Escutatória

A potência do silêncio

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Há um tempo para cada coisa, até para reter a oratória. Retomo, agora, a palavra, num reverente silêncio de escutatória. Por vezes, são tão densas as palavras escutadas, que se aproximam da leveza dos silêncios. Venho falar-vos de palavras assim.

O meu amigo Carlos (se todos os professores fossem feitos do seu molde!) escreveu-me:
Caro Zé, não conhecia ainda o sabor amargo da tristeza profissional. Há quem diga que, mesmo nos momentos difíceis, há que saber tirar os ensinamentos da vida. Eu não consigo. Só quero mudar de escola e poder projectar-me de novo. Aquela sensação de poesia interior, que tantas vezes me avassalou, está longe de mim. Sinto-me prosa insignificante, com alma de manual escolar. Sei que percebes aonde eu quero chegar.

Eu sabia aonde o professor Carlos queria chegar. E, por saber, me quedei em silêncio, num fraterno e comovido silêncio. Que poderia eu dizer, amigo Carlos, que não fosse deturpado por aqueles a quem convém que o silêncio protetor da mediocridade te esmague? Que poderia eu escrever, que não fosse açoitado por aqueles que te roubam a “poesia interior”?

Alguém quis que eu escutasse uma criança, que me falou com o olhar:
Hoje, aconteceu uma coisa muito importante na minha vida. Quando acordei, chamei a minha mamã e disse-lhe: “Tona pupa. Num qué!”(tradução: Toma a chupeta. Não a quero!). A minha mamã perguntou: “Não queres a pupa, filhota? Então vamos pô-la no lixo?”. Eu respondi: “Sim, à uixo!” (tradução: Sim, no lixo!). Fui até à cozinha, no colo da minha mamã. E deitei a minha chupeta fora. O pior aconteceu quando fui dormir. Não tinha percebido as consequências do meu corajoso ato e chorei, até adormecer. Soube que os meus papás também sofreram muito, do outro lado da porta. Conversaram comigo e eu acabei por perceber que a chupeta estava muito porca, dentro do lixo, e que eu sou uma menina grande e já não preciso dela para dormir. Estás contente por mim, vovô?


Só mais umas palavrinhas de uma professora:


Os meus alunos leram-me uns textos. A capacidade e a coragem que eles tiveram de se abrir diante de todos!… Foi, simplesmente, fantástico. Fiquei muito feliz! E confesso – ainda que, didaticamente, não seja correto – que chorei diante dos meus alunos, quando leram um dos textos, que tinham preparado para mim. Uma aluna chegou a dizer-me que, a partir daquele dia, era uma nova e outra mulher, mais forte, mais digna. O marido dela olhou para mim e agradeceu-me… com o olhar. Eu não sabia, mas ela tem um tumor maligno e faz quimioterapia. Perdeu todo o cabelo, sofreu muito, mas está reencontrando o sentido de viver.

Silêncio, mais uma vez. Redescubramos a importância do silêncio. Nele estão contidas as respostas para as perguntas essenciais. Por vezes, nos lugares onde o diálogo acontece, o silêncio pode falar mais alto. Por vezes, durante as minhas conversas com educadores, um estranho sentimento me assalta e sinto-me esmagado pelo peso das palavras, ou pela inutilidade do seu uso –
só se vê bem com o coração, não é asim?

Isso acontece quando algum dos meus interlocutores fica com ar absorto, com o sonho a saltar-lhe das órbitas. Enquanto uns me vêm dizer que farão obras maravilhosas, outros retêm-se a um silêncio que me assegura ter esperança de não ter estado a falar em vão. O silêncio é da mesma natureza do sonho. E, se Victor Hugo disse que se deverá julgar um homem por aquilo que ele sonha mais do que por aquilo que ele pensa, mais valerá considerá-lo por aquilo que cala do que por aquilo que diz.

*
José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br

Escutatória

Ou o silêncio como alimento

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Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Parafraseio Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma".  Não aguentamos ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor: "Se eu fosse você…" Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer,  que é muito melhor. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas".

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos. Foi trabalhar num programa social com os índios. Contou-me sua experiência. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou." E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos, passei uma semana num mosteiro na Suíça. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz aonde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira,  ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça,  iluminada por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um espaço vazio onde quem quisesse podia sentar numa almofada. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu  e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E comecei a me alimentar de silêncio também…



Rubem Alves


Educador e escritor



rubem_alves@uol.com.br


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