Fábrica de atletas

Projeto educativo que dá ênfase ao ensino de esportes em escolas públicas transforma Cuba em potência olímpica

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Renato Ribeiro

Seis da manhã. Lucelin Hidalga, de 13 anos, acorda em sua casa no subúrbio de Havana. Pega o ônibus e, 40 minutos depois, está na Escola Formadora de Atletas. Ela está na 8


a



série de natação. Em Cuba, esporte e educação caminham lado a lado. Assim que chega à escola, Lucelin toma o café e nada durante uma hora e meia. Depois, sala de aula, almoço, mais aulas e, no fim da tarde, um novo treino. O objetivo é um só: fazer Lucelin chegar à faculdade bem educada e como uma esportista de sucesso.





Todo esse processo começa quando a criança tem 5 anos. Ela vai para a escola “normal” e os pais escolhem uma modalidade olímpica para ela. O menino ou a menina passam a praticar essa modalidade todos os dias. Aos 8 anos, há uma avaliação. Se a criança tem potencial, vai para a Escola Formadora de Atletas, onde a ênfase no esporte é maior. Caso contrário, permanece na escola “normal” e continua praticando a modalidade escolhida. Não para ser um atleta, mas para ser um cidadão saudável. Os cubanos seguem ao pé da letra a máxima mente sã, corpo são.




“Não nos importamos só com as medalhas, mas com o bem-estar do povo”, defende Alberto Juantorena, segundo homem na hierarquia do esporte cubano e herói na ilha. Até hoje, ele é o único homem que conseguiu ganhar na mesma Olimpíada os 400 metros e os 800 metros. Foi nos Jogos de Montreal, em 1976.




A idéia de unir educação e esporte surgiu com a Revolução Cubana, em 1959. Já nos seus primeiros discursos no poder, Fidel Castro apontava para a necessidade de os cubanos levarem o esporte mais a sério. Ele estabeleceu convênios com técnicos da extinta União Soviética e de outros países do Leste Europeu. Em 13 anos, Cuba tornou-se uma potência olímpica. O sucesso começou em Munique, 1972. Uma geração de atletas diferentes: todos com nível universitário.




Cada grande cidade de Cuba tem uma Universidade do Esporte. Nela, chega o atleta de alto nível para estudar a fundo técnicas de treinamento e o esporte como ciência. Grandes nomes do esporte cubano passaram por ela: os tricampeões olímpicos de boxe, Félix Savón e Teófilo Stevesson; a tricampeã de vôlei Mireya Luis; e a bicampeã mundial dos 800 metros, Ana Quirot.




“Não se concebe um bom esportista que não seja um bom aluno”, diz Javier Sotomayor, recordista mundial do salto em altura – conseguiu saltar 2,45 metros – e medalhista de ouro nos Jogos de Barcelona, em 1992. Assim, todo cubano é um atleta em potencial. Outra conseqüência do projeto: não há analfabetismo no país.




Mas se o conteúdo é bom, os recursos para manter a escola de pé são escassos. O isolamento político de Fidel e o embargo econômico americano fizeram a economia cubana desabar, principalmente depois da queda do Muro de Berlim, em 1989. As escolas têm aparência ruim. Fachadas descascando, sem pintura. O dinheiro que entra é usado para o mínimo: pintura das salas de aula, manutenção das carteiras, do quadro-negro. Cada aluno recebe um caderno e lápis. Os equipamentos esportivos das escolas também são improvisados. A turma de tiro com arco, por exemplo, utiliza tocos de madeira para apoiar alvos de papel reciclados. Os arcos são profissionais, comprados pelo governo, mas são poucos. No treino do salto em altura, eles pegam um colchão, botam duas estacas de madeira e amarram um barbante ou um elástico entre elas. No boxe, em vez de luvas, usam toalhas. Ou seja, o segredo não está numa estrutura rica, mas no projeto em si. Na idéia. E, por mais que as instalações esportivas estejam em mau estado, elas existem. O que já faz diferença.




Hoje, junto com a educação e a medicina, o esporte é um dos pilares que restaram da Revolução Cubana. Uma prova disso é o tratamento dispensado aos campeões olímpicos. Ganham prêmios, como casas, carros e dinheiro. O ginasta Erick Lopez, maior ganhador de medalhas em Pan-Americanos – tem 22 -, está na terceira casa recebida pelo governo.




Félix Savón começou ganhando uma casa no lugarejo onde morava. Depois, recebeu um apartamento em Guantánamo; foi para um apartamento em Havana; e agora mora em um casarão, em Havana. Nos discursos de Fidel na Praça da Revolução, os campeões do esporte ficam próximos dele. São símbolos do regime. Por tudo isso, Savón já recusou se naturalizar americano e tornar-se milionário no boxe profissional. A proposta foi do empresário Don King, o mesmo de Mike Tyson. “Sou filho desse povo, sou filho dessa revolução. Se eu não lutar por ela, quem irá lutar?”, argumenta Savón, em tom revolucionário.




Ironicamente, os antagonistas dos cubanos têm um modo parecido de revelar seus grandes campeões. Nos Estados Unidos, tudo também começa na escola. A educação física é obrigatória entre as crianças e é praticada diariamente. Todos os grandes atletas americanos passaram pelo que eles chamam de
high school

e pelas universidades.


Isso mostra que o exemplo cubano independe de ideologia. E independe também de dinheiro. Basta ter um projeto e entender como duas palavras – juntas – podem fazer bem a uma sociedade e a um país: educação e esporte.



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