Escolas sustentáveis

Certificados que garantem “selo verde” às escolas trazem vantagens como a atração de um novo perfil de pais interessados na questão e a redução de custos com água e energia, por exemplo

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Divulgação
Alunos cuidam do “ecotelhado” do Colégio Estadual Rich W. Heine, no Rio de Janeiro: vegetação ajuda a diminuir a absorção do calor


Cada brasileiro produz, em média, 1,2 quilo de lixo por dia. Uma escola com 300 estudantes é capaz de gerar, pelo menos, 180 quilos diários, o equivalente a 5,4 mil quilos por mês. E para onde vai esse lixo todo? Essa e outras preocupações relacionadas ao meio ambiente estão cada vez mais presentes no ambiente educacional, tanto na inciativa privada quanto na esfera pública. Construir prédios “verdes”, realizar programas de coleta seletiva e instruir os jovens e as crianças são caminhos que amenizam o impacto causado por uma instituição. “Um edifício educacional é um multiplicador do conhecimento. Tornar esse espaço mais consciente é fundamental para disseminar a preservação dos recursos naturais”, afirma a arquiteta Mirtes Luciani.

Nesse sentido, uma boa alternativa é se credenciar para receber selos que comprovem a eficácia dos programas adotados. A certificação ISO 14001, por exemplo, foi criada em 1996 e está presente em 84 países. A norma determina a criação de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) capaz de identificar, priorizar e gerenciar riscos relacionados ao meio ambiente.

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Estratégia de marketing
Adriane Cunha, diretora da Escola Materna (SP), cuja unidade de educação infantil tem o selo desde 2003, diz que a certificação também funciona como estratégia de marketing. “Na escolha de uma nova instituição esse é um item decisivo para os pais, ficando atrás somente do projeto pedagógico e da qualificação do corpo docente”, afirma. E essa percepção tem sido confirmada pela prática. “Sem dúvida ganhamos visibilidade, o que ocasiona um aumento da procura”, explica.

Para conquistar a certificação é preciso implantar uma série de requisitos, fornecidos pela norma. “É o conjunto de ações que determina se uma escola é realmente preocupada com o meio ambiente e não apenas o prédio ou o sistema de coleta seletiva. A ISO avalia a instituição como um todo, seus projetos e iniciativas”, ressalta Adriane.

Em 2013, nove unidades educacionais do Grupo Positivo passaram por uma avaliação de performance ambiental, que durou 18 meses. A análise das práticas feitas nos prédios foi a primeira etapa, seguida pela execução de um plano de ação criado a partir desse mapeamento.

“Também fizemos investimentos em infraestrutura. Padronizamos as lixeiras de coleta seletiva, com destinação adequada dos resíduos e instalamos mais placas de sinalização de saídas de emergência, entre outros quesitos”, afirma Eliziane Gorniak, diretora do Instituto Positivo.

Prédios verdes
Depois de adotar esses procedimentos, as unidades foram submetidas à auditoria externa e conquistaram a certificação. “Ao implantar o SGA, além de avaliar, gerir e reduzir os impactos ambientais de nossas ações, também formamos cidadãos comprometidos com o mundo em que vivem”, acredita Celso Hartmann, diretor-geral do Colégio Positivo.

Obter a ISO, de acordo com Eliziane, é um processo complexo, demorado e oneroso, mas os resultados compensam. “Foi uma ação positiva para as escolas. Nos destacamos no cenário educacional”, ressalta.

O Colégio Estadual Erich W. Heine, inaugurado em 2011 no Rio de Janeiro, foi a primeira escola da América Latina a conquistar o certificado LEED Schools, na categoria prata (leia mais sobre o prêmio no box). Construída pela empresa ThyssenKrupp CSA em parceria com o estado e o município do Rio, a escola oferece 600 vagas de ensino médio e técnico em administração com ênfase em logística e informática.

