Esqueçamos o ideal

É preciso deixar que os filhos construam o seu mundo, defende educadora

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Autora de Direitos humanos e educação (Cortez, 2005) e Sociedade da insegurança e a violência na escola (Moderna, 2004), a professora Flávia Schilling, da Faculdade de Educação da USP, identifica uma questão como central quando se reivindica o direito individual de privar os filhos do convívio escolar: a de que é preciso que deixemos de projetar a idéia de uma escola ideal. “Teremos de lidar com escolas reais, com seus limites e possibilidades”, defende em entrevista por e-mail concedica a Valéria Hartt.   


A visão de que a educação, em especial a pública, é ineficaz e está deteriorada torna legítima a opção por uma educação domiciliar?


Subjaz a essa proposta uma concepção sobre infância e sociedade “à la Rousseau”. Ou seja, os homens são bons por natureza e seriam corrompidos pela sociedade má. É preciso, assim, proteger a infância dos homens das más influências sociais. Claro que o próprio [Jean-Jacques] Rousseau (1712-1778), comentando sobre o Emílio ou da Educação (1762), chegou à conclusão que, possivelmente, o Emílio criado por ele seria uma pessoa insuportável. Essa concepção é criticada e criticável: não há como imaginar – para o bem e para o mal – que possamos ser humanos fora de uma sociedade, ou seja, só nos tornamos sujeitos em uma dada sociedade.


Como defender a escola enquanto instituição democrática e republicana diante das dificuldades que enfrenta hoje no Brasil?


É possível pensar a proposta da “escola em casa” a partir de uma constatação mais singela: cada pai e cada mãe consideram seu rebento único, especial, diferente – e de preferência melhor do que os outros. Daí a hesitação (também secular) em entregá-lo a uma instituição de ensino. E mais ainda quando se trata da escola moderna, que é uma instituição essencialmente igualitária. Lá, aquele belo anjo, único e especial, será tratado como igual aos outros belos anjos, únicos e especiais. Não haverá tratamento diferenciado. No Brasil há, historicamente, um horror à igualdade: esse horror subjaz a algumas propostas como a que hoje se discute nesta reportagem. Esse é um argumento central para a defesa da escola existente, aonde todos irão, pois para muitos será a única chance de se perceberem iguais (em direitos, em sua condição humana, com suas dúvidas e dificuldades).


Ao rejeitar a proposta da escola formal e pleitear o direito ao ensino em casa, as famílias não estariam apenas tentando dar legitimidade àquilo que consideram melhor para seus filhos?


Podemos supor que também há, na proposta da “escola em casa”, um profundo desejo de dominação por parte dos pais sobre os filhos. Tenta-se, dessa forma, que não existam outras influências que possam interferir naquilo que se deseja para o filho. Haveria assim, ainda, uma concepção de que os filhos são propriedade dos pais, que os modelarão conforme seus valores e ideais.


Como conciliar o interesse das famílias com os da sociedade?


O ponto central do debate é o reconhecimento de que não há escola ideal: teremos de lidar com escolas reais, com seus limites e possibilidades. É possível entregar o filho à instituição, confiar em suas forças para lidar com os conflitos que surgirão, aceitar com alegria que ele será diferente de nós – os pais, pois terá uma história diferente da nossa. É possível defender a escola como lugar de encontro (e de desencontros) se mantendo na retaguarda, olhando, conversando, discutindo, acompanhando. Não apenas é possível como é fundamental colocar os filhos no mundo para que façam desse mundo comum o seu mundo.

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