Entre o particular e público

Queda do poder aquisitivo obriga classe média a repensar educação dos filhos – êxodo do ensino privado afeta escolas, pais e alunos e gera discussão sobre linhas pedagógicas

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Alexandra Sayad e Marina Rosenfeld

Crise econômica, recessão e queda no consumo das famílias vêm obrigando muitos brasileiros a diminuir gastos e cortar supérfluos. Desempregados e cheios de dívidas, pais apertam ainda mais o cinto e agora se voltam a um item essencial: a educação dos filhos. De olho no orçamento, a classe média começa a trocar os rebentos de escola, tirando-os das instituições particulares mais caras e colocando-os em estabelecimentos mais em conta ou migrando para a rede pública.

“Duas meninas chegaram a me bater para que parasse de ‘botar banca’. Isso fez com que eu não participasse tão explicitamente das aulas”, lembra Camilla Souza, hoje vestibulanda. Questões financeiras obrigaram a família da adolescente a tirá-la do Colégio Beatíssima Virgem Maria, em São Paulo (SP) – com mensalidade de aproximadamente R$ 500 -, e matriculá-la na Escola Municipal Chiquinha Rodrigues. “No começo, as pessoas me discriminavam porque eu já tinha conhecimento sobre as disciplinas, afinal, cursava aquele ano novamente. Achavam que eu queria aparecer quando demonstrava algo que sabia”, coloca.

Aos poucos, a situação começou a se desenrolar positivamente. Com a ajuda de sua mãe, professora de ciências da rede particular, Camilla passou a compartilhar seus conhecimentos da disciplina com colegas de classe, que sofriam com a constante ausência da professora. “Comecei a fazer amizades, reverter a situação e as pessoas passaram a me ver com menos preconceito.”

Para Camilla, o preparo dos professores e o nível do ensino não pesaram tanto na troca de escolas, como era esperado. O principal problema, que surpreendeu e sensibilizou a estudante na mudança, foi a politicagem que envolve a rede pública de ensino. “Em época de eleições, o lanche mudava de maçã e ovo para achocolatado e bolacha; era triste ver como todos os alunos se sentiam usados”, relembra.

Êxodo – Nos âmbitos pedagógico e social, as dificuldades de enfrentar um novo ambiente escolar são cada vez mais comuns. De 1995 a 2001, o aumento de cursos da rede particular subiu em 117%, segundo o próprio Ministério da Educação. Nesse período, beirou os 50 mil o êxodo de alunos para uma das 613 escolas públicas de ensino médio do Estado de São Paulo – mais que o dobro de colégios da rede particular.

O Instituto Ipsos Brasil, em recente pesquisa, confirmou a tendência para todo o Brasil. Segundo o Ipsos, as matrículas em escolas particulares, na faixa etária de 15 a 17 anos, caíram de 23,3% para 21,9%, entre 2001 e 2002. O aumento de matrículas na rede pública foi de 64,4% para 66,3% no mesmo período, para a mesma faixa etária.

“Ainda há uma redução na taxa de natalidade da classe média, ou seja, saem mais alunos do que entram”, avalia José Augusto de Mattos Lourenço, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp). Segundo ele, no aperto financeiro, a questão pedagógica fica sempre em segundo plano. Não há uma avaliação por parte dos pais da linha em que atua a escola para a qual o filho está mudando. “Quando o pai fecha a empresa ou ‘quebra’ por algum outro motivo, o orçamento doméstico fica em primeiro lugar. Nem sempre há preocupação com a orientação pedagógica ou mesmo com a qualidade”, aponta Lourenço.

É por esse motivo que Fábio Luiz Marinho Aidar, vice-diretor-geral do Colégio Santa Cruz, em São Paulo (SP), acredita que a simples troca de escolas pode gerar traumas futuros na educação do aluno, quando acontece sem qualquer acompanhamento da família e das duas escolas envolvidas na transição. “Toda essa situação de mudança mexe com o estudante, afinal, ele está trocando de habitat. E se as duas escolas, a nova e a antiga, não estiverem em sintonia quanto à sua situação, certamente a adaptação ao novo ambiente será mais difícil”, pondera Aidar.

