Escrever para crianças

A boa literatura infantil pensa e vê o mundo como a garotada, mas controla a narrativa como um adulto

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Foto: Pixabay

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Literatura infantil é uma das formas mais difíceis de escrita, pela razão de que é feita por adultos, e a maioria deles não tem a menor ideia de como uma criança pensa. É natural. Tornar-se adulto significa fazer em si próprio uma lavagem cerebral para absorver normas de comportamento, linguagem, convivência social, escolarização etc., além de tentar eliminar da memória a mistura de paraíso e pesadelo que é ser criança num mundo que pertence aos adultos.

A maioria das pessoas “adultece” de maneira tão eficaz que às vezes precisa de muitas horas no divã para poder recuperar lembranças, emoções e vivências do seu tempo de criança. A mente adulta é uma couraça protetora que, uma vez construída, não se rompe com facilidade, para o nosso bem e para o nosso mal.

Nunca sabemos ao certo do que é que criança gosta. No Brasil, onde a literatura infantil sustenta centenas de pais e mães de família, a toda hora tem alguém batendo com a mão na testa, exclamando “eureka”, e publicando um livro infantil com uma Grande Ideia.  A maioria dá com os burros n’água, porque naquele ano as crianças estão querendo outra coisa. Qual? Ninguém sabe, nem J. K. Rowling, de Harry Potter. Ela nunca imaginou que iria vender tanto. Ou melhor, imaginou, sim, porque todo escritor, quando publica um livro, imagina que vai fazer um sucesso estrondoso. Quantos acertam?

Lucidez

É preciso pensar como criança, contar a história do ponto de vista dela, e manter estilo e narrativa sob controle de adulto. Alguns perdem esse controle. Passam a raciocinar como crianças e não autores, o que torna os livros infantiloides. Outros evitam isso indo na direção oposta – distanciam-se da criança e contam as aventuras “de cima”, com olhar paternalista, cheio de ideologia.

Uma das coisas mais inteligentes e perceptivas sobre a narrativa infantil foi dita pelo francês Michel Ocelot, diretor dos longas Kiriku e a Feiticeira (1998) e Azur e Asmar (2006). Perguntado sobre como fazer um filme para crianças, Ocelot, que veio ao Brasil para o Anima Mundi, respondeu:

“Há só uma regra para fazer filmes para crianças: nunca fazer um filme para crianças. Um filme feito com a preocupação de que tudo seja compreendido por crianças não é apenas um filme ruim, mas é uma atitude equivocada. O trabalho de uma criança deve ser aprender, aprender e aprender mais.  Para ela, quase tudo o que aparece na sua vida é novidade, e não compreender as coisas faz parte de seu cotidiano. A criança não se afasta completamente de uma história por não a ter entendido. Entre as novidades que surgem, haverá detalhes que ela compreenderá, porque sua mente é muito esperta e ativa. Há coisas que ela adivinha. E há coisas, claro, que ela não entende mesmo, mas que guarda estocadas no cérebro para usar no futuro.”

Isto é de lucidez notável. A criança aceita não entender uma coisa; é parte do seu cotidiano. Se na história que lê existir luz, ela aceitará que existam zonas de sombra. E essas zonas de sombra existem em mais de um sentido. Nossa memória afetiva é incrustada de elementos que ali se fixam antes de adquirirmos um senso crítico ou um filtro racional para escolher o que nos convém ou não.

Fórmulas

Na infância lemos, vemos ou ouvimos coisas que não entendemos por completo, mas que se fixam na memória pela repetição, ou por estarem associadas a eventos deslumbrantes, terríveis ou inesperados.  Tornam-se fórmulas que valem não pelo que dizem, mas pela teia de referências emocionais e de conexões mentais que arrastam consigo.

Vejam o caso das cantigas infantis, parlendas, brincadeiras rimadas. Cantigas, bem como contos de fadas, têm raízes remotas na memória social dos povos, e não são tão inocentes quanto gostaríamos. Falam de madrastas cruéis, de crianças enterradas vivas, perdidas na floresta… Uma cantiga inglesa de jardim-da-infância diz: “Ring a ring of roses, a pocketfull of posies, atishoo, atishoo, all fall down.”

Diz a tradição que os versos se referem à Peste Negra: o círculo de manchas vermelhas em volta da boca, os bolsos cheios de flores, os espirros, a morte.  Por que as crianças cantam isto? Porque houve uma época em que não se falava em outra coisa, e as crianças faziam o mesmo em suas brincadeiras. Versos aparentemente inocentes podem ser resíduos de experiências terríveis do passado, de épocas de enorme mortalidade infantil ou de extrema crueldade com crianças.

Incorretas

As cantigas não são politicamente corretas; não foram concebidas por comitê de assistentes sociais. Nasceram, como toda poesia popular, da necessidade de falar sobre experiências-limite, sobre o que, no momento e lugar em que acontece, parece a coisa mais importante do mundo. Crescem pela lenta acreção de imagens e situações, ao longo de um ciclo em que crianças recebem essas fórmulas mágicas, e as passam adiante na velhice.

Outra parte da literatura infantil é didática, cheia de bons exemplos e lições de comportamento e princípios. Mas nem toda literatura serve só para educar. A literatura é também uma experiência de dizer o indizível, de controlar o impensável. Ela se faz também com os medos, as dúvidas, os desejos proibidos e os impulsos perigosos que todos, adultos ou crianças, trazem dentro de si. E uma parte da literatura infantil ou juvenil lida com essa zona de inquietação e de experimentações com o perigo.

São experiências sob controle, porque se dão apenas no âmbito da leitura; mas são experiências inesquecíveis e marcantes.

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