Enxergar, refletir e intervir

Novo manual escolar ensina o consumo responsável

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Rachel Bonino






É improvável encontrar alguém no supermercado, açougue ou padaria que pergunte ao comerciante a origem e forma de produção de algum dos produtos ali expostos, interessado em saber, por exemplo, se aquele fabricante de leite em pó não poluiu o ambiente com resíduos descartados na produção. Ou se sua empresa explora mão-de-obra miserável para baratear seu preço final. Ou, ainda, se sua entrada no mercado enfraqueceu ou acabou com a produção de cooperativas agrícolas que também manufaturavam lei em pó naquela região, e que não conseguiram competir com os baixos preços.
 





 




Só o consumidor consciente e incluído numa economia solidária – que dá espaço para grandes, médios e pequenos produtores – consegue mudar a lógica das relações comerciais. Foi para introduzir esse tipo de discussão – complexa, mas atual — na escola que a organização não-governamental brasileira Instituto Kairós e a entidade francesa Fedération Artisans du Monde (Federação de Artesãos do Mundo) produziram o manual pedagógico
Entender e Intervir – Por uma Educação para o Consumo Responsável e o Comércio Justo

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“Quando fazemos uma análise mais sistêmica, percebemos que o ato de consumir é uma questão política”, explica Ana Flávia Borges Badue, coordenadora do Kairós e uma das responsáveis pelo manual. E que tem conseqüências socioeconômicas: segundo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano passado, a renda per capita dos 10% mais ricos da população brasileira é 32 vezes maior do que a obtida pelos 40% mais pobres. Em outros países, as desigualdades tomam proporções mais alarmantes.




 




Depois de um primeiro encontro e posterior intercâmbio – ambos promovidos pela Associação Brasileira das Organizações Não-Governamentais (Abong) e pela sua equivalente francesa, Coordination Sud -, as duas ONGs deram início à produção do manual dirigido exclusivamente para professores.




 




Lançado no Brasil em outubro passado e na França em fevereiro, o trabalho foi patrocinado pela diretoria de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e do departamento de Educação Ambiental do Ministério da Educação, por meio do Programa Nacional de Educação Ambiental (Proneia), financiado pela Unesco, com apoio da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego.




 




“O capitalismo é a posse individual dos meios coletivos de produção. Já o comércio solidário é a posse coletiva dos meios coletivos de produção”, explica Sônia Maria Portella Kruppa, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e da Fundação Santo André. Especializada no tema Economia Solidária, ela analisou o conteúdo do manual assim que ficou pronto. “Ele tem uma estrutura que permite a discussão conceitual para intervir no consumo e comércio, e deve ser aplicado em conjunto por professores de todas as disciplinas”, diz. A única crítica foi com relação à forma: “Ele poderia ter fichas soltas para facilitar o uso”.




 





Organização –

O manual está dividido em duas partes: uma teórica, com quatro capítulos de informações sobre o tema para dar suporte ao professor (“Sociedade do consumo”, “Os meios de comunicação e a publicidade”, “As relações comerciais desiguais”, “As alternativas”); e outra prática, com setes capítulos com sugestões de atividades e exercícios para serem aplicados junto aos alunos (“Por que consumimos?”, “Somos manipulados pela mídia?”, “Quem decide o quê?”. “Podemos comprar tudo?”, “Quanto isso custa?”, “Consumir mais ou melhor?” e “Intervir juntos!”)




 




O conteúdo tem influências das teorias do educador Paulo Freire, dos preceitos da Educação Ambiental, da Educação dos Direitos Humanos e também da Educação para o Desenvolvimento. “O método recupera aquele que foi usado pela Juventude Universitária Católica, movimento surgido durante a década de 40, que é o do ‘Ver, julgar e agir’. O manual sugere, então, o ‘Enxergar, refletir e intervir'”, afirma a docente, referindo-se ao movimento que teve como principal expoente o missionário Dom Hélder Câmara.





 





Por abordar temas que exigem reflexão e certo repertório, o manual foi dirigido para os professores do ensino médio formal. “É a forma de se inserir na escola a discussão do emprego, geração de renda e trabalho. O jovem acabou surgindo como foco, pois está passando pela fase de formação do caráter, de personalidade e de consolidação de uma postura de mundo”, explica Fabíola Marono Zerbini, também diretora do Instituto Kairós e responsável pelo projeto.




 




Apesar do apoio junto às entidades de Economia Solidária nacionais e internacionais, o projeto do manual aguarda por verbas federais, estaduais e municipais para ser introduzido na grade curricular. Ele ainda não foi aplicado em nenhuma escola. “Mas sabemos que professores que conseguiram ter acesso ao manual já o estão explorando de forma independente”, conta Fabíola. Com o apoio financeiro recebido até o momento, conseguiu-se uma tiragem de mil exemplares. Parte foi distribuída para as entidades federais apoiadoras, outra para a rede de associados do Kairós. No futuro, será usado na contrapartida com as secretarias estaduais e municipais de Educação que fecharem parceria.




 




O Kairós também pretende oferecer o conteúdo do manual nas páginas do MEC, do Ministério do Meio Ambiente e da própria ONG na internet. Tudo para disseminar esse conteúdo que pede atenção e tem urgência em ser compreendido, segundo Ana Flávia. “É começar desde o início a fazer as pessoas pensarem no quanto as relações econômicas pautam a vida da gente, e o quanto elas têm uma relação com o jogo político, econômico e do estado da desigualdade social que vivemos hoje”, observa.


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