Fábrica de valores

No livro de Roald Dahl, as crianças são vítimas de suas próprias escolhas equivocadas. Na vida, o processo de crescimento leva ao êxtase, indo ao encontro de juízos gerados em casa e na escola

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À exceção de Charlie, das crianças de A fantástica fábrica de chocolates parecem talhadas para vencer, mas são engolidas por sua própria ambição

No livro A fantástica fábrica de chocolate, o escritor galês Roald Dahl (1916-1990), sem qualquer ranço de moralismo, retrata com precisão o modo como as pessoas vivem ou desprezam determinados valores. A história já foi levada ao cinema em duas adaptações – em 1971 com a direção de Mel Stuart e em 2005, dirigida por Tim Burton -, o que quase dispensaria a leitura do texto (publicado pela Editora Martins Fontes), coisa que não recomendo.


Na deliciosa narrativa de Roald Dahl, cinco crianças são sorteadas para visitarem a empresa do genial Willy Wonka, o mais inventivo e excêntrico de todos os fabricantes de doces do planeta. Quatro dessas crianças se destacam por alguma característica negativa e antissocial: Augusto Glupe, o guloso cuja fome não conhece limites; a mimada e consumista Veruca Sal, que tudo obtém dos pais; Violeta Chataclete, a menina competitiva que masca chiclete o tempo todo e quer ser a primeira em tudo; e Miguel Tevel, o garoto que vive grudado na televisão e pensa que por isso sabe mais do que todos em todos os assuntos.


No começo da história, esses quatro personagens parecem talhados para vencer, mas a partir de um certo momento vão sendo engolidos por sua própria ambição e autodescontrole. Fascinados consigo próprios, não se interessam em criar vínculos significativos entre si, com o Sr. Wonka e com a própria fábrica. Para eles, a fábrica é apenas um lugar do qual querem tirar o máximo proveito, comer um pedaço! Essa atitude destrutiva inviabiliza uma relação de amizade e respeito com o fundador da fábrica. Esta sua voracidade os levará ao fracasso.


Augusto Glupe entra literalmente pelo cano porque “só ouvia a voz do seu enorme estômago”. Violeta Chataclete, querendo destacar-se uma vez mais, experimenta uma perigosa guloseima ainda em fase de testes, transformando-se numa assustadora amora gigante! Veroca Sal cai num buraco que leva ao lixo da fábrica na ânsia de roubar para si um dos esquilos treinados do Sr. Wonka. E Miguel Tevel perde suas dimensões humanas ao entrar numa televisão mágica inventada para teletransportar chocolates.


Em todos esses casos, as crianças são vítimas de suas próprias escolhas. Escolhas equivocadas, pois nascem da adesão a antivalores como o egoísmo, a ânsia de manipular os outros, a cobiça etc.


O êxtase da generosidade
Charlie, a quinta criança da história, vem de uma família muito pobre. Na sua pequena casa, mora com os pais e com os quatro avós. Experimenta várias privações e bem cedo teve de aprender que a generosidade e a humildade são as melhores portas para a autêntica solidariedade.


Por sua abertura de mente e coração para conhecer os segredos e mistérios daquela fábrica admirável, pela capacidade de ouvir e aceitar com sinceridade as mais estapafúrdias explicações de Willy Wonka e atender às suas observações, Charlie despertou no anfitrião a certeza de que encontrara naquele menino um perfeito sucessor. Depois que as outras crianças desapareceram no abismo de sua própria arrogância, Wonka e Charlie conversam:


– Como eu adoro a minha fábrica de chocolate! – disse o Sr. Wonka, olhando para baixo. Virou-se para Charlie com expressão muito séria. – Você também a adora, não é, Charlie? – perguntou.
– Claro que sim! Acho que é o lugar mais maravilhoso do mundo!
– Fico feliz em ouvir isso – continuou o Sr. Wonka, mais sério ainda, encarando Charlie. – É verdade. Sinto-me feliz em saber disso e vou explicar por quê.
O Sr. Wonka tombou a cabeça para o lado e as ruguinhas do seu sorriso apareceram nos cantos dos olhos.
– Veja, meu menino, resolvi dar a você este lugar. Assim que você tiver idade para administrá-la, a fábrica será sua.


O menino Charlie não foi à fábrica em busca de poder, fama, vitórias. Estabeleceu com a fábrica uma relação valiosa, de curiosidade, de reverência, de maravilhamento, de contemplação desinteressada e unitiva. Em seu projeto de vida não cabia a ânsia desenfreada de possuir algo da fábrica. Seu objetivo, por assim dizer, era simplesmente admirar e respeitar o que ia encontrando naquela bizarra visita. Pôde, assim, participar da felicidade de Willy Wonka, e, como decorrência de um processo de crescimento interior, tornou-se apto a receber, não apenas um pedaço, mas a fábrica inteira!


Onde os valores se fabricam
O processo de crescimento leva ao êxtase. Êxtase é sair de si mesmo, indo ao encontro de valores como a generosidade, o respeito, a compreensão, a cordialidade…


As principais fábricas de valores são a casa e a escola. Embora não possamos vê-los ou tocá-los, têm sua própria “consistência”, sua própria “visibilidade”, e nos levam ao amadurecimento e à prática do espírito da solidariedade. Os valores são realidades com as quais nos encontramos e pelas quais optamos no ato de viver e conviver.


Os valores não podem ser tocados, mas podem ser experimentados quando nos relacionamos com os outros. O valor do respeito mútuo nasce de uma relação de diálogo atento. O valor da generosidade nasce de uma relação em que geramos (daí a palavra “generosidade”) formas de ajuda e colaboração. O valor da liberdade nasce de uma relação em que as pessoas têm espaço para assumir suas decisões de modo responsável, pensando no bem pessoal e no bem comum.


Também podemos conhecer os valores pelo contraste. Os antivalores do egoísmo, da insolência, da indiferença, da violência, do autoritarismo, da tirania nos ajudam a ver o que vale a pena fazer. Por isso Roald Dahl dedica a maior parte do seu livro a descrever o comportamento das crianças problemáticas, que querem roubar a cena o tempo todo. O dramático nisso tudo, e revelador, é que tal atitude conduz ao colapso os personagens que estavam convencidos da vitória.


O sucesso de uma pessoa não consiste em impor-se e vencer os outros, mas em vencer em si mesma o desejo ruim de tirar as pessoas do caminho! Os valores da cooperação, da amizade, da tolerância, e tantos outros, fazem de nós verdadeiros seres humanos.


*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do NPC – Núcleo Pensamento e Criatividade – www.perisse.com.br

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