A certificação foi conquistada depois da adoção de 50 medidas que garantem melhor aproveitamento dos recursos naturais e maior eficiência energética. “Se visto de cima, o formato do prédio é um cata-vento, pensado dessa maneira para garantir iluminação natural e circulação de ar”, diz o diretor Valnei Alexandre da Fonseca. Além disso, o projeto inclui sistema de reaproveitamento de água das chuvas, recurso usado na limpeza e na jardinagem, lâmpadas de LED, sensores de presença, telhado verde, que ajuda a garantir conforto térmico, e aquecimento solar para os chuveiros, entre outros elementos.

A estrutura física corresponde à maior parcela do impacto ambiental causado por uma escola. O mais frequente, entretanto, é que as instituições não cuidem desse aspecto. “O interesse das escolas existe, mas não se concretiza em ações. Atualmente há um paradoxo: as pessoas sabem que a questão da sustentabilidade é importante, mas não a tratam com o peso que ela exige”, afirma o arquiteto José Tabith, especializado em construções sustentáveis para instituições de ensino superior.

Tabith explica que uma escola sustentável deve ser planejada a partir de três fases. A primeira é a elaboração de um programa de necessidades da instituição. A segunda é a definição de suas prioridades e objetivos. E por último, voltar a atenção para a obra em si. “Muitas vezes um prédio é sustentável, mas a construção ocasiona um desperdício grande de recursos”, diz.

Queda nos custos
A arquiteta Maria Carolina Fujihara, coordenadora técnica do Green Building Council (GBC) Brasil, calcula que, ao incluir soluções verdes em um edifício escolar, o custo da obra cresce de 1% a 7%. O percentual vale para prédios novos e também para reformas. “Nos reparos de fim de ano, as escolas poderiam pensar em mudanças que possibilitem um ambiente mais verde. Os gastos não são altos e o retorno é certo”, defende.

Dependendo do tamanho da escola, o investimento pode ser recuperado em até dois anos, calcula Maria Carolina. “Além de minimizar o impacto ambiental, as contas de água e energia são reduzidas.”

Karla Cunha, especialista em arquitetura sustentável, diz que a escola pode começar esse processo com alterações simples, como a substituição de lâmpadas convencionais por modelos de LED, que proporcionam uma economia de energia de até 70%, e a instalação de torneiras e chuveiros com reguladores de vazão. “Muitas pessoas ainda acham que é preciso colocar a escola abaixo para torná-la mais verde. Não é. Aos poucos é possível transformá-la”, afirma.

Certificações renomadas

Enquanto a ISO certifica a escola de acordo com as suas práticas ambientais como um todo, outros selos dão maior ênfase à questão da infraestrutura. Dois dos mais famosos são o Aqua, concedido pela Fundação Vanzolini, e o Leadership in Energy and Environmental Design (LEED), do Green Building Certification Institute (GBCI). Este último criou uma categoria destinada especialmente a escolas: o LEED Schools. O objetivo é incentivar ambientes educacionais mais saudáveis e confortáveis, que possibilitem melhor desempenho dos alunos e do corpo docente. O selo pode ser concedido a construções novas e também a reformas. “Se mais de 60% da estrutura sofrer alterações estruturais, a obra é avaliada como uma nova construção”, afirma a arquiteta Maria Carolina.

Para obter o título, as unidades devem atender requisitos determinados pelo GBCI, processo acompanhado e direcionado pelo GBC Brasil. Basta entrar em contato com o órgão brasileiro, que disponibiliza uma equipe de arquitetos responsável por guiar os procedimentos. “Nossa meta é fazer do edifício uma ferramenta de ensino e disseminar a importância da preservação ambiental em toda a comunidade”, explica a arquiteta. Ao especificar um sistema de reúso de água das chuvas, por exemplo, o responsável pelo projeto é orientado a deixar uma parte da estrutura aparente, assim os estudantes podem verificar como é o funcionamento da tecnologia.

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