Estação da bombinha

Asma atinge 20% das crianças e exige cuidados das escolas

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O outono e o inverno são considerados períodos críticos para quem tem asma. Nessas estações, aumentam as infecções virais e a tendência de permanecer em locais fechados, pouco ventilados e que concentram alérgenos (agentes capazes de produzir alergia). Isso potencializa as crises de quem mais sofre da doença, as crianças – que podem ter seu rendimento escolar comprometido, já que a asma muitas vezes obriga o aluno a se ausentar das aulas.

“Sem tratamento preventivo, as crianças têm dificuldades em praticar esportes, faltam mais às aulas e podem ter baixo rendimento no aprendizado”, destaca o pediatra Joaquim Carlos Rodrigues, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo (SP). “Como as crises — caracterizadas por chiado no peito, falta de ar e tosse intermitente — são mais freqüentes à noite, as crianças asmáticas faltam à escola porque passaram a noite anterior no hospital fazendo inalação”, complementa Dennis Burns, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Doença genética e hereditária, a asma é causada por inflamação crônica dos pulmões e das vias aéreas que carregam o ar que inalamos. Só no Brasil, a prevalência de asma na população infantil é de 20%, de acordo com a pesquisa
International Study of Asthma and Allergies in Childhood

(Isaac). “É um número alto, que exige da escola informação para lidar com os alunos asmáticos”, afirma Rodrigues.

É alto também o número de crises asmáticas nas escolas, que podem ser atenuadas. “Giz e apagador são venenos para os asmáticos, assim como fumaça de cigarro, pêlos de animais e outro alérgenos, como mofo e poeira. As escolas não observam o modo de limpar as classes. O mais adequado é aspirador e pano úmido”, aconselha Burns.

Além de cuidados com limpeza, é fundamental que a escola tenha uma ficha de saúde do aluno, medicamentos de socorro e informação para reconhecer uma crise e saber como agir nessa situação. “O professor tem que manter a calma e não pode deixar que o pânico se espalhe”, orienta o médico e cientista dinamarquês Soren Pedersen, chefe do Departamento de Pediatria do Hospital de Kolding, na Dinamarca, e que esteve no Brasil em março.

Pedersen diz que é comum a criança ficar nervosa e não conseguir manusear o primeiro medicamento de resgate, o broncodilator, popularmente conhecido por “bombinha”. “O professor deve saber usá-lo. Caso a crise persista, é preciso encaminhar a criança ao hospital, onde ela será tratada com antiinflamatórios, inaláveis ou em pó.”

Se o medicamento de resgate não funciona, a asma pode ser fatal. Apesar de não ter cura, o uso contínuo de medicamentos prescritos por especialistas ajuda a controlá-la. Em alguns casos, as crises são desencadeadas também por estresse e problemas emocionais. “Separação de pais, morte de entes queridos, doença grave na família e fobias podem agravar o quadro. Em situações assim, é preciso localizar quais são os fatores causadores e trabalhar para resolvê-los”, explica Pedersen, que deu palestras sobre o assunto para médicos no Brasil.

Aspectos psicológicos decorrentes da asma podem ser observados, ressalta Gilberto Fisher, pneumologista pediátrico de Porto Alegre (RS): a criança pode se isolar do grupo de colegas, sentir falta de vontade de brincar e ter medo de se expor. “É importante não permitir que a criança se torne insegura por causa da doença”, alerta. Um dos sintomas típicos, e não devidamente medicados, é o cansaço ao praticar esportes e participar de aulas de educação física. No entanto, atividades motoras são essenciais para o condicionamento aeróbico da criança e devem ser incentivada na escola.

“Muitas vezes os professores, mal orientados, aceitam pedidos de dispensa das aulas. O asmático não só pode, como deve fazer esporte. Se ele não estiver conseguindo jogar futebol, é obrigação do educador avisar o pai e pedir que procure um médico”, observa Fisher.

É o que faz Gabriel Tadeu de Freitas, 11 anos, aluno do colégio Pueri Domus, em São Paulo . “Ele corre para caramba. Chega até suado em casa. Vai a excursões da escola e participa de todas as atividades com os amigos” conta o pai, Flávio Tadeu de Freitas. “Enquanto meu filho tiver que conviver com essa doença,vou ajudá-lo a ter uma vida normal e não se sentir incapaz.”





Estudo aponta desinformação




De acordo com o estudo latino americano
Asthma Insights and Reality in Latin America

(AIRLA), realizado entre maio e junho de 2003 em 11 países, mais de 45% dos pais entrevistados achavam que seus filhos asmáticos estavam com a doença controlada. No entanto, 53% das crianças foram atendidas em emergências, e 26% foram hospitalizadas no ano interior ao estudo.

Os números brasileiros também refletem a desinformação sobre o controle da doença. Mais de 60% dos entrevistados acreditam que suas crianças estejam com a asma bem ou muito bem controlada. Porém, nas quatro semanas anteriores ao estudo, metade delas apresentou sintomas da doença considerados moderados e graves. O AIRLA mostrou que o Brasil tem mais de sete milhões de crianças asmáticas e que a média de faltas delas às escolas é de 7 dias por semestre.

Além do Brasil, a pesquisa atingiu Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela e ouviu 50 mil pessoas. “O resultado é muito preocupante porque a falta de informação é um inimigo perigoso para qualquer doença. Imagine para a asma, que atinge 150 milhões de pessoas no mundo”, analisa Gilberto Fisher, pneumologista pediátrico de Porto Alegre (RS).

De acordo com o
International Study of Asthma and Allergies in Childhood

(Isaac), desse montante, 60% são crianças. Só no Brasil são 18 milhões de pessoas, sendo que a prevalência média de asmáticos na infância é de 20%, aponta a mesma pesquisa. Os números elevados podem ser observados nos últimos índices de internações por asma do Sistema de Saúde Único (SUS). Em 2004, a rede registrou 174.107 internações de menores de 10 anos de idade, ao custo de quase R$ 57 milhões.




Sintomas da doença


· Chiado e sensação de aperto no peito

· Cansaço generalizado

· Cansaço ao praticar exercícios físicos

· Tosse crônica e intermitente

· Dores de cabeça




Cuidados a tomar com alunos




· Caso o aluno demonstre dificuldade em fazer exercícios, avise aos pais, para que possam encaminhá-lo a especialistas

· Se a criança tem prescrição médica, favoreça que use o broncodilator antes de fazer exercícios físicos

· Trate os alunos asmáticos da mesma forma que os demais. Incentive-os a participar das atividades escolares regulares, esportes e outras atividades recreativas

· Não entre em pânico se a criança sofrer uma crise. Sua reação poderia alarmá-la mais e piorar a crise

· Em caso de crise, dê um broncodilatador (spray ou inalável). Eles limpam as vias aéreas e controlam a inflamação. São seguros e não oferecem riscos à saúde

· Se a crise persistir não hesite em chamar o médico ou encaminhar a criança ao hospital




Lívia Perozim




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