Escola de campo

Ainda vistos como locais de lazer, acampamentos ensinam liderança, solidariedade, respeito e tolerância a crianças e adolescentes

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Vanessa Nakasato










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 Programação intensa no acampamento Pumas: são raros os casos de

quem faz a viagem uma única vez


Resultado de pais que encontram no campo a solução para viajar ou tirar uma folga dos filhos? Não necessariamente. Ao contrário do que muitos pensam, acampamentos não servem apenas como “desova” de crianças e adolescentes. Mais do que ambientes de lazer, eles têm forte cunho pedagógico: além de ajudar no desenvolvimento de autonomia, trabalham disciplina, responsabilidade, partilha e espírito de equipe.



Atentas a isso, muitas escolas programam acampamentos pelo menos uma vez ao ano. É o caso do Colégio São Paschoall, de Uberlândia (MG). Há cinco anos, cerca de 150 alunos entre 11 e 16 anos passam cinco dias fora de casa. A viagem é feita durante o período letivo. Para Luciano Aguiar, diretor administrativo do São Paschoall, essa pequena temporada possibilita um crescimento “no modo de ser”. Atividades esportivas — como canoagem,
rafting

e hipismo — auxiliam a criança a vencer seus próprios limites, e a encorajam a ser ousada e enfrentar melhor os desafios da vida.



“No acampamento, o jovem passa a interiorizar que nem tudo o que apetece é bom, nem todas os desejos são justos e nem todos os impulsos e atitudes são sinônimos de liberdade”, afirma Aguiar. Hoje, os acampamentos mantêm profissionais especializados para lidar com crianças e adolescentes. Para cuidar da alimentação, nutricionistas e um time de cozinheiras. Na hora de criar e programar atividades, psicólogos, pedagogos, biólogos e professores de educação física. Em caso de emergência, sempre há um médico de plantão. Todos os monitores passam por treinamento.










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Embora muitos acampamentos tenham modernizado sua infra-estrutura, ainda são poucos os que oferecem televisão e computadores, ou que permitem utilizá-los com freqüência. O uso do celular também não é recomendado — em alguns lugares, só com autorização dos coordenadores. O tempo de acesso à internet, e só para ler e enviar e-mails, é limitado. Manter certa simplicidade tem o intuito de trabalhar pontos que, muitas vezes, passam despercebidos na correria do dia-a-dia ou por causa do estilo de vida de cada um. Cooperação, independência, obediência, paciência e amizade são alguns deles.



Tirar seus alunos do conforto e da mordomia para mostrar a vida por outro prisma é o objetivo da diretora Maria Cândida Muzzio, do Colégio Miró, de Salvador (BA). Há 14 anos, ela leva seus alunos de 4ª série para passar uma semana em um acampamento no Estado de São Paulo, pois na Bahia não há opções. A despedida do primário é o pretexto para que as crianças, de classe média alta, tenham a experiência de viver em local rústico e dividir o quarto com mais 30 colegas. “É um espaço em que os alunos têm de conviver e compartilhar tudo durante algum tempo. No cotidiano deles não é assim. Cada um tem suas coisas. É um exercício de companheirismo, respeito e tolerância”, diz Maria Cândida, que costumava ir ao interior paulista acampar na adolescência.



Mesmo sem brinquedos de controle remoto ou jogos eletrônicos, as crianças se divertem. Tudo é festa: almoçar, tomar banho, arrumar a cama, até escovar os dentes. O coletivo torna-se algo prazeroso e as amizades se fortalecem. Em um ambiente afastado, sem pai nem mãe para recorrer, os jovens aprendem a dar valor ao outro, a cuidar de si e do colega, e a dar importância para o ser, e não ao ter. 







O acampamento já faz parte da cultura do Colégio Miró. As crianças de 1ª série iniciam as aulas contando os meses para chegar à 4ª. O fato de viajarem para tão longe, e só com seus professores, lhes proporciona sensação de amadurecimento. É como se já fossem “adultos” se virando “sem ninguém”. Os pais apóiam a iniciativa. “Eles vêem como uma possibilidade de aprendizado único. Até por comentários de outras famílias, sabem dos valores que a viagem agrega e de seus reflexos posteriores”, destaca Maria Cândida.



Os reflexos são claros para a psicóloga Daniela Bonifácio. Ela incentiva os filhos Bruno, 11 anos, e Rafael, 9, a acampar desde os seis anos. A primeira viagem foi feita com a escola. Após a 1ª série do ensino fundamental, as crianças passaram a viajar em companhia de amigos de pré II com quem aprenderam a acampar e estabeleceram laços. “Todos os anos meus filhos combinam com os amigos, que hoje estão em outros colégios, de se encontrar no acampamento. Durante o ano letivo não se vêem muito. Quando se encontram, parece que nunca se separaram. É uma relação de irmãos”, afirma Daniela.







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Ela diz perceber diferenças em pequenos detalhes do dia-a-dia. As crianças costumam retornar mais maduras e obedientes. Dialogam e escutam mais, e ajudam nas tarefas de casa, como arrumar o quarto e tirar a mesa. Para Daniela, a viagem não só ajuda na formação dos meninos, como testa a qualidade da educação que ela transmite ao longo do ano. O acampamento não faz milagre; é apenas a extensão do que os pais oferecem em casa. “Meus filhos sempre reclamam quando peço ajuda para algo, ou mando escovar os dentes. Lá fora, eles fazem tudo direitinho, como ensinei. Quando acaba o acampamento, só recebo elogios de ambos. É gratificante”, orgulha-se Daniela.







