Escolas públicas que fazem parte de rede da Unesco investem em projetos de sustentabilidade e de respeito às diferenças

Instituições da rede pública, ainda em minoria no programa da agência da ONU, se destacam por iniciativas interdisciplinares que visam a formação para além do currículo

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Sustentabilidade é um dos temas explorados em projetos na Escola Infante Dom Henrique, de São Paulo (SP), que faz parte do Programa de Escolas Associadas (PEA) da Unesco. (Crédito: Arquivo/Escola Infante Dom Henrique)

Sustentabilidade é um dos temas explorados em projetos na Escola Infante Dom Henrique, de São Paulo (SP), que faz parte do Programa de Escolas Associadas (PEA) da Unesco. (Crédito: Arquivo/Escola Infante Dom Henrique)

Quando Cláudio Marques da Silva Neto chegou à Escola Municipal Infante Dom Henrique (SP) para atuar como diretor, encontrou um ambiente marcado pela violência. Um supervisor que trabalhou na instituição chegou a descrevê-la como “uma escola em pré-rebelião”. Casos de alunos jogando carteiras nos professores e de funcionários afastados por licença médica eram parte da triste realidade do local.

Seis anos e um projeto político-pedagógico totalmente renovado depois, a situação é completamente diferente. Após um trabalho para humanizar a escola, refazendo regras e discutindo o direito dos alunos, a instituição é tida como referência em São Paulo e, a cada ano, corpo docente e direção atuam juntos na criação de projetos interdisciplinares com temas como educação ambiental e direitos humanos. Hoje, a instituição tem 28 projetos homologados na diretoria regional de ensino.

A mudança de perspectiva e o investimento em projetos levaram à aceitação da escola, em janeiro deste ano, no Programa de Escolas Associadas (PEA) da Unesco. Fundado em 1953, o PEA busca formar uma comunidade internacional de escolas que trabalhem pela ideia da cultura da paz, com iniciativas alinhadas aos temas defendidos pela agência da ONU.

No caso da Infante Dom Henrique, o processo foi facilitado por haver uma aproximação grande entre o que a escola trabalha e os eixos da Unesco. A aceitação na rede veio em seis meses – em geral, o processo pode levar de um ano e meio a três anos.

“Participar do programa agregou, na verdade, por passarmos a fazer parte de um trabalho bem maior”, conta Neto, diretor da escola desde 2011 e um dos articuladores do novo projeto pedagógico. “Mas não mudou nada na rotina da escola. Os projetos com os quais trabalhamos já existiam antes”, afirma.

Acolhimento e respeito às diferenças

Um dos projetos da instituição é voltado ao acolhimento de imigrantes. Chamado de ‘Escola apropriada’, busca promover a integração entre alunos estrangeiros e brasileiros. Hoje, de acordo com Cláudio Neto, 20% dos alunos da instituição são estrangeiros ou descendentes.

Entre os muitos braços do projeto, há o oferecimento de aulas de português e cultura brasileira para estrangeiros e refugiados. Toda a comunidade pode participar. “Também fazemos um grupo de trabalho com os alunos a cada 15 dias, com oficinas sobre empatia, reconhecimento do outro, trabalhamos questão dos direitos humanos e fazemos passeios”, explica o diretor.

No ano passado, a escola conseguiu organizar uma expedição à Bolívia. Participaram 16 pessoas, entre alunos e professores. A viagem durou uma semana e houve apoio da Secretaria de Relações Internacionais de São Paulo e de La Paz.

O respeito ao outro também guiou um projeto na Escola Estadual Dª Idalina Macedo Costa Sodré, de São Caetano do Sul (SP), que faz parte do PEA-Unesco desde 2015. Chamado de “O outro sou eu”, ele foi realizado ao longo de 2017, de maneira interdisciplinar.

Em geografia, por exemplo, os alunos do ensino médio produziram uma peça de teatro. “Os alunos escolheram a temática que queriam abordar, como situações de bullying e discriminação”, conta Andreia Lozano, diretora da escola. “Com o teatro, eles puderam se colocar no lugar do outro e propor caminhos de soluções viáveis para trazer a paz.” Além disso, os estudantes também fizeram visitas a asilos e orfanatos.

