Erros que se repetem

Ex-presidente do IBGE alerta para a falta de políticas públicas para o país

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Nos últimos anos, o Brasil comemorou a quase totalidade de suas crianças matriculadas na educação básica. Pode não parecer pouco para um país que constantemente se envergonha de seus índices educacionais. Mas, se tal conquista representará um futuro de menos desigualdades sociais e de aumento na renda dos trabalhadores, ainda é uma incógnita.
Na opinião de Simon Schwartzman, o que vem pela frente não parece muito alvissareiro. O motivo: a falta de qualidade dessa educação. Nas últimas quatro décadas, Schwartzman escreveu, editou e organizou algumas dezenas de livros e centenas de artigos sobre os desafios da educação no Brasil em cenários de pobreza, desigualdade, trabalho infantil. Muitos deles podem ser encontrados em seu site pessoal (
www.schwartzman.org.br/simon

).

Ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ele agora preside o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, no Rio de Janeiro, que trabalha na pesquisa e desenvolvimento de propostas para políticas públicas.

Nesta entrevista, Schwartzman, que estudou sociologia, ciência política e administração pública na Universidade Federal de Minas Gerais, aponta que, apesar da provável diminuição do abismo econômico entre pobres e ricos, os próximos anos ainda mostrarão uma educação ruim em razão da falta de políticas adequadas. 


O senhor considera que a diminuição da desigualdade econômica é o melhor caminho para a melhora da educação ou o contrário?

Eu acho que você tem de ter política de educação. As duas coisas estão relacionadas; não se pode esperar diminuir a desigualdade para cuidar da educação.


Então não é possível separar a desigualdade econômica da desigualdade educacional?


Não se consegue separar muito, pois existe uma relação direta entre a condição socioeconômica da família e o desempenho da criança na escola. Você pode investir mais nas populações em situação mais difícil. Assim como melhorar o nível geral da educação. Ou seja, tem de ter política de educação, não há outra alternativa.


O senhor acredita que o aumento do acesso ao ensino superior, principalmente privado, tende a diminuir as desigualdades e aumentar a renda média do brasileiro?


O que a gente vem observando é que a desigualdade associada à educação está diminuindo, mas isso afeta os salários das pessoas com educação superior, que estão ganhando relativamente menos. A situação brasileira era extrema, no sentido de que os benefícios trazidos pela educação superior eram muito altos. Isso está diminuindo, mas não significa que esteja aumentando a renda. Quem tinha uma vantagem está perdendo, porque agora há mais gente com educação superior competindo e o mercado paga menos, pois existem mais trabalhadores que chegam com diploma.


O senhor considera também que o mercado de trabalho acaba aumentando suas demandas, uma vez que ele tem mais oferta de mão de obra qualificada?


Veja o que acontece com a educação média: o mercado de trabalho não está aceitando pessoas que não tenham o ensino médio completo. O desemprego entre os jovens que não conseguem completar o ensino médio é muito alto.


Nos últimos anos muito se fala nas conquistas da inclusão de crianças nas escolas, mas o que fazer com a enorme população adulta com baixa escolaridade ou com alguma escolaridade, porém de pouca qualidade?


É possível pensar em programas especiais, mas vai depender muito de quem você está falando. Usa-se a expressão de "educação de jovens e adultos", mas isso pode indicar coisas muito distintas. Eu acho que é perda de tempo tentar recuperar um analfabeto de 50 anos que vive na área rural; você não vai conseguir muita coisa com esse investimento. Um jovem de 18 anos que está na 6a série pode receber investimento. Ele pode passar por um treinamento mais prático, mais profissional, em vez de exigir que ele tenha um título acadêmico. As políticas têm de ser muito específicas para os diferentes setores.

De acordo com a pesquisa "Retorno da Educação no Mercado de Trabalho", coordenada pelo professor Marcelo Neri, da FGV-Rio, áreas ligadas ao ensino básico, como as licenciaturas, Letras, Pedagogia e outras, tiveram o pior desempenho em termos de remuneração entre as carreiras de graduação. O senhor acha que isso é sinal do pouco prestígio do educador no país?


São carreiras que têm pouco prestígio e muita oferta. São pessoas pouco qualificadas em cursos que costumam ser muito ruins. O mercado de trabalho também é um problema. Alguns conseguem posições como funcionários públicos nas redes estaduais e outros vão para o mercado particular, onde, normalmente, ganham mal. Então são carreiras de baixo prestígio.


O senhor escreveu que esses cursos atraem alunos de níveis de renda mais baixos que têm dificuldade para entrar nas áreas mais concorridas, ou antigos professores que voltam aos estudos, em horário noturno, em busca das credenciais que agora lhes são exigidas. Não se cria assim uma grande bolha educacional, na qual o ensino básico público será dado por pessoas com uma formação básica deficiente?


