Escudo protetor

Colégios investem em equipamentos de segurança para evitar que criminalidade chegue aos alunos

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Daniela Tofóli

As câmeras monitoram os passos de todos que passam pelo quarteirão. Qualquer carro suspeito começa a ter seus movimentos acompanhados. Se um novo vendedor ambulante chega às redondezas, é obrigado a se identificar. Com rádios nas mãos, os seguranças ficam atentos a tudo e, se necessário, disparam o alarme que aciona a polícia. Só entra quem estiver de uniforme ou crachá. Todo cuidado é pouco. Ninguém está guardando criminosos procurados nem bancos poderosos. O esquema de vigilância é montado para tentar proteger a vida de centenas de crianças e jovens que estudam em colégios particulares das principais capitais do país.



Preocupação cada vez mais freqüente dos pais, que ficaram ainda mais assustados ao verem, apenas em São Paulo (SP), cinco estudantes seqüestrados a caminho das aulas no mês de agosto, a segurança nas escolas passou a ser uma obrigação. E os colégios já sabem que, se não quiserem perder alunos, não basta oferecer os melhores professores nem os laboratórios mais modernos. Também não adianta ter uma biblioteca repleta de bons livros nem quadras para todo tipo de esporte. É preciso investir – e muito – em câmeras, vigilantes treinados e alarmes.




É isso o que está fazendo o Colégio São Luís, de São Paulo, que conta com 2 mil estudantes. Neste ano, o colégio investiu 42% a mais em segurança do que no ano passado. Os valores brutos não podem ser divulgados justamente para não colocar todo o esquema a perder, mas, segundo Jairo Cardoso, diretor administrativo da escola, os gastos para tentar coibir a violência são inevitáveis. “Esse é um problema que atinge toda a sociedade e a escola não pode ficar de fora”, coloca. “Mas temos de tomar cuidado para que o colégio não se torne uma redoma e, por isso, temos de ensinar os alunos a ter cuidado.”




O objetivo é tentar prevenir que assaltos e seqüestros ocorram. Para isso, o colégio conta com câmeras internas e externas, seguranças que fazem rondas pela região e até uma rua interna para que os pais não precisem estacionar nas imediações para levar e buscar os estudantes. “Essa rua é uma tranqüilidade muito grande porque o pai não corre nenhum risco. Nem de ter o som roubado nem o de ser seqüestrado ao voltar para o carro”, aponta Cardoso. Quando o pai não pode ir buscar a criança, é preciso informar o colégio, que só então autoriza a liberação.




No caso dos adolescentes que pegam ônibus ou metrô, os seguranças estão à disposição para acompanhá-los até o ponto, basta que a família solicite o serviço. Os seguranças do São Luís não são terceirizados. “Optamos por treinar funcionários do colégio que já trabalham conosco há muitos anos e que conhecem cada aluno e cada família”, explica Cardoso. “Assim, não há rotatividade e ficamos mais sossegados.”




O Magister, também em São Paulo, é mais uma escola que optou por investir na segurança na hora da entrada e saída dos alunos. Na unidade que atende 900 crianças do maternal à quarta série, nenhum estudante fica nas calçadas. Há três anos, eles construíram o novo prédio com uma garagem subterrânea, onde os pais e os ônibus escolares param. “Toda família recebe um adesivo para colocar no carro e ter acesso ao estacionamento. Se o pai quiser, pára o carro e pega o filho. Se estiver com pressa, passa por uma rua principal onde os funcionários já colocam a criança no veículo. Ele nem precisa descer”, explica Alberto Palos Martinho, diretor-geral do colégio. “E mesmo sem ter estudante andando a pé pela região, contamos com vigilantes terceirizados no quarteirão. Mas eles não usam armas.”




Quando se trata de segurança em escola, a recomendação é realmente para que os vigilantes não andem armados. “Os colégios sabem que têm uma responsabilidade muito grande e a maioria usa vigilantes com rádios, muitos acompanhados de carros e sistemas de alarme, mas sem armas”, pondera Jefferson Simões, presidente da Federação Nacional das Empresas de Segurança. Apesar de não ter estatísticas, ele afirma que a contratação de empresas de segurança por parte das escolas vem aumentando muito. “Infelizmente, com o crescimento da criminalidade, todos os setores acabam afetados e as escolas precisam se proteger também.”




Responsável pela segurança de 200 colégios particulares só no Estado de São Paulo, a Siemens também vem sentindo esse aumento da procura. “Quem não tinha nenhum esquema de segurança, sejam equipamentos ou vigilantes, está começando a colocar e quem já tinha está modernizando”, afirma Émerson Silva, gerente comercial na empresa no Estado.




A Siemens instala alarmes, câmeras, portões, catracas, botões de pânico e monta esquemas de segurança para salas específicas (como laboratórios de informática). “Com toda a tecnologia pronta, treinamos os funcionários das escolas e fazemos a reciclagem sempre que instalamos um novo aparelho”, diz Silva. O preço para ter essa segurança, conta, varia muito de acordo com o colégio e com os equipamentos escolhidos. “O sistema de alarmes, por exemplo, pode ser instalado com R$ 3 mil. Já o circuito de TV pode variar de R$ 2 mil até R$ 15 mil.”