Alunos da Escola Estadual Dª Idalina Macedo Costa Sodré, de São Caetano do Sul (SP), que faz parte do PEA-Unesco desde 2015, fizeram peças de teatro para trabalhar o respeito ao outro. (Foto: Arquivo/Escola Estadual Dª Idalina Macedo Costa Sodré)

Alunos da Escola Estadual Dª Idalina Macedo Costa Sodré, de São Caetano do Sul (SP), que faz parte do PEA-Unesco desde 2015, fizeram peças de teatro para trabalhar o respeito ao outro. (Foto: Arquivo/Escola Estadual Dª Idalina Macedo Costa Sodré)

Sustentabilidade

Como o ano de 2017 foi proclamado pela ONU como o Ano Internacional do Turismo Sustentável, as escolas que integram a rede da Unesco também foram estimuladas a desenvolver projetos com esse tema.

Na EME Prof.ª Alcina Dantas Feijão, também de São Caetano do Sul (SP), o turismo sustentável foi escolhido como tema central da Gincana Solidária, projeto do qual participam alunos do ensino médio. A escola faz parte do PEA há cerca de 20 anos.

Os alunos desenvolveram, ao longo do ano, tarefas ligadas ao voluntariado e à sustentabilidade – como campanhas de doação de sangue e de arrecadação de óleo – , que valiam pontos. A competição acabou neste último bimestre, com a gincana de encerramento, que incorporou o tema do turismo sustentável.

Turismo sustentável foi o tema da Gincana Solidária da EME Prof.ª Alcina Dantas Feijão, de São Caetano do Sul (SP) (Foto: Arquivo/EME Prof.ª Alcina Dantas Feijão)

Turismo sustentável foi o tema da Gincana Solidária da EME Prof.ª Alcina Dantas Feijão, de São Caetano do Sul (SP) (Foto: Arquivo/EME Prof.ª Alcina Dantas Feijão)

“Os alunos foram divididos em equipes, e cada equipe recebeu uma região do Brasil”, conta Maiberte Brogliato, diretora da escola. Na gincana, cada equipe criou apresentações sobre cada região e os problemas ambientais vividos em cada uma delas, ‘simulando’ uma visita ao local. “Os alunos também desenvolvem tarefas de habilidades de aprendizagem num quiz, que é uma atividade que chamamos de ‘quem sabe sabe’.”

Na Escola Infante Dom Henrique, para explorar o tema geral da ONU, os alunos fizeram visitas guiadas a locais próximos à instituição. O roteiro incluiu o Parque Ecológico do Tietê, a Cidade Universitária (campus da Universidade de São Paulo) e o distrito de Paranapiacaba, em Santo André (SP). “Os alunos vão para ver de perto o que ambiente tem a ver com história. Além da conscientização da mudança de hábito para se ter vida saudável, preservando natureza e considerando fator humano”, explica o diretor Cláudio Neto.

Participação

No Brasil, as escolas públicas ainda são minoria no Programa de Escolas Associadas (PEA) da Unesco: representam 32,9% das 364 que compõem a rede no país.

Para Cláudio Neto, diretor da Infante Dom Henrique, além de atrair mais instituições públicas para a rede, é necessário dar a elas mais representação nas coordenadorias e condições objetivas de participação.

“Queríamos apresentar nossos projetos no encontro nacional deste ano, mas não temos acesso à programação e isso foi negado”, diz, com relação ao encontro de escolas da rede, realizado em setembro, em Foz do Iguaçu (PR).

De acordo com o educador, as apresentações realizadas no evento foram feitas principalmente por escolas da rede privada.  “O encontro nacional deveria ser feito com mais transparência. Abrir período de inscrição, mesmo com comissão julgadora”, diz.

Myriam Tricate, coordenadora nacional do PEA-Unesco, refuta a crítica e afirma que o programa vem buscando atrair mais instituições públicas nos últimos anos, bem como dar condições para que participem do encontro nacional. No evento deste ano, 53 escolas públicas receberam a certificação, contra 24 particulares. O programa também criou uma coordenadoria específica para as escolas públicas.

Quanto à programação do evento, Tricate afirma que qualquer escola pode enviar sugestões, e que tudo é feito com transparência. “O Encontro Nacional é planejado pela Coordenação Nacional, conforme os objetivos definidos, em diálogo com os coordenadores regionais e com muitas escolas que nos procuram e com quem conversamos. Pedimos sugestões de temas, palestrantes, ouvimos sugestões, críticas”, diz.

Devido à agenda restrita a dois dias, Tricate diz que são priorizados trabalhos em consonância com as ênfases estabelecidas para o evento. Neste ano, foram priorizadas experiências ligadas às mudanças climáticas e à diversidade. Na seção “Vivências e Experiências”, dedicada à apresentação de trabalhos, participaram três escolas públicas. As instituições que não conseguem horário na grade também podem ter seus trabalhos publicados em revistas do programa.

*A matéria foi republicada no dia 23 de novembro para acrescentar resposta da coordenação do PEA-Unesco

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