Escolas e projetos buscam trabalhar a educação socioambiental de forma holística

Iniciativas vão além de práticas compartimentadas como reciclagem e hortas para formar cidadãos engajados com o ambiente ao redor

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© Gustavo Morita
Projeto do Instituto 5 Elementos: cultivo de hortas para resgatar o contato das crianças com a terra

Como ensinar a uma criança que ela é parte integrante e responsável pelo meio em que vive? Que ferramentas utilizar para explicar que educação ambiental é também educação social? Que trilha seguir para formar cidadãos engajados com o mundo ao redor?

Entre os maiores desafios da escola hoje, o da educação socioambiental tem se mostrado complexo e urgente. Diante de diagnósticos arrasadores em relação ao futuro do planeta, a escola passa a ter um papel cada vez mais importante na formação de seres comprometidos com a tarefa de organizar a sociedade sob novos moldes. De aulas compartimentadas e isoladas da interação curricular com outras disciplinas, como práticas de reciclagem, a educação socioambiental vem sendo pensada de maneira holística, buscando difundir a ideia de que homem e meio ambiente são parte de um mesmo todo.

Experiências externas incorporadas por escolas e outras desenvolvidas dentro delas vêm trabalhando o vínculo das crianças com a natureza, muitas vezes esquecido nos centros urbanos. Em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, o Programa de Educação Socioambiental do Ecofuturo capacita educadores para desenvolverem estratégias de aprendizagem tanto no ambiente escolar quanto no Parque das Neblinas, área de mais de 6 mil hectares de Mata Atlântica declarada patrimônio da humanidade pela Unesco. As atividades começam com os educadores se reunindo no parque para traçar planos sobre como trabalhar a floresta enquanto espaço educativo, de preferência em sinergia com o currículo escolar.

Na sequência, ocorre uma vivência de seis a sete horas no Parque das Neblinas, em que os professores estimulam reflexões socioambientais e criam situações para que as crianças aprofundem o contato com a natureza. Isso é feito por meio de atividades como a apresentação dos elementos nativos da Mata Atlântica, como o fruto da palmeira juçara ou o cambuci, com o qual fazem bolo ou suco. O programa se encerra em sala de aula, com o desenvolvimento de projetos relacionados. “Estamos falando de relações transformadoras, de um público que passa a cuidar depois de conhecer”, explica Michele Martins, analista de projetos da Ecofuturo, que gerencia o Parque das Neblinas. “É uma questão de pertencimento quando começam a pensar ”esse é meu ambiente, e como cuido dele agora?””.

A educadora Debora Cardoso Ferraz, da Escola Municipal Professor Sérgio Hugo Pinheiro, em Mogi das Cruzes, conta que seus alunos de 5 anos escolheram trabalhar temas como pássaros ou animais e apresentaram mudanças de comportamento importantes após a experiência no parque. Muitos passaram a se preocupar com o desperdício de água, com a reciclagem do lixo e até com o aprisionamento de animais domésticos. Também houve interesse pelo cultivo de alimentos. “Tudo o que fizemos foi marcante. Eles voltaram real-

mente encantados e isso ficará guardado como um tesouro para eles. Foi plantada uma sementinha”, acredita Debora. Segundo a professora, o impacto no modo de ver as coisas é perceptível não apenas nos alunos que vivem em zonas urbanas, mas também naqueles oriundos de zonas rurais, habituados a práticas destrutivas como incinerar o lixo ou mesmo fazer queimadas para “limpar” a área de plantio.

O projeto do Ecofuturo existe desde 2010 e, por meio de uma parceria com a prefeitura de Mogi das Cruzes, já atingiu 3,6 mil crianças, sendo 50% que nunca haviam feito uma trilha antes. Para os pequenos da educação infantil é preparado um trabalho de observação mais minucioso e direto, enquanto os maiores, de 13 anos, são estimulados a investigar e encontrar elementos novos ao redor. A expectativa para este ano é que a prefeitura de Bertioga, no litoral paulista, também incorpore o programa à sua rede pública de educação.

Contato com a terra

Na cidade de São Paulo desde 1993, o Instituto 5 Elementos mantém o projeto Dedo Verde na Escola através do qual busca criar espaços educadores nas instituições de ensino, com atividades de contato com os ambientes naturais para despertar o olhar das crianças para os ciclos da natureza.

O projeto tem parceria atualmente com a Emei Dona Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, onde encontros temáticos resultaram em um minhocário, horta pedagógica, um sistema para a captação de 5 mil litros de água de chuva, além de oficinas de alimentação saudável, onde alunos e pais aprendem sobre a importância de substituir a alimentação industrializada pela natural, assim como a necessidade de incluir a criança na hora de cozinhar para que aprendam a valorizar os nutrientes. O interessante nesse caso é o processo.

Divulgação
Parque das Neblinas Ecofuturo: exploração da Mata Atlântica

No caso das hortas, além de a manutenção ficar a cargo de grupos de alunos, que se revezam, o que se observa é uma mudança de postura das crianças a partir do contato com a terra. Se antes apresentavam receio em tocar o solo com as mãos, depois de ajudarem a misturar o adubo orgânico e semear mudas nos canteiros, alguns se mostravam surpresos e diziam que a terra era “geladinha”.