Os acampamentos trabalham com crianças de diversas idades. A Fazenda Maristela é uma das únicas a receber crianças com menos de sete anos. Há estrutura e atividades para pequenos a partir dos quatro anos. Se antes as brincadeiras e a linguagem eram as mesmas para todos, existe hoje diferenciação conforme a faixa etária. Apesar do convívio, tudo é segmentado e trabalhado de acordo com as necessidades de cada grupo. Os mais novos têm noções de boas maneiras, aprendem a limpar a boca com guardanapo, amarrar o tênis e a andar de bicicleta sem rodinhas.



Na Fazenda Maristela, elas ainda aprendem a importância de escovar os dentes antes de tomar o café da manhã e a arrumar a cama, a organizar suas coisas, a se vestir (combinar a camiseta com a calça, e colocar roupa adequada ao clima) e a tomar cuidados na hora do banho. Os mais velhos, que fazem trilha no meio da mata, precisam lavar meias e tênis. Ninguém reclama, ao contrário. A diversão é tanta que se oferecem para lavar também as bicicletas usadas na mata, tarefa não designada a eles. “Quando falo para saírem da lavanderia é uma briga. Se eu pedir para lavarem o tênis com barro cinco vezes ao dia, eles vão lavar, todos felizes e contentes”, garante Cristiana Nelson Giardino, coordenadora do acampamento há 23 anos.



O segredo para tamanha obediência? “Alegria e jeito de falar”, explica Cristiana. O psicólogo Izidoro de Campos Luiz, proprietário do Acampamento Pumas, endossa o coro. Em 46 anos de existência, mais de três mil crianças passaram por lá, entre elas o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e os atores Dan Stulbach e Ingrid Guimarães. Foram raros os casos de pessoas que só acamparam uma única vez. Grande parte compareceu por mais de dois anos; ao passar da idade-limite, alguns se tornaram monitores. No Pumas, a faixa etária vai dos 5 aos 18. Por terem acampantes mais velhos, há outros tipos de regras além das habituais, como não “ficar”, não namorar, não dar “selinho”, não beber e não fumar. 



Mesmo com tantas regras, o Pumas vive cheio de adolescentes, tanto nas férias quanto no período escolar. A atração está em esclarecer o porquê das regras impostas. Depois, mostrar que é possível se divertir sem beijar ninguém por determinado tempo. “Quando os adolescentes se preocupam em paquerar e namorar, acabam perdendo o foco do acampamento. Além disso, namoro de  férias não dura mais do que três dias ou uma semana. Não queremos que um menino ‘fique’ com uma menina, ela se apaixone e, algum tempo depois, ele esteja com outra. E vice-versa”, explica Izidoro.



A medida funciona. Em quatro décadas de regras, até hoje não houve problemas relacionados a elas. A intensa programação cultural e esportiva também ajuda. Passeios a cavalo para ir num dia e voltar no outro estão entre os preferidos dos mais velhos. Quando saem para a cavalgada, sobem o Pico do Itapeva, param numa fazenda criadora de búfalos, montam suas barracas e dormem ao pé de uma cachoeira.







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Já as crianças, quando saem parar passar a noite fora do Pumas, dormem perto de um pesqueiro. Entre os seus afazeres estão pescar, limpar e preparar o peixe que comerão à noite. A fantasia e o lúdico são recursos muito explorados. Para trabalhar o medo, por exemplo, o Pumas usa a imaginação. Em uma das atividades, monitores e coordenadores contam a história de uma vovó que mora no meio da floresta e gosta de acampantes. As crianças que vão visitá-la podem achar sua casa por meio de uma trilha de doces. Ao concluir a história, as crianças são levadas para a floresta, à noite, em fila indiana, com uma caixa na mão. A missão é achar doces escondidos na trilha e entre as plantas.



Moral da dinâmica: as crianças perdem o medo do escuro, pois entram no meio da mata atrás de balas e chocolates, aprendem a controlar a ansiedade, porque se forem correndo podem pisar em bombons, e aprendem a partilhar, já que todos os doces encontrados são reunidos e divididos por igual. Para os mais velhos, as brincadeiras abordam mais raciocínio, humildade e união. “Em todas as nossas atividades, quem não aprender a respeitar as diferenças e a trabalhar em equipe, dança”, alerta Izidoro. Uma delas é a busca pelo jantar. São formados grupos que recebem um mapa e uma bússola. Há um ponto marcado, onde o churrasco é feito. Quem chega primeiro come a picanha; quem chega por último come salsicha.




Critérios para escolha


– Avaliar a proposta educacional do acampamento

– Conferir experiência e formação profissional de coordenadores e monitores

– Observar a proporção acampantes/monitor, levando em consideração a faixa etária

– Indagar sobre a alimentação: número de refeições e elaboração de cardápios

 – Informar-se sobre a presença de profissionais de saúde, facilidades de comunicação, transporte de emergência, locais de atendimento



– Checar se a programação está adequada aos objetivos a atingir com a viagem



– Certificar-se da adequação da infra-estrutura do acampamento para a realização das atividades propostas



– Procurar organizar a viagem pessoalmente para esclarecer todas as dúvidas possíveis e conhecer os responsáveis pelo acampamento



– Ter certeza de que obterá a melhor relação custo/benefício



– Ter a aprovação do acampante quanto à escolha do acampamento e estar certo de que ele está convicto de que quer enfrentar esse novo desafio



Leia mais, na versão impressa:





Com a brincadeira, educar:

a história de Dora Villares de Freitas, 74 anos,


uma das 14 moças a integrar o primeiro grupo acampante feminino do Brasil;




Informação longe dos livros:



o estudo do meio permite que o aluno aprenda a buscar a informação não apenas nos livros ou nas apostilas organizadas em unidades didáticas, mas nos contextos vivos em que está presente;




Sem medo do ridículo:

 

o
cantor e compositor Paulinho Moska se lembra das cavalgadas, da canoagem e de paixões platônicas no acampamento.



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