Era uma vez o paradigma

Para arte-educadora e contadora de histórias Stela Barbieri, é preciso atentar “ao que faz sentido hoje” para sensibilizar as crianças

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Artista plástica, arte-educadora, contadora de histórias, gestora cultural. A polivalência de Stela Barbieri, 40 anos, está ligada, como ela define, à sua formação diversificada – fez o curso de pedagogia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).



Como artista plástica, começou a expor na década de 90. Seu trabalho utiliza diversos materiais: látex, vidro, pigmentos, areia, cera de abelha e argila. A trajetória como arte-educadora teve início antes, aos 17 anos, na Escola do Sítio, em Campinas (SP). A contadora de histórias apresenta contos da tradição oral em espaços variados que incluem a Sala São Paulo, ao lado da Orquestra Popular de Câmara.



Na Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake, dirige projetos de pesquisas metodológicas na área de artes, vivências culturais para educadores e publicações de apoio às exposições. Nesta entrevista a
Beatriz Levischi

, Stela fala sobre o aprendizado da arte e

a magia da contação de histórias.






 





Quando começou a se envolver com arte-educação?





Aos 17 anos, eu já dava aula para os alunos de Educação Infantil na Escola do Sítio, em Campinas (SP), com colegas que foram extremamente fundamentais em minha formação, como Eveline Borges e Evelise Fernandes. Em 1987, mudei-me para São Paulo por causa do curso de história da arte para monitores da 19ª Bienal, sob orientação de Tadeu Chiarelli e de Lílian A. Toni. Durante três anos, fui professora

de artes plásticas das Oficinas Culturais Três Rios (atual Oswald de Andrade), iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, em espaços da periferia. Até 2001, trabalhei no curso de especialização para educadores do Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão em Promoção da Arte na Educação (Nace/Nupae), na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, sob a coordenação de Regina Machado e direção de Ana Mae Barbosa. Participo, há cinco anos, do programa
Escola que Vale

, no Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), realizando oficinas de artes com professores de escolas públicas, em várias regiões do país. Sou, também, consultora em arte-educação e literatura do projeto Escola no Cinema, desenvolvido pelo Espaço Unibanco de Cinema, há 11 anos; educadora

na Escola Experimental Vera Cruz, há 19 anos; e diretora de Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake, há três anos e meio. De forma resumida, posso dizer que a Escola do Sítio foi um laboratório, a Bienal expandiu meu olhar para a arte contemporânea e as formas de ensiná-la, a USP contribuiu para a construção da educadora, o Cedac garantiu uma cara de Brasil e no Vera Cruz deu-se o amadurecimento desse caminho todo.




 





Por que o interesse?





Quando eu tinha 3 anos, em Araraquara (SP), minha avó (na verdade, uma tia solteira que virou avó) possuía uma escola de artes no quintal de sua casa, onde dava aulas de pintura e tocava acordeom. Sua irmã, tia Lilita, abria o guarda-chuva e contava histórias maravilhosamente bem, incluindo as da Bíblia. Meu pai, arquiteto, adorava música; queria ter sido maestro. Essas pessoas despertaram meu interesse pela arte. A riqueza da minha infância também foi essencial. Eu tinha um mundo interno muito intenso. Chegava a ficar seis horas embalada na cadeira de balanço
.

Assistia a filmes, inventava histórias. Naquela época, terapia não era comum como hoje. A família achava meu comportamento estranho, mas respeitava. Deixavam-me comigo mesma. Hoje, eu sei que se tentassem me tirar dessa introspecção, teriam me atrapalhado muito.




 





Como a arte interfere na aprendizagem?





A maior influência que a arte pode ter para o indivíduo é na sua formação, por meio da experiência que fica impregnada nas entranhas. Vejo que há um problema no ensino da arte no Brasil: ele é escolarizado e acaba distanciando-se da sua essência. A arte contemporânea trata de assuntos que remetem a diversas outras áreas do conhecimento. Mas, para aprofundar os conteúdos, a escola classifica e especifica, empobrecendo o contato. É preciso romper as fronteiras interdisciplinares, num desafio constante, que se renova a cada dia. Deixar a arte ensinar por ela mesma. Marilena Chauí certa vez disse que um professor de natação possibilita o acesso à água, não fica entre ela e o aluno. Da mesma forma deveria agir o arte-educador, fazendo mediações que aproximem, sem criar subterfúgios.




 





Como avalia a arte-educação no Brasil hoje?





Tem muita gente fazendo coisas bacanas com relação ao ensino da arte. Diretores e coordenadores de museus de São Paulo tocando projetos belíssimos. A Fundação Joaquim Nabuco, em Pernambuco. O Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói (RJ). Há pólos importantes em várias regiões do país. O esforço, agora, deve ser no sentido de levar essas iniciativas à escola pública. No Japão, elas já desempenham essa função, por conta do valor que a população dá às tradições. Aqui, por exemplo, Pará e Maranhão têm uma potência cultural imensa, uma arte popular riquíssima, mas pouco valorizada. A escola deve possibilitar o acesso a esses vários tipos de expressão, ao que o mundo pensa no momento, a sua história. A contemporaneidade traz um campo amplo, que permite a coexistência, portanto, é essencial que os professores tenham formação e invistam em sua produção artística pessoal.




 





C
omo fazer isso?








