Evasão no ensino médio: enfrantando o problema

Escolas contam o que fizeram para combater um dos principais problemas dessa etapa de ensino: com atividades extraclasse, restabelecimento de vínculo e flexibilização do currículo

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Weiner Carvalho
Atividades no contraturno ajudaram a motivar os alunos no Colégio Estadual Parque dos Buritis

Nos limites do município de Goiânia, em uma zona onde a única área de lazer é uma praça mal frequentada, o Colégio Estadual Parque dos Buritis ganhou a atenção e o respeito da comunidade ao se transformar em um centro educacional, cultural, social e esportivo para os alunos e moradores do entorno. As mudanças vieram na esteira do trabalho desenvolvido na instituição para combater um dos problemas que mais afetam o ensino médio no Brasil, o abandono e a evasão escolar. De acordo com dados do Censo Escolar 2011, a taxa de abandono nessa etapa do ensino é de 9,2%, sendo que no 1º ano o índice de desistência é ainda maior, 11,6%.

Há cinco anos, a instituição costumava iniciar o ano com mil alunos e terminar com 800. “Hoje, temos 980 alunos no total, sendo que registramos cerca de 50 desistências neste ano, principalmente no período noturno, no qual muitos alunos estudam e trabalham ao mesmo tempo”, conta o diretor Roberto Bernardes da Silva. Ele assumiu a escola há cinco anos e tem o mérito de ter enfrentado um quadro problemático quando começou: os estudantes estavam desmotivados e sem perspectivas, e as estruturas estavam destruídas e pichadas, com vidros quebrados e portas sem fechaduras. Mas, em vez de considerar a precariedade do bairro periférico um obstáculo às melhorias urgentes que a instituição demandava, o diretor – junto com a equipe docente e com coordenadores – desenhou um projeto no qual a carência de estruturas fosse compensada pelas possibilidades oferecidas dentro do ambiente escolar.

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Assim, o colégio, cujas aulas acontecem em meio período, na manhã, tarde ou noite, passou a organizar atividades extracurriculares no contraturno, de forma que os estudantes pudessem permanecer por período integral na escola, seja para usar a quadra esportiva, o laboratório de informática ou participar de oficinas diversas. De acordo com Silva, a ideia partiu de conversas com os próprios alunos, que reclamavam do pouco interesse que sentiam pelas aulas e da falta de opções de lazer do bairro. “Passamos a enxergar a escola como um lugar de conhecimento, mas também de recreação. E, por meio do lazer, os professores estimulam os alunos a participarem das aulas”, garante o diretor. Entre as iniciativas extracurriculares oferecidas estão apresentações de dança, jogos de xadrez e projeção de filmes, assim como campeonatos esportivos. “No intervalo entre os períodos letivos, também permitimos que os alunos usem o laboratório de informática, as mesas de pebolim e pingue-pongue e a quadra esportiva”, explica Silva.

Economia criativa
Na visão do diretor, a história da escola mostra que é possível criar projetos para reduzir os índices de evasão, mesmo com poucos recursos financeiros. O único elemento que não pode faltar é criatividade. Para driblar a falta de um acervo de livros, jornais e revistas, ele teve a ideia de pregar nas paredes páginas dos jornais locais. “Como não possuímos biblioteca, fomentamos o hábito de leitura nos alunos por meio de soluções como essa”, explica.

Outra estratégia foi realizar bimestralmente rodas de conversas com alunos de todas as turmas, prática que permite identificar as necessidades dos alunos e aproximá-los da equipe docente. Nesses encontros, o diretor e os professores conseguiram identificar mais um problema relacionado com o abandono: a obrigatoriedade do uso de uniformes. “Percebemos que alguns alunos não vinham às aulas, pois os pais não podiam comprar os uniformes. Então, deixamos de lado sua obrigatoriedade”, comenta. A escola também liberou o uso de brincos, bonés, piercings, chinelos e outros adereços que não interferem nos estudos, atitude que cativa o respeito dos estudantes, na visão do diretor.

Também se valendo de atividades extracurriculares para motivar e garantir a permanência dos alunos na escola, o Colégio Estadual Walter Orlandine, há 34 anos aberto na cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, organiza oficinas de teatro que são referência em toda a cidade. Há mais de 12 anos, o ex-aluno do colégio Fernando Mattos leva adiante o projeto de organizar oficinas no contraturno das aulas. São os alunos, cerca de 80, que escolhem e adaptam os textos, organizam e executam os ensaios e programam as apresentações teatrais, sendo que, muitas vezes, os temas abordados nas peças estão relacionados a questões da vida escolar, como problemas de bullying e drogas na adolescência. O grupo de teatro da escola já tem 11 espetáculos previstos para este ano, incluindo apresentações em bibliotecas públicas e eventos do governo estadual. “Tenho alunos que se formaram e, hoje, vivem do teatro. E essas histórias servem para mostrar aos outros estudantes que a economia criativa está presente na escola e pode se tornar o seu sustento”, afirma Mattos. Entre 2009 e 2014, a escola reduziu a taxa de evasão de alunos em 36%. Hoje, a taxa de evasão da escola é de 7%, sendo 9,6% a média da rede Estadual do estado do Rio de Janeiro.

