Escritor Knausgard narra sua experiência como professor

Obra ficcional autobiográfica relembra Noruega dos anos 80

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Imagine alguém que nunca deu aulas na vida. Tem 18 anos e acabou de se formar no ensino médio. Depois de passar por um teste de conhecimentos, sai de sua cidade, no extremo Sul da Noruega, com destino a um pequeno vilarejo de pescadores no extremo Norte, uma região em que a escuridão toma de assalto os meses de inverno.

Nesse vilarejo, chamado Hafjord, Karl Ove Knausgård, autor e narrador da saga ficcional autobiográfica Minha luta, vive pela primeira vez longe de sua família – os pais recém-separados e o irmão mais velho. Esse é o mote de Uma temporada no escuro, quarto volume da série.
O pequeno Karl Ove foi um aluno brilhante, ainda que excessivamente inseguro e sequioso por reconhecimento. Isso até que a rebeldia da juventude batesse à sua porta. Os anos de bom estudante garantiram a seleção como professor, mas a inquietação adolescente o faz flutuar entre os exageros com a bebida, a permanente sensação de insucesso com as garotas e um comportamento muitas vezes agressivo.

É assim que ele terá de lidar com crianças dos 9 aos 17 anos, para ensinar-lhes disciplinas variadas, como norueguês, matemática, história, ciências. O preparo é praticamente nenhum além daquilo que absorveu como estudante.

Uma temporada no escuro – Minha luta 4, de Karl Ove Knausgård, Tradução: Guilherme da Silva Braga, Companhia das Letras, 496 páginas, R$ 59,90 (edição impressa), R$ 39,90 (e-book).

Uma temporada no escuro – Minha luta 4, de Karl Ove Knausgård, Tradução: Guilherme da Silva Braga, Companhia das Letras,
496 páginas, R$ 59,90 (edição impressa), R$ 39,90 (e-book).

A bênção para sua inexperiência é que as classes são pequenas, com no máximo sete alunos. Mas, mesmo assim, alguns deles têm praticamente a mesma idade do professor, e irão testá-lo e provocá-lo o quanto puderem. Ou, no caso de algumas de suas alunas, sonhar em seduzi-lo.
Na Noruega dos anos 80, essas pequenas vilas do Norte estão já habituadas aos jovens que vêm do Sul para curtas temporadas antes de definirem o que realmente querem fazer de suas vidas. Os próprios jovens do lugar sabem que, se quiserem algo mais do que pescar e embriagar-se nas festas locais, terão de rumar para cidades maiores, onde possam continuar estudando e vislumbrar algo mais promissor.

Karl Ove já sabe que só ficará ali durante um ano – caso consiga resistir. Ele quer aproveitar a calma do lugar para escrever seus primeiros contos. Para isso, usa o combustível da bebida e dos discos sobre os quais até pouco tempo atrás escrevia no jornal da cidade onde morava. E busca ansiosamente dar início à sua vida sexual, sem saber ao certo se isso já aconteceu ou não.
Fruto de um jorro narrativo sobre suas memórias, escritas ainda antes dos 50 anos, a obra de Knausgård consegue traduzir, a um só tempo, as angústias do escritor que olha para o passado e dos vários Karl Ove revisitados pela escrita. Permeada por fluxos e refluxos narrativos, idas e vindas que deixam temas em aberto como se estivessem sempre à espreita de um retorno, Minha luta mostra um sujeito ainda em construção. E esse processo em aberto talvez seja um de seus maiores chamarizes.

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