Sim, eu acho que nós temos um problema aí. Um ciclo vicioso com muita gente malqualificada na educação básica. Tenho insistido muito em quebrar essa idéia de que um professor é professor na vida toda. Eu acho que se tem de começar a usar estudantes, alunos de pós-graduação, gente que está se formando em diferentes profissões e que possa dedicar um tempo a dar aulas como uma segunda atividade ou como uma atividade temporária. É preciso oxigenar um pouco mais esse ambiente educacional para ele não ficar apenas na mão do professor profissional, sobretudo no ensino médio, no qual às vezes se tem de ensinar conteúdo técnico. Um engenheiro pode dar aulas de matemática.


E como o senhor vê o ensino técnico no Brasil, que perdeu sua força nos últimos anos?

O ensino técnico tem de ser associado muito claramente à formação profissional. Deve ter vinculação com o mercado de trabalho. Se eu, por exemplo, faço uma parceria com a indústria automobilística, eu consigo formar bons mecânicos para essa indústria. Se eu faço uma parceria com hotéis, formo boas pessoas para o setor de hotelaria. Se eu não fizer esse tipo de parceria, o ensino técnico vai acabar se perdendo, pois ele não dará uma formação técnica adequada e nem dará uma formação mais genérica. O ensino técnico depende da identificação de áreas para essas parcerias e é preciso haver interesse dos setores empresariais em participar desse processo. Não é algo que o Ministério da Educação vai fazer por conta própria.


Muitas pesquisas têm sido feitas usando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, para avaliar o impacto da educação na renda do trabalhador. O senhor acha que na próxima década teremos mudanças consideráveis quando olharmos para os resultados desta década?


Os índices de escolaridade estão aumentando e a desigualdade de renda associada à desigualdade de educação vai diminuir. O Brasil será menos anormal nesse ponto.


E a qualidade dessa educação?


Eu não vejo nesse momento nada muito claro em termos de políticas de qualidade. O governo federal não tem nada em relação a isso. Governos estaduais podem ter algum programa, mas são muito intermitentes. Muda o secretário e mudam os programas. Nós não vemos nada muito sólido no sentido de melhorar a qualidade.


Alguns estudos mostram que uma formação elementar, como a alfabetização, pode aumentar bastante a renda e as chances de ocupação do indivíduo. Contudo, há décadas vemos inúmeros programas de alfabetização não darem certo. O que acontece?


Programas de alfabetização nunca dão certo. A experiência internacional mostra que não se alfabetiza uma pessoa em um programa de três meses. Isso não existe. É um equívoco que vem do Mobral, que vem lá de trás. Os dados do Pnad mostram que esse programa de alfabetização do governo não teve nenhum impacto. No máximo, você coloca a pessoa por três meses na sala de aula, ela aprende a rabiscar o nome e depois esquece. O alfabetizado não é a pessoa que sabe assinar o nome, mas alguém que consegue ler com fluência. Isso se aprende na escola, de maneira sistemática. O drama do analfabetismo no Brasil é o problema do analfabetismo funcional, das escolas que fracassam na educação dos alunos de baixa renda. Isso é o mais grave. Não se usam os métodos de alfabetização mais modernos, mais consolidados e reconhecidos. As escolas não têm método, as pessoas não sabem como alfabetizar. Isso tudo faz com que os alunos de classe média, de classe média-alta, aprendam em casa, com o pai, de qualquer jeito, enquanto nas famílias mais pobres, menos educadas, nas quais não há o hábito da leitura em casa, os alunos se tornem analfabetos funcionais. Os índices de analfabetismo funcional dentro das escolas brasileiras são terríveis. Isso é uma tragédia nacional.


E muitos desses jovens chegam mesmo no ensino superior, principalmente privado, com sérios problemas de formação, não?


Sempre chegam. Além disso, no ensino superior privado há muito do "pagou-passou". E mesmo o ensino médio público é muito ruim. Nos cursos noturnos os alunos muitas vezes pouco aparecem, os professores não estão dispostos a reprovar todo mundo e esse ensino se torna um faz-de-conta. Os jovens que vêm de famílias pobres chegam aos 13 ou 14 anos de idade e abandonam a escola porque sentem que não aprenderam nada, que não entendem o que estão ensinando para eles. Muitas vezes apresentam um comportamento hostil, com problemas de indisciplina. É um quadro complicado em que as causas são a má formação do professor, a ausência de métodos adequados e de utilização de métodos bem consolidados.


O senhor tem feito algumas pesquisas na América Latina. Comparativamente, a desigualdade educacional brasileira está no mesmo padrão das de outros países?


Eu não sei em termos de desigualdade, mas a qualidade da educação brasileira é bastante ruim. Existem países com resultados muito melhores. O melhor da América Latina é Cuba, de longe. Cuba tem uma política de investimento grande em educação que dura muitos anos e isso tem dado resultados bastante significativos. E existem outros países com níveis educacionais muito superiores aos do Brasil, como Argentina, Chile e Uruguai.


E o México, que tem um padrão de desenvolvimento parecido com o brasileiro?


O México se parece com a gente.

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