Os caminhos são muitos. Cada instituição tem a sua função. Universidades, escolas, secretarias, governos, museus. Mas a arte ainda é vista como supérflua. Dar ferramentas para que os educadores possam expressar-se por diversas vias, portanto, faz-se fundamental. As pessoas precisam sentir-se capazes de novo em relação à arte. Colocar-se como leitoras e produtoras. Elas se sentem aquém, necessitam de pistas sobre as obras. Trata-se de uma visão reduzida, de percepção limitada. A gente estimula, cutuca, mas cada um estabelece conexões particulares. Falta abertura para a colocação individual. O currículo deve ter conteúdos essenciais ao educador e ao educando, além de viver em constante transformação. É preciso estudar como a criança aprende. Conhecer arte, saber ler, ter recursos para produzir.


Foi criando que descobri o jeito de os meninos experimentarem os materiais, de mergulharem nas possibilidades. O trabalho de artista plástica alimenta o de educadora. Na escola, interajo com o outro; no ateliê, adentro o meu universo. Gosto de lidar com materiais que não se conformam.

É necessário entender, ainda, como a arte se desenvolveu no decorrer da história. Entrar em contato com as novas linhas de pensamento da contemporaneidade. Estamos falando de algo ainda não digerido, que está acontecendo agora, de um trabalho que tira o chão e coloca para pensar. Esse é o encantamento, o cotidiano da vida. A sala de aula não apresenta lugar seguro. O tempo todo levanta questões. O que a gente não sabe está em movimento, faz evoluir, conhecer mais, nos mantém vivos.








 









diferença entre a abordagem escolar e a das organizações não-governamentais (ONGs) que desenvolvem ações socioeducativas?





Existem muitos tipos de organizações não-governamentais, não dá para generalizar. O que eu sinto é que a escola está passando por uma reforma. E as ONGs podem cooperar, já que não têm esse ranço histórico, criando situações de aprendizagem mais diversas e inusitadas. O espaço de convivência escolar pode ser extremamente rico. Eu fui uma estudante rebelde. Durante a aula, vivia pensando em outras coisas. O mais importante, para mim, eram as relações pessoais. O compromisso do professor com o aluno deve garantir compreensão (dentro da sua complexidade), por meio da escuta atenta, e desafiá-lo a dar um passo além. Por mais que nos formemos, estamos sempre incompletos. O que vivemos é incerto. E os paradigmas da educação foram por terra. As coisas são revistas o tempo todo. É preciso manter-se atento ao que está pulsando, ao que faz sentido para a criança. Caso contrário, não sensibiliza. A situação de aula é de comunicação, tudo comunica e de forma instável, como uma dança. Os alunos estão, a cada dia, de um jeito. É essencial trazer novos ritmos.






 







E a contação de histórias?







Na Escola do Sítio, eu já contava histórias. O pessoal vivia juntando as salas para me ouvir. Aí, um dia, ganhei de presente uma fita, cuja voz me encantou, mas só anos depois, numa apresentação também emocionante, descobri que se tratava da Regina Machado. Decidi, então, fazer um curso com ela e entrei em contato com outra dimensão da leitura. Histórias são verdadeiras experiências, vêm do mundo das imagens, têm sabores especiais. Eis o grande encantamento da vida. Hoje, sinto que há um ponto de encontro entre as histórias que ouço, as que conto (profissionalmente, desde 1990) e minhas obras.








 







Como a prática pode contribuir para a transformação?







Quando você ouve ou conta histórias, é como se atualizasse um conhecimento que vem caminhando por meio das gerações. Isso o faz vivo de novo. Cria
links

com aspectos da sua vida e acaba por recontar sua própria história. As histórias trazem chaves, possibilidades de olhar a realidade por outros pontos de vista, novas janelas, espaço para vivenciar papéis variados. E têm o poder de ficar morando em nós por um tempo. Há sempre um aspecto que não se revela, um mistério que me acompanha por não se desvendar totalmente. Abre-se, então, uma perspectiva muito rica.








 







Qualquer história é válida?







Não. A oferta de publicações é imensa. Mas há muitos livros lindos com histórias bobas e histórias incríveis em livros feios. Logo, é fundamental saber escolher. E, para mergulhar na obra, é necessário, de um lado, ser capturado, e de outro, entregar-se. As histórias trazem ensinamentos que, muitas vezes, não estão na primeira camada de entendimento. As melhores, inclusive, são as que apresentam várias camadas, por mais simples que sejam. Têm arte, resistem ao tempo. Você lê 20 vezes e ainda te mostram algo novo.








 







Como você escolhe as histórias?







Tenho que me apaixonar por elas. Descobrir elementos que me intriguem. Às vezes, são histórias divertidas. Outras tratam de ativar em mim uma chama. De qualquer forma, só conto as que gosto. E tenho fases. Chego a ficar um tempão na mesma história. Eu me preocupo, também, com a parte visual. Para mim, o cenário e o figurino, na hora da apresentação, são superimportantes.









 







Quais são as preferidas?







Atualmente, tenho escrito muitas. Elas andam me povoando. E quando acho que acabou, a história continua.
Os Seres do Banho de Henê

, por exemplo, é baseada nas imagens que vejo na cortina do banheiro aqui de casa e, depois, desenho num caderninho que fica lá no banheiro mesmo. Mas também gosto das histórias tradicionais brasileiras, das curtinhas com ensinamentos e do universo árabe.








 







Qualquer um pode ser contador de histórias?







Acho que todo mundo é, já que temos o costume de relatar os acontecimentos de nosso cotidiano aos outros. Mas contar histórias é uma arte e necessita de preparação. Nossos avós, por exemplo, aprendem contando, ao longo da vida. Refletem no exercício do saber. Trata-se de um processo de criação como qualquer outro. O bom contador faz com que a história venha à tona. A arte da narrativa é mais importante do que ele.




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