A era do ensino em rede

A escola e a adaptação aos modos de pensar do mundo da tecnologia

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O discurso padrão é quase tão antigo quanto a chegada dos primeiros computadores às escolas: a tecnologia deve ser apenas um meio, não um fim pedagógico. Mas como fazer bom uso desse meio continua sendo tema de debates e experiências em todo o mundo. Entre os palestrantes do Congresso da Bett Brasil Educar 2016, contudo, algumas ideias se mostraram recorrentes. Uma delas é que a tecnologia deve ser utilizada como ferramenta de cooperação, deixando o aluno no centro do processo, dando a ele voz e confiança para ser “autor do seu próprio aprendizado”. A inovação é construída no dia a dia, quando alunos e professores trabalham juntos.

Abstraindo-se os chavões discursivos, há um quase consenso de que a concepção de ensino e aprendizagem tem de ser a base do processo. “O uso de tecnologias precisa estar ligado a quem é aquele aluno, quem é a pessoa que a gente quer formar.

Desconectado de um projeto pedagógico, fica a tecnologia pela tecnologia”, diz Elizabeth Sanada, doutora em Psicologia da Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Instituto Singularidades. “O trabalho inovador é trazer o aluno para o centro da sala de aula, criar meios de ter acesso a esse aluno e trazer um aprendizado efetivo e contextualizado.”

Algumas estratégias específicas podem ajudar a provocar o estudante para que ele assuma um papel ativo, como a ênfase em aprendizagens compartilhadas. “Com trabalhos colaborativos, muda-se a posição do aluno frente aos colegas, ao professor e ao conhecimento”, sugere Elizabeth. Outra opção é o modelo chamado de “sala de aula invertida”, no qual os alunos fazem estudos prévios, seja assistindo a vídeos, analisando textos teóricos ou cases. Em sala, tornam-se responsáveis pela aula com o professor.

O fim das posições hierarquizadas em classe não exime a responsabilidade do professor: ele tem o dever de ampliar a visão e o repertório do aluno, segundo Elizabeth. “O docente passa a fazer uma curadoria de assuntos e conteúdos. Ele tem de pesquisar mais e deixar o conhecimento mais desejável. É preciso dinamismo e propor desafios”, afirmou. Essa transformação também exige do docente uma capacidade de reorganizar sua proposta a cada momento, para se adaptar ao que os alunos apresentam.

Outra modificação importante ao trabalhar com aprendizados cooperativos é aceitar o conceito de coautoria. “O aluno não precisa criar nada absolutamente novo. Isso é uma ilusão. Ele deve, sim, transformar o que está aí. O professor orienta como ele pode fazer o uso dos conteúdos conforme sua identidade”, disse. Aluno tem de ser capaz de fazer comparação, síntese e análise, sabendo como aproveitar os conteúdos que estão a um toque de dedos.

Sob essa perspectiva, quando pensa em um plano de aula, a última coisa com a qual o professor deve se preocupar é qual será a ferramenta tecnológica: se vai ser tablet, computador, celular, quais programas usar. Muitas vezes, talvez o professor nem saiba qual o melhor canal, podendo deixar-se orientar nisso pelos estudantes, defende Elizabeth. Mas, ainda assim, mantém o seu papel fundamental em classe. “O professor é um gestor de saberes. Não tem problema não conhecer os dispositivos tecnológicos, basta estar aberto a pesquisar e aprender.”

Formação docente
Especialista em gestão e professora do Singularidades, Maria Estela Lacerda Ferreira defende que o trabalho de uso da tecnologia para promover a conexão e a cooperação tem de começar pela formação docente. “A tendência é reproduzirmos o modelo que recebemos na escola. A formação do professor começa quando ele entra na educação infantil ou fundamental. Temos de trabalhar com os alunos na graduação, para que tenham consciência do que existe, para que ampliem e administrem o repertório deles”, afirma.

Estela defende que, a partir da formação, o professor recém-graduado possa fazer uma homologia do processo e trabalhar de forma semelhante em suas classes. Para aqueles que já estão há mais tempo formados, a responsabilidade de ampliar o repertório passa a ser da gestão da escola. “Não podemos colocar o dedo na cara do professor e dizer que é tudo culpa dele. Qual é a parcela de responsabilidade da gestão? Por que o coordenador pedagógico não começa a usar tecnologias no seu trabalho com os professores?”, questiona.

Fim da massificação?
Para ajudar alunos e professores na missão de promover um aprendizado autoral, muitas empresas tentam entregar produtos que facilitem a individualização dos processos escolares. Na área de exposições da Bett Brasil Educar 2016, isso pôde ser observado seja no mobiliário oferecido, com móveis projetados para facilitar a mudança na disposição espacial das carteiras, seja nos softwares para as escolas. Havia diversas opções de aplicativos para melhorar a comunicação com os pais, com os professores ou mesmo promover o chamado “ensino adaptativo”, no qual logaritmos avaliam o desempenho dos alunos e apontam quais temas e de que forma eles devem estudar para aprender melhor.

Mas na contramão da tendência, os sistemas de ensino ainda marcaram uma presença predominante na feira. “O sistema de ensino fecha, apresenta tudo pronto, o professor não pode inovar. Só dá para ser considerado se for um material de apoio, que dê liberdade para que, a partir daquilo, a classe trabalhe. O professor deve ser quem pensa, planeja e executa”, defende Estela.

Em parte, é o próprio sistema educacional brasileiro que ainda pede esse estilo de ensino. “As experiências importam mais do que o acúmulo de conteúdo. A escola deve envolver o aluno na transformação da sociedade. Mas os vestibulares não medem experiências ou envolvimento”, disse Estela.

Economista de formação, Vera Cabral, curadora do evento, explica que a sociedade está num período de transição, em que ainda é normal ver os dois modelos convivendo. “A tecnologia rompeu o processo de massa para um padrão em rede. A difusão hoje é por viralização, não mais por escala. Como estamos no meio do processo, convivemos com partes do sistema antigo, partes do novo, que ainda está se estabelecendo. Mas há caminhos, sem dúvida, para um modelo de personalização”, acredita.

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