Hoje se pode dizer que a parceria foi exitosa: desde 2009 foram mais de mil alunos entre 4 e 6 anos de idade “alfabetizados ecologicamente”, sendo 350 novos a cada ano. Mas nem sempre foi assim. O começo, lembra a pedagoga e fundadora do 5 Elementos, Mônica Pilz Borba, foi um desafio. “Existiam muitas áreas verdes, mas estas nunca eram utilizadas para trabalhar temas socioambientais. Na hora do recreio, inclusive, a brincadeira era matar formigas”, relata.

A preocupação em trabalhar o hoje pensando no amanhã, tendo a educação como um fio condutor, é a base do Programa Município que Educa, do Instituto Paulo Freire, em São Paulo. A ideia aqui é trabalhar além do universo escolar para desenvolver um tipo de gestão municipal compartilhada e colaborativa, com base nos princípios freirianos de “educação como prática da liberdade”, “leitura de mundo”, “emancipação social”, “autonomia” e “sustentabilidade”.

Diferentemente dos casos anteriores, o programa não é desenvolvido em escolas, mas em “territórios”. Em 2011, por exemplo, foi feita uma parceria com o município de Osasco, que deu origem ao programa Osasco, Povo que Educa. Durante um ano trabalhou-se entre duas comunidades, no território entre as escolas municipais Emef Prof. Manoel Barbosa de Souza, no Jardim Bonança, região norte, e Emef Oscar Pennacino, no Jardim Cipava II, região sul da cidade. A metodologia teve início com um grupo de articulação local em cada uma das escolas, que passaram a se encontrar quinzenalmente. Na primeira etapa, foram identificadas as oportunidades educativas, para depois serem planejadas através de um diálogo entre a comunidade, a escola e o poder público municipal.

Coordenadora no Instituto Paulo Freire, engenheira agrônoma e autora de Educação ambiental – Crítica e a prática de projetos (Editora Paulo Freire), Sheila Ceccon lembra que não são raros os movimentos por parte das escolas para envolver a comunidade local. Mas o inverso, de a comunidade convidar a escola para ações educativas nos seus arredores, é incomum. Neste caso, entre as “ações de mobilização comunitária” do programa, houve oficinas de entalhe de madeira e a articulação entre comunidade (800 famílias), escola e prefeitura para a realização do “dia de brincar” com brincadeiras de rua no parque ecológico do bairro.

“O programa busca contribuir com o desenvolvimento local a partir da mobilização do potencial educativo das comunidades, estabelecendo vínculos mais fortes entre as escolas e os contextos dos quais fazem parte”, explica Sheila ao lembrar que a prática do educar não se restringe ao espaço escolar. “Precisamos, enquanto civilização planetária, compreender que não há dissociação entre humanidade e natureza. A mesma água que compõe mais de 70% do nosso corpo é a que corre nos rios e alimenta plantas e os outros animais. Os microelementos do solo são os que, por meio dos alimentos, nutrem nosso corpo e nos fazem ter saúde ou doença. O ar que enche nossos pulmões é o mesmo que polui as grandes cidades. O desequilíbrio ambiental não é ”externo” a nós.”

Pertencimento

Outras iniciativas também buscam utilizar a conscientização de que somos, ao mesmo tempo, vítimas e agentes das mudanças ambientais para trabalhar com os alunos. É o caso do Projeto Referencial de Educação Ambiental, que conta com recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário para estimular ações de convivência com o semiárido.

Edneida Rabelo Cavalcanti, geógrafa e consultora da iniciativa, conta que na área de atuação do projeto estudam filhos de agricultores familiares e que, a partir dessa constatação, buscou-se fortalecer o vínculo desses estudantes com o entorno. O ponto de partida foi a realização de um diagnóstico local para identificar problemas socioambientais. Apareceram, então, questões como desmatamento e queimadas, uso indiscriminado de agrotóxicos, poluição das águas e destinação inadequada dos resíduos sólidos, mapeamento que serviu de base para a construção de uma proposta-piloto de educação ambiental focada na sustentabilidade do semiárido.

“A estratégia pedagógica central foi a da formação pela prática, a partir dos contextos locais”, explica Edneida, ao lembrar que houve atividades em sala, trabalhos de campo, e envolvimento da família. Para conhecer e entender o bioma da caatinga, por exemplo, foram realizadas incursões nas proximidades da comunidade para reconhecimento da diversidade de plantas. Os alunos coletaram e etiquetaram algumas espécies. Nesse processo de apreensão do meio, os estudantes também foram estimulados a usar outros órgãos do sentido, como a audição e o olfato, para captar informações. Outra ação foi elaborar uma lista com nomes de animais conhecidos da região, dinâmica feita com alunos de 6 a 18 anos da Escola Municipal do Assentamento Queimada Nova, município de Sertânia.