Luciano Caruso, gerente de marketing e novos produtos da Graber – uma empresa que instala equipamentos e também fornece vigilantes treinados para as escolas -, explica que os custos variam de acordo com a localização do colégio e com a quantidade de seguranças contratados. “O gasto maior não é com equipamento, mas com pessoal. Quanto mais portarias a escola tem, por exemplo, mais caro fica.”




Caruso conta que a procura aumentou após os crimes ocorridos em agosto e que há poucos meses a Graber passou a oferecer escolta de peruas escolares aos clientes. “Vamos seguindo a perua à paisana. Nosso objetivo não é trocar tiros com os bandidos, é seguir a perua para ver se acontece alguma coisa”, diz. “Se acontecer, temos como comunicar imediatamente à polícia e dar todas as informações. Agilidade e comunicação nessas horas podem ajudar a resolver um caso”, defende. Quando o colégio insiste para que os seguranças andem armados, conta, a empresa tenta convencê-lo do contrário.




O Colégio Marista de Salvador, que tem duas unidades e 2.100 alunos na capital baiana, chegou a um meio-termo. Durante o dia, quando os estudantes estão na escola, os vigilantes andam sem armas e, após as 19 horas, passam a fazer a segurança com elas. “Como não temos aulas no período noturno, não há problema”, explica o irmão José Nilton da Silva, diretor-geral do colégio. “Contratamos uma empresa especializada para fazer esse serviço e já estamos pensando em instalar câmeras para aumentar a segurança, porque os pais estão pedindo.”




O Marista também está em negociação com os alunos do ensino médio. “Eles sempre puderam sair do colégio na hora do recreio, mas, por causa da violência, estamos tentando mudar isso”, coloca Silva. Apesar de não ter catraca na entrada, o colégio controla a entrada e saída dos alunos por meio de carteirinha e do uniforme. “Por causa do uniforme, fica fácil identificar quem é de fora. Esse é um controle visual muito bom.”




A exigência do uniforme também é uma questão de segurança no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro (RJ). Com 4.700 estudantes, eles tiveram de fechar alguns portões de acesso nos últimos anos e ficar de olho no uniforme para ver se nenhum estranho entra na escola. “O uniforme serve até para identificarmos algum aluno em apuros”, explica Eduardo Monteiro, assessor de comunicação do Santo Inácio. “Afinal o nosso maior problema é com assaltos de estudantes no entorno.”





Armados ou não? –


Por uma questão de filosofia de trabalho, diz Monteiro, a escola optou por não instalar câmeras. “Temos vigilantes desarmados o tempo todo”, afirma. “Como há uma agência bancária dentro da escola, já sofremos alguns assaltos e lá há segurança armada – mas a agência fica longe dos alunos.” Os vigilantes do Santo Inácio também são funcionários do colégio que passam por treinamentos periódicos.





Já o Colégio Lourenço Castanho, com 1.700 estudantes, em São Paulo, decidiu contratar uma empresa de vigilantes há dez anos. A equipe conhece todos os alunos e fica 24 horas atenta aos movimentos na região da escola. “Se chega um novo vendedor de pipoca, vamos lá ver se ele tem autorização da prefeitura para trabalhar”, conta José Carlos dos Santos, chefe de segurança do colégio. “Se um carro diferente pára na frente da escola, também fazemos a abordagem.”




Como alguns estudantes vão ao colégio acompanhados de segurança particular, a vigilância do colégio conversa com a família e se apresenta. “O trabalho tem de ser em conjunto para o bem dos alunos. Se um deles volta para casa sozinho, orientamos para que tente andar em grupo e em ruas movimentadas”, afirma. “Todos nós fomos treinados para lidar com as crianças e com os jovens”, completa Santos




Os seguranças da empresa GP – Guarda Patrimonial, de São Paulo, que vão trabalhar em colégios também passam por uma preparação especial. “Fazer a segurança de uma escola não é como a de um condomínio ou de um banco. A conduta é muito diferente”, lembra Cláudio Gaspari, diretor comercial da empresa. Os vigilantes recebem orientações como a de nunca tocar em um aluno. “Se tiver algum problema, ele deve chamar a direção do colégio e, se for algo mais grave, não pode reagir. Tem de ficar atento para dar as informações à polícia.”




A Ultrak concorda que fazer a segurança de uma escola é uma situação bastante específica. “Todos entram e saem juntos e é preciso que haja um bom controle externo”, afirma João Wallig, diretor presidente da empresa. “Quando chegamos a um colégio tentamos, por exemplo, reduzir o número de portarias porque essa é uma forma de aumentar a vigilância.”




A Ultrak faz a instalação de equipamentos e elabora planos de segurança para escolas. Nos últimos meses, conta Wallig, muitos colégios estão pedindo a instalação de catracas. “Mas não adianta uma ação isolada. É preciso ter um projeto de segurança completo.” Para uma escola média, ele pode custar R$ 200 mil. “Mas o colégio vai implementado aos poucos.” Em apenas um ano, afirma, a procura das escolas aumentou 40%. “Todo mundo está preocupado com a violência e sabe que daqui para frente vai ter de investir em segurança se não quiser perder aluno.”


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