Evocação

Um testemunho da memória

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De seu nome não me lembro. Mas tenho a imagem vívida de um homem alto, bigodes negros, sempre trajando um avental branco em cujo bolso guardava um maço de cigarros. Estava na 7ª série e fumar na sala de aula não era proibido, pelo menos aos professores. Havia os livros que, de acordo com o programa de literatura da escola, nos dava a ler a cada bimestre. O
tronco do ipê

, que me afastou definitivamente de qualquer obra de José de Alencar. Depois veio
A relíquia

, de Eça de Queiroz, que, confesso, odiei. Havia ainda a
prova do livro

, com perguntas difíceis e capciosas.

Nas aulas de gramática o procedimento era sempre o mesmo: exercícios escritos no quadro; cópia; resolução e exposição por um aluno, invariavelmente seguida da correção entediada do professor. Mas havia o imprevisível, aquilo que não se registra no diário, nem se planeja. Às vezes, enquanto copiávamos, o professor acendia seu cigarro e lia, de pé, no canto da sala, algum livro que tivesse à mão. Subitamente, ao se emocionar com um poema, dizia: "Meninos, ouçam isso…", e nos brindava com uma pequena poesia de Drummond ou de Bandeira. Em seguida, voltava a seu isolamento.

Seu comportamento era objeto de piada entre nós, mas aos poucos sua paixão pela literatura veio a contagiar um número crescente de alunos. Lembro-me de sua voz alta e grave a narrar um conto de Clarice Lispector que jamais esqueci e ao qual voltei diversas vezes. Recordo-me da dor com que nos leu um poema melancólico em que constatava: "eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios …" e, ao final, se perguntava "…em que espelho ficou perdida a minha face?". Pela primeira vez a leitura de um poema me pareceu a expressão viva de um sentimento e não um exercício de declamação escolar. O poema parecia ter sido feito para ele e em sua voz ganhava intensidade, vida e verdade. 

Às vezes era taciturno, raramente demonstrava alegria e tinha um humor inteligente, mas sarcástico. Havia manhãs que podíamos jurar terem sido precedidas por noites insones, talvez num bar, talvez na solidão. Eram manhãs de mau humor, das quais nos vingávamos inventando histórias a seu respeito. Imagino que a esta altura higienistas furiosos e reformadores pedagógicos já estejam indignados. Mas o fato é que foi ele quem despertou em mim e em vários colegas uma relação diferente com a literatura. Ao ler para nós aqueles pequenos fragmentos que o comoviam, nos comovia. Fazia a literatura abandonar sua conformação pedagógica e se transformar numa experiência cultural e existencial. Pouco importava a simplicidade de seus recursos pedagógicos ou mesmo seu cético desprezo pelas "boas maneiras".

Como se ensina um aluno a amar a literatura? Há quem proponha temas que a aproximem dos jovens; o que soa sensato. Há quem proponha a adequação da linguagem à faixa etária, o que parece razoável. Há até quem proponha novos métodos de uma pedagogia de projetos que a integre a outros campos de saber, de forma ousada e inovadora. Eu, que não tenho uma resposta à questão, convoco o testemunho da memória. Relembro uma experiência marcante e evoco a figura de um professor singular. Pouco sensato, nada razoável, talvez ousado, mas seguramente não um inovador. Mas que amava a literatura e não nos privou de um contato substancial com o sentido que ela tinha em sua vida. Que não era alegre, nem edificante, mas desconcertantemente humana e, por isso, fragilmente bela.   



José Sérgio Fonseca de Carvalho Doutor


em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

Evocação

Lembranças de um mestre que ensinou mais do que percebeu ensinar

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Entre o final da década de 70 e início dos anos 80, mantive secretas conivências com educadores anônimos, a quem muito devo. Somos feitos de encontros com outros seres. Evocarei um deles, postumamente, para não ferir a sensibilidade de alguns, que ainda estão vivos e mereceriam idêntica homenagem. Em poucas linhas, resgatarei a memória do Professor Queirós (assim mesmo, com letra maiúscula), homem sóbrio e de uma honestidade intelectual tocante – um homem bom.

Tudo começou quando alunos da Ponte descobriram um texto, numa pesquisa realizada entre edições antigas do jornal da cidade. Quiseram entrevistar o autor do texto. E ele, com imensa paciência, acompanhou as crianças num estudo sobre o nascimento do nosso primeiro rei, que as levou a concluir que Afonso, filho de Henrique, não nasceu dentro dos muros do Castelo de Guimarães, como um "filho de algo", mas veio ao mundo, durante uma caçada, no meio do mato…

Quando o Professor Queirós ousou defender essa hipótese, deparou com incompreensão e desdém. Um regime idiota, uma universidade conservadora e as obsoletas escolas que nesse tempo ditavam leis votaram a tese ao ostracismo. E, mais do que sofrer marginalização, o Professor Queirós foi prejudicado na sua vida pessoal e profissional.

Não era apenas um homem resignado, era um homem digno. E, só pelo facto de, serena e humildemente, ousar defrontar a imbecilidade reinante na época, já mereceria a minha admiração. Porém, aquilo que mais me fascinava naquele homem era muito mais que a sua humildade natural. Aprendi mais nos seus gestos do que nas parcas palavras que pudemos trocar.

Via-o passar em frente à nossa escola. Seguia-o com o olhar, até o dia em que fui no seu encalço, na intenção de lhe falar. Nesse dia, não cheguei à fala, mas confirmei que o amor e a vida são uma mesma realidade e que é o amor que confere significado à vida. 

O Professor parou no meio de uma clareira do bosque. Observei-o, num perfil sereno, num recolhimento que não lhe permitia pressentir a minha presença. Hesitei entre ficar ou deixá-lo só. Decidi voltar à escola, quando o Professor se ajoelhou e uma espécie de aura o envolveu. Não exagero! Ali, não estava apenas um homem ajoelhado. Não se tratava apenas de uma comunhão plena com a beleza natural do lugar, mas de um recolhimento tão profundo, que me transmitia um sentimento de transcendência.

Que o Professor, onde quer que repouse, me perdoe a inconfidência, mas terei de confessar que foram muitas as lições que, sem o saber, me deu. Foram muitos os dias em que o vi, na perfeita harmonia de um corpo em oração, afagado por raios de sol coados pelos eucaliptos da bouça. Depois, através da janela da escola, eu espiava o seu regresso a casa, caminhando tranquilo, usando um lenço para enxugar lágrimas. Se um homem se emociona a ponto de chorar, alcança a minha maior admiração. Por isso, tantas vezes o admirei. Que me perdoe ter assistido às suas secretas liturgias, e considere essa indiscrição como singelo preito.

O Professor Queirós foi para mim um exemplo de amorosidade. Foram os seus gestos simples, sem alarde, que me atraíram e cativaram. Ensinou-me que o amor não se explica, apenas se vive. Com ele aprendi a amar coisas que, antes, considerava insignificantes. Ele nunca soube o quanto me ensinou.


José Pacheco


é educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)


josepacheco@editorasegmento.com.br

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