Excelência crítica do cineasta Paulo Emílio

Reunião de textos do artista é aula condensada sobre história do cinema

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Paulo Emílio: precursor de uma tradição de análise fílmica na crítica cinematográfica brasileira | Divulgação

 

Hoje mais voltada ao fomento de polêmicas quase sempre estéreis do ponto de vista da discussão estética, a crítica de jornal de linguagens artísticas já viveu tempos de excelência e diálogo mais profundo com os autores. Era o caso de Décio de Almeida Prado, cujas críticas sobre espetáculos teatrais eram avidamente esperadas pelos produtores.

No cinema, a obra de Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977), companheiro de Décio na revista Clima, nos anos 40, ocupou esse lugar. Homem de cultura em primeiro lugar, Paulo Emílio legou ao cinema brasileiro e mundial escritos que ajudaram a situar diversas obras e autores dentro de contextos mais amplos da produção artística do século 20.

Um bom extrato disso encontra-se em O cinema no século (Companhia das Letras, 2015), reunião de textos para a imprensa entre 1941 e 1973, cuidadosamente selecionados e contextualizados pelos pesquisadores Carlos Augusto Calil e Adilson Mendes.

O livro reedita boa parte da coletânea Crítica de cinema no suplemento literário, lançada em dois volumes nos anos 80 pela Editora Paz e Terra, concentrando-se mais na produção dos anos de 1957 a 1960.

Em alguns casos, como nos textos dedicados ao Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, o livro atual permite a comparação das primeiras impressões, nos anos 40, com a visão sobre o filme que se renovara 15 anos depois. Aliás, os 12 textos publicados sobre Kane adensam o que há de melhor no trabalho do crítico: um esforço contínuo de análise das películas, que implicava vê-las inúmeras vezes, somado à busca do entendimento das circunstâncias em que eram produzidas, às influências filosóficas, estéticas, de contexto de produção e pessoais.

Curiosamente, Paulo Emilio conta, em artigo de 1958, que, ao lado de Vinícius de Moraes, viu Orson Welles ler seu artigo de Clima, de 1941, em que, depois de mostrar grande entusiasmo por Kane, chega à conclusão de que não se tratava de uma grande obra, e sim do prenúncio do que poderia vir a ser uma grande obra! Era o crítico tentando não se deixar tomar pelo fascínio que a personalidade de Orson Welles exercia.

Quando deslinda o fenômeno do cinema do russo Serguei Eisenstein, Paulo Emílio nos mostra a efervescência criativa dos primeiros anos da revolução soviética, com a busca por equivalentes estéticos que dialogassem com o momento político e a eclosão de movimentos como o futurismo e construtivismo russos. Seria por meio de suas experiências no teatro, primeiro com Meyerhold e depois com o Proletkult, que Eisenstein conceberia sua ideia de cinema.

Dessa forma, compondo quadros mais gerais que o das obras, o crítico traça um panorama de 70 anos da história do cinema, analisando Chaplin, Méliès, Griffith e cinematografias como a japonesa, italiana, alemã e francesa em seus momentos vitais no século 20. Notam-se algumas ausências, como Vertov e Godard, mas talvez elas mesmas nos falem sobre o olhar histórico de Paulo Emílio. Um livro para quem quiser entender o cinema do século 20, visto do século 20.


Rubem Barros, editor de Educação, é mestre em meios e processos audiovisuais pela ECA/USP.

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