© iStockphoto
Serra do Mulato, em Juazeiro (BA): estudo da caatinga para conscientizar os alunos de escolas rurais

A exploração da caatinga ainda envolveu a identificação de flores existentes no bioma para a futura construção de um jardim na escola, além de práticas de reconhecimento da degradação do meio ambiente com o propósito de encontrar alternativas para o seu uso sustentável. Somando todas as escolas participantes, foram envolvidos diretamente 25 professores e 487 estudantes, em nove comunidades rurais dentro de sete municípios. O impacto total, no entanto, é bem maior se consideradas as famílias que estão por trás de cada aluno.

“Certa vez, uma professora me falou: ”Se eu conseguir que os meninos se encantem e entendam o riachinho que se forma depois de uma chuva atrás da escola, fica mais fácil de eles se interessarem pelo rio São Francisco – para onde esse riachinho vai – e também pelo Oceano Atlântico, onde o Velho Chico termina sua viagem””, conta a também pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco e vice-presidente da Associação Águas do Nordeste. “Existe um grande desafio nessa crise civilizatória em que vivemos, na qual os valores e respostas econômicas ainda são colocadas em contraposição à sustentabilidade socioecológica.”

Participação ativa

A busca por entender as dinâmicas que nos rodeiam in loco é também um dos pressupostos metodológicos utilizados em Belém do Pará pela Fundação Centro de Referência em Educação Ambiental Escola Bosque Professor Eidorfe Moreira (Funbosque), situada na ilha de Caratateua (Outeiro), a 35 km do centro da capital paraense. O currículo da escola municipal, que existe desde 1996 em uma área de floresta tropical de 120 mil m2, é montado segundo uma perspectiva que busca valorizar o saber cotidiano dos alunos, suas experiências e a realidade local para criar uma consciência ambiental crítica.

A Funbosque trabalha com pesquisa, extensão e ensino, atendendo 1,7 mil alunos que vivem na região insular de Belém, em turmas de educação infantil, ensino fundamental, supletivo e também ensino profissionalizante. A finalidade da escola, explica a coordenadora Roberta Hague, é fomentar a educação ambiental em caráter formal e não formal, através de um trabalho desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e que envolve seis unidades pedagógicas nas ilhas de Cotijuba, Jutuba, Paquetá e também Caratateua, ligadas ao município de Belém. A escola mantém cerca de 2 mil alunos por ano, entre 4 e 44 anos de idade.

“Trabalhamos com a consciência ambiental desde a educação infantil. O nosso ensino médio, inclusive, é integrado e integral, do qual os alunos saem formados em técnicos em meio ambiente, tendo de apresentar estudos de casos que beneficiarão suas próprias comunidades”, diz Roberta. “O grande desafio da escola na sociedade atual é responder às demandas da sociedade global sobre os problemas do planeta, como a crise ambiental. A escola é chamada a contribuir na formação de indivíduos que possam intervir nessa realidade”, completa.

Com base nisso, hoje o próprio Ministério da Educação busca incorporar o conceito de que a educação ambiental também se constrói com a participação ativa de crianças e jovens. Um bom exemplo é a Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente (CNIJMA), que já teve edições em 2003, 2006, 2009 e 2013, quando envolveu 16,5 mil escolas em todo o país.

A conferência, que é a única a trabalhar diretamente com o público infantojuvenil, tem cinco etapas: escolar, municipal, esta­dual, regional e nacional. Primeiro, há uma seleção dos melhores projetos dentro da própria escola. Depois, elegem-se os melhores da cidade, do estado e da região. Os selecionados, por fim, seguem para o encontro nacional, que reúne jovens de 11 a 14 anos. Nessa fase chegam cerca de 120 projetos, dos quais os mais completos são escolhidos pela Secretaria de Educação e apresentados ao governo federal. A conferência serve tanto para propor rumos para programas a serem desenvolvidos pelo MEC (como a construção de hortas comunitárias ou a instalação de painéis solares nas escolas), quanto para indicar quais tipos de iniciativas merecem recursos de políticas públicas, como o Programa Dinheiro Direto para a Escola (PDDE), que trabalha desde o aprimoramento da educação no campo a reformas de infraestrutura.

Cristiano Cezar de Oliveira Passos, coordenador-geral de educação ambiental da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do MEC, ressalta que a escola deve contribuir para a formação de cidadãos cientes de que a questão da sustentabilidade também passa por eles. Assim, além de trabalhar alimentação, mudanças climáticas e resíduos sólidos, a instituição de ensino tem um papel importante ao abordar o assunto de maneira ampla, ao dialogar com temas correlatos como pobreza, segurança alimentar, manejo sustentável da água, desigualdade entre países ou mesmo igualdade de gênero. “Todos esses temas mantêm um diálogo direto que a educação ambiental sempre buscou dentro do currículo escolar”, lembra. “A ideia é haver um debate mais transversal e não apenas pontual, ao abordar um assunto por ano. Discutir de maneira transversal é poder propor um desenvolvimento sustentável. E o momento agora é o de se debater esse conjunto dentro das escolas.”

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