a palavra errada na hora ainda mais equivocada. Ou as palavras se atropelam no trânsito difícil entre mente, coração e boca.

Algumas outras ideias sobre modos e maneiras de falar.

Qual é um dos temas preferidos dos professores? Os alunos, claro. (E os alunos adoram conversar sobre seus professores.) Trata-se então de pensar e falar bem dos alunos:

— Ah, aquele aluno vive batucando.
— Será um grande sambista!
— Ah, aquela outra fala demais.
— Será uma grande advogada!
— E aquele ali… aquele não fala nada.
— Será um grande monge, um contemplativo!

Falar dos alunos é interpretá-los com o máximo de boa vontade.

Falar com nossos colegas, os professores. Conversas docentes que nos ensinem a ensinar. A maestria também se aprende na sala dos professores. Indicações de leitura. Troca de informações sobre resultados e experiências. Certa vez, porém, uma professora disse-me que a sala dos professores da sua escola era um autêntico serpentário. Fiquei impressionado com a escolha da palavra. Ela explicou: “Falas venenosas existem. Não sejamos ingênuos”. Ela era professora de biologia.

Por vezes, a palavra está na ponta da língua. Mas tem medo de lançar-se ao espaço. Recua. Foge de nós. Por vezes, a palavra corre solta, brilha, encantada consigo mesma.

Por vezes, uma palavra se repete obsessiva, sem autocrítica. Ou então, depois de muito tempo, reaparece uma palavra que parecia perdida no tempo e esquecida para sempre, como “estouvado” ou “indubitável”.

Por vezes, a palavra foi e não tem como voltar. Por vezes, aquela palavra que dissemos numa aula ficou na boa memória de um aluno. E este aluno que você vai encontrar no futuro recordará: “Aquela sua palavra foi decisiva para mim”.

Leitura em voz alta

Uma antiga prática: a leitura em voz alta, e dentro da sala de aula. Ler a fala do texto, falar o texto com cadência e coerência. Dar voz ao autor e aprender do autor a colocar a voz em seu devido tom. Dar voz aos personagens de papel. Por que não experimentar de novo esse exercício coletivo, restituindo a calma e o prazer da leitura?

A propósito, falar é escolher um papel. Conheci um professor muito tímido que venceu sua dificuldade de expor-se, ao criar para si um personagem e uma voz própria. O seu personagem era ele mesmo: um professor que vencia a timidez. E, interpretando o professor que ele de fato era, falava o que tinha a dizer.

Citando Octavio Paz de novo: “A linguagem é o homem, mas também é o mundo. É história e é biografia: os outros e eu.” Não há livro sem leitor, nem fala sem ouvinte. Assim como um escritor cria seu leitorado, também os professores criam seu auditório quando se tornam autores de sua própria fala.

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