Erik Erikson e a construção da identidade

Alemão que construiu carreira nos Estados Unidos modificou teoria freudiana sobre o desenvolvimento psicossexual

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Foto: © Shutterstock

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A questão da construção da identidade ao longo da vida, mas em especial na adolescência, que constituiria um tempo de moratória psicossocial, está no centro da obra do psicanalista germano-americano Erik Erikson (1902-1994). Nascido em Frankfurt, na Alemanha, Erikson nunca conheceu o pai biológico, que abandonou sua mãe antes de seu nascimento. De origem dinamarquesa, a mãe se casou com um pediatra alemão judeu. Erikson foi educado sem conhecer sua própria história. Esconderam-lhe principalmente que seu pai era dinamarquês e que deixara sua mãe. Quando descobriu sua verdadeira história, abandonou o sobrenome Homburger do padrasto e fabricou um sobrenome, utilizando o processo escandinavo, que consiste em acrescentar o sufixo “son” (filho) a um nome próprio. Assim, tornou-se Erik Erikson, ou seja, Erik, filho de Erik.

Em 1927, instalou-se em Viena como pintor especializado em retratos de crianças. Iniciou-se também nos métodos pedagógicos de Maria Montessori.

Sob a direção de Anna Freud, Erikson e um grupo de psicanalistas de crianças abriram uma escola frequentada por crianças em tratamento psicanalítico, cujos pais também faziam análise. Como foi muito bem-sucedido nessa expe­riência pedagógica, iniciou também sua formação psicanalítica com Anna Freud e começou a redigir seus primeiros artigos sobre pedagogia e psicanálise.

Foi pioneiro em algumas frentes: primeiro discípulo de Anna Freud e também o primeiro homem a se lançar à psicanálise de crianças, atividade até então reservada às mulheres. Dedicou-se também à adolescência, ao mudar-se para o Estado da Califórnia, na costa oeste dos Estados Unidos.

Em contato com os conflitos ligados ao comunitarismo da sociedade americana, Erikson redigiu seus trabalhos baseando-se na Ego Psychology (Psicologia do Eu). Ao desenvolver ideias próprias, renunciou a uma concepção puramente psíquica da organização da personalidade. Ligava a noção de estádio (no sentido freudiano) à de evolução biológica e social, afirmando que uma pedagogia da adolescência era necessária para superar os conflitos de gerações. Os freudianos clássicos o acusaram de minimizar o peso do psiquismo inconsciente e negligenciar as relações edipianas e pré-edipianas.

Erikson ganhou notoriedade na década de 1960, por ter atendido a John Fitzgerald Kennedy Jr. Sua mãe, Jacqueline Kennedy, queixava-se de que o menino tinha dificuldades para aprender. É famosa a interpretação de Erikson sobre o desenho que John-John fez, colocando-se embaixo da mesa de seu pai, já falecido na época. O psicanalista explicou que o menino tinha a figura do pai como algo grandioso, sempre a envolvê-lo, um fardo que John-John carregaria até a morte.

Ao longo de sua carreira, Erikson tornou-se professor na Escola de Medicina de Harvard, onde criou um grupo de pesquisas com o seu nome. Ensinou também no Massachusetts Institute of Technology. Redigiu várias psicobiografias de homens célebres como Jesus Cristo, Charles Darwin, Sigmund Freud, entre outros. Sua obra sobre Gandhi recebeu o Prêmio Pulitzer em 1970, e a que abordou a vida de Lutero foi considerada um clássico do gênero. As psicobiografias introduzem uma perspectiva analítica, com o uso de uma teoria da personalidade, sobre o sujeito biografado, conectando-o a fatores de seu contexto associados à sua trajetória.

Algumas ideias de Erikson

Identificações e crises da adolescência
Erikson modificou a teoria freudiana sobre o desenvolvimento psicossexual. De acordo com ele, inspirado nos experimentos advindos da sociopsicologia e da antropologia, a tarefa global do indivíduo seria adquirir uma identidade positiva, à medida que avança de uma etapa de desenvolvimento para a seguinte.

A comunidade influencia e dá reconhecimento aos novos indivíduos que emergem em suas sucessivas e provisórias identificações. A criança começa a construir expectativas de como gostaria de ser no futuro a partir de como se sente como criança. O processo de formação da identidade emergiria como uma configuração envolvente, gradualmente estabelecida por meio de sucessivas elaborações e reelaborações do ego na infância.

