Escola sem sentido

Não podemos permitir que nossa escola fique à deriva, como um pedaço de qualquer coisa flutuando num mar de incertezas

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Já vi escola sem merenda, sem cadeiras e sem limpeza. Já vi escola sem segurança e sem verba. Já vi escola sem condições materiais e sem o apoio daqueles que deveriam, por lei, cuidar da escola. Mas há algo ainda pior do que todas essas carências. O pior é quando a escola carece de sentido.

Precisamos de uma escola que faça sentido. Uma escola que entusiasme professores e alunos. Uma escola sem sentido produz apenas tristeza e desânimo. Não podemos permitir que nossa escola fique à deriva, como um pedaço de qualquer coisa flutuando num mar de incertezas. É necessário pensar a escola como um lugar em que o conhecimento e a alegria se encontrem.

Podemos construir uma escola com sentido, se soubermos fazer as devidas articulações entre liberdade e atividades, entre reuniões e união, e entre leitura e futuros.

Liberdade e atividades
No livro Discurso da servidão voluntária, publicado no século XVI, o escritor francês Étienne de La Boétie perguntava a si mesmo por que as pessoas aceitam ser escravizadas. Por que aceitamos a tirania? Por que tão poucos conseguem oprimir milhares, milhões de pessoas, cidades, países inteiros? A servidão voluntária, refletia o autor, parece inexplicável, porque todos nós, em princípio, somos livres e ansiamos por mais liberdade.
É que o amor à liberdade requer uma consciência clara a respeito de nossa própria dignidade. Os tiranos aproveitam-se de nossos medos e inseguranças. Aliás, os tiranos cultivam esses medos em nós, alimentam nossos fantasmas. O medo é um professor cruel. Ele nos ensina a aceitar o inaceitável. Até mesmo a colaborar com nossos tiranos!

Para dar sentido à escola é essencial recuperar o sentido da liberdade. Liberdade consiste em agir de acordo com projetos. Quem define projetos também define responsabilidades. La Boétie insistia em que devemos lutar pela liberdade com paixão e assumir nossa própria vida, com tudo o que isso implica. Em lugar da servidão voluntária, precisamos fortalecer nossa vontade de conceber e concretizar nossas atividades.

As atividades de uma escola são pensadas e amadurecidas em boas reuniões. Um simpósio de estudos, um evento artístico, um campeonato esportivo, uma ação social e outras iniciativas nascem do diálogo entre pes­soas envolvidas e interessadas em realizar o melhor.

Reuniões e união
Boas reuniões têm hora para começar e acabar. São animadas pela intenção de unir e convergir. Um aprendizado importantíssimo na escola: estabelecer um diálogo respeitoso e produtivo entre todos. Diretores e professores dão sentido às reuniões, ajudando os participantes a apresentarem e discutirem ideias. Projetos, ideias e opiniões oferecem a pauta.

Uma escola sem sentido é, afinal, uma escola sem união. Sem conversas que valorizem o pensar, o falar e o ouvir. Todos devemos ser ouvidos. E aqui estou me referindo aos dois sentidos dessa expressão “ser ouvido”. Ser ouvido é falar e ser ouvido. E ser ouvido é, por outro lado, praticar o sentido da audição. Eu falo para ser ouvido e sou todo ouvidos para ouvir o que os outros falam.

Diálogo não pode se tornar “duélogo”, um duelo sem sentido. Reuniões geram união, na medida em que exista o propósito de colaboração em nome de um ideal. Ideais são reais: o ideal da cidadania, o ideal da tolerância, o ideal da humanização.

Daí a importância da leitura para criarmos futuros.

Leitura e futuros
A leitura é sempre obrigatória, quando nos ensina a ter ideias para gerar ideais. As ideias vêm do nosso passado. Os ideais projetam nossos futuros.

Há leituras que podem nos fazer descobrir o sentido da vida. Leituras que nos põem em contato com um ideal de sociedade mais justa e mais humana. Leituras que nos ajudam a entender como funcionam as ditaduras e outras loucuras. Leituras e livros que nos tornem livres.

Uma escola sem leitura é uma escola sem sentido. Entre as muitas leituras possíveis, recomendo sempre a leitura de poe­sia. A poesia dá sentido à prosa da vida. O prosaico ganha força e beleza quando é tocado pela visão poética.
O poeta carioca Chacal acaba de publicar sua poesia reunida (de 1971 a 2016). Nesse livro, Tudo (e mais um pouco), há um poema intitulado “Onde o sentido”:

onde o sentido está contido?
contigo? comigo?
onde andará o sentido?
sentado à beira do abismo?
abismado com tanto cinismo?
onde andará o sentido?
sentado no cais a ver navios?
no meio do mar à deriva?
onde o sentido se esquiva?

São dez perguntas sobre o lugar do sentido. A perplexidade do poeta se desdobra na busca do sentido. Por onde andará o sentido? É uma pergunta sobre o futuro e, de certo modo, sobre a educação. O abismo e o mar são a imensidão do mundo. Por que o sentido foge de nós?

A palavra “cinismo” resume tudo aquilo que nega sentido à escola. A atitude cínica quer uma escola sem sentido e sem leitura. Pensando bem, a única coisa que realmente interessa ao cinismo é perpetuar a servidão voluntária.

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