Esforço em participar

Estudo indica que famílias de áreas vulneráveis prezam a educação, mas encontram dificuldades na comunicação com a instituição escolar

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Renata Mazzini
As mães buscam a melhor escola para seus filhos, independentemente do próprio grau de instrução
Como em quase todas as dimensões da educação brasileira, o tema da participação também sofre os desvios da desigualdade, quando se olha para o que ocorre nas redes públicas, especialmente as que atendem as populações vulneráveis. Não porque as famílias não deem importância para a educação, preconceito que se repete à exaustão, mas porque as dificuldades são ainda maiores do que nas instituições que atendem a classe média e alta.


Esse quadro aparece com nitidez em uma pesquisa recentemente publicada pela organização social Cenpec – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária. O estudo de caso, denominado Esforços educativos de mães num território de alta vulnerabilidade social, dá voz a atores pouco ouvidos, quando se fala dos problemas da escola pública: as mães.
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O trabalho é o primeiro sobre o tema focado em meios de alta vulnerabilidade – famílias de migrantes oriundos da zona rural e hoje moradores de comunidades do extremo leste paulistano. “O estudo mostra que a ideia de que as famílias mais pobres não valorizam a educação é um mito. A educação é um grande valor para as mães, pelo caráter instrumental de acesso ao mercado de trabalho e também para que os filhos possam superar os próprios pais”, diz Antônio Augusto Gomes Batista, coordenador de pesquisa do Cenpec e doutor em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais.


Mais do que detectar o valor, o estudo mostra como as famílias se esforçam para ter a melhor educação. Demandam ações da escola, como lição de casa, e tentam evitar escolas com má fama e querem escolher a melhor possível, mesmo quando é mais distante – o que implica driblar a legislação. Os esforços educativos detectados no estudo incluem a compra de materiais de leitura, organização de espaços domésticos de estudo, acompanhamento escolar, entre outros. “Vi mães carregando filho em cadeira de rodas, acompanhando dever de casa, mesmo sem saber ler, oferecendo a presença”, lembra Batista.


Para o pesquisador, o estudo de caso ilumina o esforço cotidiano das famílias em atender a escola. Ele lembra o caso de uma mãe que ministrou uma surra no filho quando viu o bilhete que veio da escola escrito à mão, mesmo sem ter lido. “Essa mãe sabia que os comunicados comuns vêm em xerox e que, se veio escrito à mão, era bronca por algo que o filho fez”, conta.


Relações tensas
Embora tenham encontrado casos de escolas com melhor relacionamento entre famílias e instituição, o estudo de caso mostra uma relação de conflitos. A notícia veiculada na imprensa sobre a má pontuação no Ideb de uma das escolas desencadeou um conflito, em que as famílias surgiam como culpadas.


Para Antônio Batista, as relações entre famílias e escolas precisam caminhar para ser complementares. “As famílias precisam confiar seus filhos à escola e, por seu lado, a escola conta em grande parte com a educação que vem de casa”, analisa.


Ocorre que, segundo o pesquisador, as escolas esperam que os alunos venham com um modelo de socialização característico das classes médias e não sabem lidar com a diversidade. “É preciso parar de esperar que as crianças sejam de determinado jeito e trabalhar com os diferentes perfis de alunos, mostrando-lhes que há outras formas de conviver em sociedade”, reflete.


Para o pesquisador, o primeiro passo para aprimorar o diálogo é melhorar o grau de informação dos pais sobre o funcionamento da escola. “É essencial mostrar às famílias como a escola funciona, sobre os direitos que as crianças têm; ao mesmo tempo, é preciso abrir espaço para que os pais contem sobre quem são, de onde vieram, o que esperam”, analisa. “Antes de pensar no que o pai pode fazer, precisamos saber o que a escola deve fazer”, diz.


Do diálogo podem nascer formas de participação que fogem aos padrões. Foi o caso de uma mãe que se ofereceu para fazer uma limpeza em uma escola, que foi prontamente recusado. “Não era uma afronta: a mãe simplesmente ofereceu uma prática que era muito comum em sua cultura de origem e seria feita com prazer”, conta Batista.


A postura refratária das escolas surge mais clara quando os pais fazem demandas objetivas. Segundo o relato de uma das mães entrevistadas, quando questionou a falta de lição de casa, ouviu de volta um: “Vocês estão reclamando que eu não passo lição de casa? Então vocês vão ver só!”


No relacionamento com os professores, o estudo mostra também que as mães conseguem discernir entre as famílias mais envolvidas com a educação dos filhos e também com os docentes mais compromissados. “(…) tem professor que é́muito bom. Agora tem professor que dá́todo dia receita. Eu vi isso. Eu chamei o pai aqui e falei pra ele reclamar na escola, porque não pode. Os pais têm que reclamar”, diz um dos depoimentos colhidos.


O estudo do Cenpec terá continuidade nos próximos meses, agora focando as relações entre as escolas e como elas conversam entre si, nos temas que envolvem alunos, professores e pais. “Estudaremos como se forma essa espécie de ecologia das escolas, dentro de um território”, explica Antônio Batista.

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