Erikson destacou que a crise de identidade era mais pronunciada na adolescência e que, durante outros períodos da vida adulta, também poderia ter lugar uma redefinição da identidade indivi­dual: quando os indivíduos abandonavam os lares, casavam-se, eram pais pela primeira vez, divorciavam-se ou mudavam de trabalho. O êxito com que enfrentavam tais mudanças de identidade estava determinado parcialmente pela capacidade para superar as crises de identidade adolescentes.

A centralidade do eu (ego)
A Ego Psychology é uma das grandes correntes da história do freudismo norte-americano. Fundamenta-se na ideia de uma possível integração do homem numa sociedade, numa “comunidade”, ou até, a partir de 1970, numa identidade sexual, numa diferença psicossocial, numa cor ou numa etnia. Acusada pelos freudianos clássicos de visar uma adaptação pragmática de qualquer sujeito à sociedade, essa corrente, no entanto, sempre foi crítica em relação ao “jeito americano de viver”.

De maneira geral, o freudismo norte-americano, em todas as suas tendências, privilegia o eu (ego), o self ou o indivíduo, em detrimento do isso (id), do inconsciente e do sujeito. Propõe uma ética pragmática do homem, fundamentada na noção de aconselhamento social ou de higiene mental. Daí a generalização de uma psicanálise medicalizada e assemelhada à psiquiatria.

Erikson destacou que a adolescência é uma crise normativa, sendo uma fase normal de conflito incrementado caracterizada por uma flutuação na força do ego. O indivíduo que a experimenta é vítima de uma consciência de identidade que seria base da autoconsciência da juventude. Durante esse tempo, o indivíduo deveria estabelecer um sentido para a identidade pessoal; a maneira como os jovens podem se explicar em função da formação de sua personalidade é chamada de estado de identidade.

Estabelecer uma identidade requereria do indivíduo um esforço para avaliar os recursos e as responsabilidades pessoais e aprender como utilizá-las para obter um conceito mais claro de quem é e do que quer ser. Mas os adolescentes que se envolvem de forma exageradamente ativa na exploração da identidade teriam mais tendência a mostrar um padrão de personalidade caracterizado por insegurança, confusão e pensamento perturbado, impulsividade, conflito com os pais e com outras figuras de autoridade e força do ego reduzida.

A adolescência como moratória psicossocial
Para Erikson, a formação da identidade não começa nem termina com a adolescência. É um processo que dura toda a vida, amplamente inconsciente para o indivíduo. Suas raízes remontam à infância com a experiência de reciprocidade entre pais e filhos. Quando as crianças delimitam seu primeiro objeto de amor, começam a encontrar a autorrealização acompanhada do reconhecimento mútuo.

No geral, a adolescência começa com a instância de identidade difusa, que segundo Erikson é um estado de coisas em que o sujeito não estabelece compromissos firmes com nenhuma atitude ideológica, ocupacional ou interpessoal, nem está vislumbrando tal possibilidade. Qualquer compromisso que possa ocorrer tende a ser efêmero e a ser substituído com rapidez por outros, igualmente provisórios.

Um aspecto interessante da teo­ria de Erikson é o conceito da adolescência como moratória psicossocial, ou melhor, como um período intermediário admitido socialmente, durante o qual o indivíduo pode encontrar uma posição na sociedade por meio da livre experimentação de funções. Depois de ter chegado ao autoconhecimento nos aspectos físicos, cognitivo, interpessoal, social e sexual, os adolescentes começam a refletir sobre os tipos de compromissos que gostariam de assumir, o que seria o estado da identidade em fase de moratória.

Erikson afirmava que a duração e a intensidade da adolescência variam nas diferentes sociedades, mas em todas elas a ideia de não ter formado a própria identidade ao final da adolescência produz um profundo sofrimento para o adolescente por causa da difusão de papéis. Tal confusão pode ser responsável pela aparição de problemas psicológicos previamente latentes.

O adolescente que fracassa na busca da identidade experimentará insegurança e poderá ficar preso a uma preocupação constante ou numa atividade autodestrutiva. Poderá ter uma tendência a preocupar-se em demasia com as opiniões de outros ou cair no polo oposto, não se importar em absoluto com o que os outros pensam. A aproximação com o uso de drogas de forma recorrente pode ser uma forma de descarregar a ansiedade que gera esta difusão de papéis.


Para saber mais

> Infância e sociedade, de Erik Erikson. Rio de Janeiro, Zahar, 1972.
> Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro, Zahar, 1972.

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