Escolas enfrentam dilemas do ensino inclusivo

Aprimoramento da infraestrutura, aumento dos recursos financeiros e necessidade de contratação de especialistas são desafios considerados e superados por diferentes gestores

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Sala de aula regular da Escola Aberta, em Campinas (SP), abarca atividades para alunos com e sem deficiência. Créditos: Divulgação  

A criação de uma escola pública bilíngue, bem como a garantia e manutenção de salas inclusivas e salas de recursos multifuncionais, esbarra no dilema da infraestrutura e da consequente necessidade de financiamento para a viabilidade de propostas pedagógicas inclusivas.

Na Escola Bilíngue Libras e Português Escrito de Taguatinga, na região administrativa do Distrito Federal, a direção precisou reestruturar as salas do prédio para torná-las mais adequadas à proposta de poucos alunos por turma. Além disso, há um investimento em materiais que possibilitem explorar os conteúdos visualmente com os estudantes. “Usamos data show nas aulas. Vamos comprando os aparelhos e fazendo as adaptações na medida do possível. A verba pública é um pouco maior para a manutenção da escola de proposta bilíngue, mas também realizamos eventos dentro da instituição para arrecadar mais verbas, como festas culturais e a festsurdo, que teve sua primeira edição aqui em outubro de 2015”, conta a diretora Maristela Batista Bento.

Marta Ghirello, diretora da Escola Aberta, em Capinas (SP), afirma que durante os 20 anos de existência da instituição nunca precisou fazer mudanças estruturais significativas para garantir a inclusão em todos os ambientes, até mesmo nas salas de aula, onde alunos com e sem deficiência dividem os mesmos objetos. “Vamos adaptando as coisas dependendo da necessidade de cada um. Uma vez, colocamos um computador em sala especialmente para um aluno que não tinha movimentação motora para escrever à mão, mas que conseguia teclar no computador. Assim, ele treinava a escrita, fazia os registros e as produções de texto”, diz.

Segundo a gestora, a locomoção de alunos com deficiências físicas pela escola é feita, quando necessário, a partir da cooperação dos demais estudantes e de todos os funcionários, os professores entre eles. “Modifiquei poucas coisas estruturais em função dos alunos que foram chegando. Agora, será a primeira vez que terei de fazer isso de fato, construindo uma rampa de acessibilidade, porque estamos em uma nova instalação”.

Na escola Escola Municipal Alzira Valladares, em Cuiabá (MT), as mudanças estruturais também são feitas conforme a necessidade e oferta de recursos pela secretaria municipal de educação. Recentemente, a gestão solicitou a liberação de verba para a construção de uma quadra esportiva coberta. “Faz uns dez dias que fizemos esse pedido. Estamos aguardando a resposta. Geralmente, somos atendidos com relação a muitas de nossas necessidades, mas outras ainda precisam vir, a quadra é uma delas. Atualmente, as atividades esportivas de todos os alunos são feitas em um pátio”, conta a diretora Fátima Pedrosa.

Cuidado
A escola de Cuiabá também costuma solicitar à secretaria um tipo de recurso mais específico, o humano. Todos os 20 alunos com necessidades especiais na instituição são acompanhados por cuidadores contratados pelo município. O trâmite para que os profissionais especializados auxiliem os estudantes dentro e fora das salas de aula não é simples e exige empenho das famílias.

O primeiro passo é fazer a matrícula do aluno na escola. Depois, é necessário entregar à instituição um laudo médico que justifique a necessidade de a criança ser acompanhada por um especialista devido à deficiência. O documento é encaminhado à secretaria, que envia à escola uma equipe da educação especial, integrada por um psicólogo e um fonoaudiólogo. Esses profissionais acompanham o aluno de inclusão durante um dia na instituição. Na ocasião, os pais também são entrevistados. A partir disso, é definida a liberação ou não do cuidador para o estudante.

A diretora Fátima afirma que todos alunos de inclusão da instituição realmente precisam de cuidador, “porque não dão conta de fazer atividades básicas sozinhos”. “Muitas crianças usam fraudas, vão ao banheiro e não conseguem se limpar. Temos alunos autistas, deficientes físicos, cegos, e com deficiência intelectual. Os cuidadores ficam ao lado dessas crianças”, argumenta.

Marieth Lemes de Figueiredo, docente da instituição, relata que tem uma relação tranquila com os cuidadores em sala. Para ela, esses profissionais “também são auxiliares dos professores para a inclusão”. Todos os dias, antes do início das aulas, a docente passa para o cuidador a atividade que irá realizar com a turma. Enquanto ela explica o conteúdo para a classe, o cuidador introduz o tema para o aluno com necessidades especiais. “Quando termino de explicar o conteúdo para a turma, sento ao lado do estudante de inclusão para passar a atividade adaptada”. Segundo a professora, ela fica, no mínimo, 15 minutos ao lado desse aluno explicando o conteúdo de forma direcionada. “A sala é lotada. Não dá para ficar muito tempo só com o aluno de inclusão. Tudo depende da atividade que é preparada. Mas durante toda aula a gente está ali, está junto, perto do cuidador, orientando”, completa.

Marta Avancini, repórter-colaboradora da revista Educação, é mãe de Zoë, que tem Síndrome de Down e estuda em uma turma do 3º ano na Escola Aberta, em Campinas. Desde que decidiu colocar a menina em um colégio, quando Zoë tinha 5 anos de idade, a jornalista optou por não recorrer a um cuidador. “Muitas escolas privadas põem lá o acompanhante e cobram mais por isso. Assim, dizem que estão fazendo a inclusão, mas muitas vezes, a professora se exime de responsabilidades, porque tem um acompanhante em sala. Dá até medo de falar isto, mas, nesses casos e com o novo Estatuto da Pessoa com Deficiência, podemos correr o risco de reproduzir a exclusão dentro da inclusão”, avalia.

No caso de Zoë, a alternativa encontrada foi travar uma relação muito próxima entre a família e a escola. Sempre que possível e necessário, Marta encaminha para a professora da filha – Thaís Valério, mencionada no início da reportagem “Quem atende a inclusão”, publicada na edição 228 (abril) da revista Educação – um relato por escrito em um caderno sobre como foi o desempenho de Zoë enquanto fazia as lições de casa.

Thaís garante que a comunicação natural com a mãe tem efeitos práticos e aprimoram o seu trabalho na sala de aula: “Com o feedback sobre as dificuldades e facilidades que a Zoë teve na lição de casa, guio as adaptações que faço nas atividades em sala. Mas nunca mando para casa uma lição que acho que a criança não conseguirá fazer “, conta. Questionada sobre a ausência de cuidadores na escola, Thaís diz que ela mesma é a cuidadora de seus alunos com e sem deficiência. “Na nossa classe, se qualquer um precisa de ajuda todos se ajudam, inclusive eu”, completa.

Para a mãe de Zoë, a questão dos cuidadores e a própria criação da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/15) precisa ser acompanhada por uma “necessária mudança de cultura com relação aos deficientes”. “Se essa lei não vier acompanhada de ações para mudar a mentalidade de professores e que façam as escolas entenderem que incluir a criança deficiente não é só colocá-la na sala de aula como um ‘poste’, não vai adiantar. Além disso, como vamos de fato incluir uma criança com necessidades especiais se as escolas ainda ficam rigidamente em cima dos conteúdos de apostilas que estabelecem que há um patamar de conhecimento ao qual o aluno tem de chegar em determinado tempo?”, questiona Marta.

 

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