Entretanto (coluna de José Pacheco)

A escola está empobrecida. Mas também não muda; leia coluna de José Pacheco

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Crédito: Shutterstock

Reflitamos sobre o que nos dizem dois insignes educadores do nosso tempo.

O brasileiro Pedro Demo diz-nos que, não só vamos desaprendendo, como vamos caindo para cifras dantescas de desempenho adequado. Um sistema que garante apenas 9,3% de desempenho adequado de matemática na 3ª série do ensino médio, simplesmente, “não existe” – os estudantes perdem seu tempo na escola. Entretanto, ignorando sábias considerações, o ministério produziu medidas de política educativa, que em nada afetam um sistema que, simplesmente, “não existe”.

Em mais uma viagem a Portugal, leio o que o amigo Sérgio Niza nos diz: É por preguiça mental e medo que os governantes impedem novas formas de encarar a escola, uma escola empobrecida pela tentação de satisfazer a eficácia da sociedade de mercado. E uma boa surpresa me esperava. Finalmente, apareceu um secretário de estado da Educação, que realmente sabe alguma coisa de educação e ousa agitar o pântano, propondo mudanças pertinentes no sistema. Imediatamente, os críticos de serviço manipulam a opinião pública, detratam as propostas e põem em risco a sua aplicação. Entretanto, os ilustres deputados da Comissão de Educação da Assembleia da República desperdiçam tempo em discussões bizantinas, como a de determinar o número ideal de alunos por turma. Eles acham que deverá continuar a haver turmas, num achismo alheio ao fato de a pesquisa concluir que o número de discentes por turma é algo irrelevante.

Portugal e Brasil estão irmanados numa deriva educacional sem fim à vista, em plena era da pós-verdade, que, no futuro, deverá ser conhecida como a proto-história da escola, um tempo em que a educação não prosperou sob o jugo de jogos políticos de bastidores e de uma administração burocratizada.

Recordo o meu primeiro dia de professor. Mal entrara na sala de reuniões, aquela que percebi ser a professora mais antiga da escola ordenou: Sente-se, colega! Estamos a fazer as turmas da primeira classe. E, de imediato, interpelou uma faxineira:

Quem é este número 508?
É filho do Senhor Engenheiro.
Então, fica para mim.
E este, aqui, o 509?
É neto da Sãozinha, aquela que mora no bairro. É analfabeta. E o filho nem a terceira classe conseguiu fazer.
Então, esse vai ali para o colega.

Ao receber o sétimo rejeitado, quebrei o meu respeitoso silêncio.

Colega, diga-me, por favor: por que escolhe uns alunos e me entrega outros?
Porque eu não sei trabalhar com esses! – respondeu, visivelmente desagradada.
Minha senhora, se não sabe, vá aprender – retorqui.

Azar duplo: a professora mais antiga era esposa do diretor; o diretor era informador da polícia política…

Já naquela distante época e por mera intuição – pois nem sabia da existência de um Piaget, ou dos futuros escritos de um Bourdieu – as minhas interpelações exasperavam zelosos burocratas e servis funcionários. Se, já naquele tempo, o velho modelo de ensino não lograva assegurar a todos o direito à educação, os professores teriam o direito de continuar a rejeitar alunos? As escolas teriam o direito de continuar a excluir? Cadê a ética, companheiros?

E, hoje, cadê a coragem cívica dos companheiros especialistas das ciências da educação? Porque aquilo que mais preocupava Luther King não era o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que mais o preocupava era “o silêncio dos bons”. Neste tempo de ministeriais disparates, o silêncio das ciências da educação começa a ser preocupante, insustentável, obsceno… ensurdecedor.

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