Evasão zero
Oferecer formação ao mercado de trabalho e também à vida é a proposta do Colégio Estadual Chico Anysio, localizado no bairro de Andaraí, zona norte do Rio de Janeiro. O colégio, que por meio de seu projeto pedagógico registra nível zero de evasão escolar, trabalha com duas bases de disciplinas. Na primeira, são oferecidas aulas do núcleo comum – como matemática e português –, enquanto na segunda são trabalhadas habilidades socioemocionais e não cognitivas. O diretor Willmann Costa conta que, como diretriz geral, o núcleo socioemocional visa despertar o desejo de aprender dos estudantes e também os ensina a lidar com outras pessoas e a trabalhar em equipe. Entre as disciplinas que fazem parte desse núcleo está a “Projeto de vida”, na qual os alunos discutem as dificuldades do seu cotidiano e constroem projetos para o futuro – nessas situações, o professor assume o papel de mediador.

Em outra atividade que faz parte do núcleo, os alunos falam sobre as dificuldades de estudo e recebem orientações dos docentes sobre como aprender melhor. Há, também, a aula “Projeto de intervenção e pesquisa”, que exige dos alunos a realização de apresentações individuais a fim de trabalhar práticas de escrita, argumentação e discurso em público. “Com essas disciplinas, cultivamos uma sensação de pertencimento à escola, de maneira que, hoje, não enfrentamos problemas corriqueiros de escolas públicas como evasão, depredação e desrespeito ao professor”, destaca o diretor. Criada em 2013, a escola oferece apenas os dois primeiros anos do ensino médio. O terceiro será criado em 2015.

Em relação à evasão, o diretor acredita que ela ocorre, principalmente, devido ao desinteresse dos alunos, que não veem ligação da sua vida com o que aprendem na escola. Ele opina, ainda, que muitos professores não entenderam que a geração atual de estudantes precisa ser ouvida. Por isso, ele afirma ser necessário reformular a formação dos professores que se posicionam como “donos do saber”, já que, hoje, o saber é socializado. “Alguns docentes se sentem afrontados com esse saber que o aluno traz, que pode não ser o conhecimento oficial, mas é um tipo de conhecimento”, comenta. A escola possui 168 alunos, com perfis socieconômicos variados, e 16 professores, todos contratados em regime de 30 horas semanais.

Ruptura de padrões
Além de não encontrarem sentido na escola, o que acontece principalmente quando os jovens não veem perspectivas de melhora social atreladas à educação, muitos abandonam o ensino para trabalhar. Edjar Junior Barbosa, diretor do Centro Experimental de Período Integral do Lyceu de Goiânia, um dos colégios mais tradicionais da cidade, fundado em 1937, conta a experiência de um aluno que deixou a escola depois de seis meses de curso para trabalhar como auxiliar administrativo e ajudar a mãe nas contas domésticas. Barbosa explica que, com o passar das semanas, esse estudante percebeu que, se continuasse naquele ritmo, não atingiria o projeto de vida que havia planejado em uma das aulas ministradas no Lyceu. “Com isso, decidiu voltar à escola, contrariando as expectativas da mãe e enfrentando graves dificuldades financeiras”, conta. O diretor avalia que, apesar de a situação em curto prazo não ter sido favorável ao jovem, em longo prazo o investimento nos estudos lhe abrirá portas profissionais mais rentáveis e dignas.

Da mesma opinião é Thereza Barreto, consultora do Instituto de Corresponsabilidade pela Educação, que oferece consultoria às escolas que desejam mudar seus projetos pedagógicos a fim de reduzir a evasão escolar. Thereza explica que, como tendência geral, os jovens do ensino médio de escolas estaduais têm baixa autoestima e acabam perpetuando a situação da família, muitas vezes caracterizada por empregos de baixa remuneração. Para ela, o primeiro passo para combater o abandono é trabalhar as áreas psicológica e social, a exemplo do que faz o Lyceu.

A instituição oferece dois núcleos de disciplinas: o currículo comum e outras para ajudar o estudante a estruturar seu projeto de vida. São 500 matrículas, todas em turno integral, e a taxa de abandono é de 5%, o que também contempla a transferência para outras escolas. “Antes de mudar nosso projeto pedagógico e passar a oferecer aulas em período integral, nossos índices de evasão eram comuns aos das outras escolas do país”, lembra Barbosa. Por fim, como parte das ações para inibir as faltas, o Lyceu também colocou em prática um projeto piloto para registrar os horários de saída e entrada dos jovens, por meio de dispositivos tecnológicos. Dessa maneira, quando se atrasam ou chegam tarde, imediatamente são enviados e-mails aos pais, notificando-os sobre a situação.

Ciclo vicioso

Em audiência pública em abril, o ministro da Educação, Henrique Paim, afirmou que o ensino médio é o setor com mais problemas e um dos principais desafios da pasta. Segundo dados do Ministério da Educação, o índice de reprovação logo no primeiro ano do ensino médio é de 30%, fator que está relacionado também à evasão escolar. Em agosto último, um relatório divulgado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apontou que, entre os jovens mais pobres, menos de um terço conclui o ensino médio no Brasil. Segundo dados do IBGE compilados pela ONG Todos Pela Educação, em 2012, apenas 51,8% dos jovens de até 19 anos haviam concluído os anos finais da Educação Básica brasileira.

Comumente, pesquisas apontam como principais fatores para a evasão a falta de interesse pelos estudos, um currículo escolar extenso e desconectado da realidade e aulas excessivamente teóricas. As dificuldades da etapa são agravadas ainda pela defasagem: um terço dos alunos desse ciclo está cursando uma série defasada em relação a sua idade, segundo dados de 2012.

Em mais uma tentativa de conter os dados, o governo federal lançou em novembro passado o Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio, que prevê, entre outros pontos, uma discussão sobre o currículo escolar, a ampliação do ensino integral e o aperfeiçoamento da formação dos professores. Entre as metas está o incremento de indicadores de proficiência em matemática, português e ciências.

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