Esse é o caso de Leonardo Marques, 20 anos. O jovem sofreu com a mudança de escolas porque não houve comunicação entre as instituições em que estudou. Após estudar em três escolas particulares da região de Cotia (SP), que valorizam o uso da criatividade e a integração com a natureza, Marques mudou-se para a Escola Estadual Casemiro Leite, também em Cotia, de orientação pedagógica modular. Nesse tipo de ensino, uma disciplina é lecionada integralmente durante meses, sem se misturar às outras.

“Estranhei muito, mas no fim gostei do ensino modular. Achei as matérias mais bem explicadas e aprofundadas e a relação de alunos e professores, melhor”, analisa Marques.

Apesar da avaliação positiva, o estudante também teve de se adaptar a uma realidade diferente após o problema financeiro familiar que o levou à rede pública. “Eu e meu irmão éramos tratados como
playboys

, foi uma adaptação muito difícil. Certa vez, jogando futebol, nós fomos obrigados a deixar a quadra ou então os outros estudantes iriam chamar os ‘patrões’, traficantes do morro vizinho, para resolver a situação”, conta.

Para amenizar a série de questões que Marques e seus irmãos enfrentaram no período de transição, a mãe, Maria Beatriz Marques, resolveu aproximar-se mais da escola e da comunidade, afiliando-se à Associação de Pais e Mestres (APM). “Mudar de escola é sempre difícil. O ensino da Casemiro é muito bom, mas senti que se estivesse mais próxima poderia, de fato, realizar ações concretas, como participar da compra e distribuição do material escolar’, explica ela.

Dentre as conquistas mais importantes da APM, Maria Beatriz destaca a parceria com o Hospital Público de Cotia para o fornecimento de flúor para a escola, além da orientação odontológica adequada e a obtenção de passe escolar gratuito. “Mas tivemos até de organizar protestos para obter resultados”, completa.

Para Marques, a troca de escolas proporcionou muitos aprendizados. “Passei a ser mais humilde, conversar e conviver com todas as diferenças”, admite. Outra mudança importante, segundo ele, foi a valorização da figura do professor. “Na escola pública, eles não são estimulados a trabalhar, ganham muito pouco, se sentem extremamente desvalorizados, mas ensinam porque sabem que os alunos realmente precisam daquilo; são verdadeiros guerreiros.”

Em momentos de dificuldades financeiras, a mudança de escolas é ainda mais caótica quando acontece entre as próprias entidades particulares, acredita José Augusto de Mattos Lourenço, do Sieeesp. “É primeira opção dos pais, se possível, buscar uma escola particular mais barata, não importa ela qual seja”, afirma. Nessa troca, alguns estudantes passam por uma verdadeira “salada mista” de orientações pedagógicas.

Para Aidar, do Colégio Santa Cruz, não importa para onde o estudante vai e de onde ele vem. “Independentemente do fato de o aluno estar mudando de uma escola mais forte para uma fraca, de uma particular para uma pública ou vice-versa, o que deve ser levado em conta é o momento pelo qual se está passando. O ensino e os colegas de classe são outros também e por isso é que deve haver diálogo entre as escolas”, defende.

Troca-troca – Pais recém-separados, aperto no orçamento doméstico e conseqüente mudança no estilo de vida. Foi na típica situação de classe média brasileira que Silvio Soares Filho, 18 anos, sentiu na pele a mudança de escolas.

Da educação infantil ao primeiro ano do ensino médio, Soares freqüentou o Colégio Madre Alix, considerado de elite na capital paulista, atualmente com mensalidade de aproximadamente R$ 800. “Tive dificuldades no primeiro colegial. Meus pais me colocaram numa escola bem fraca para que eu passasse de ano. Quando resolvi voltar à boa escola onde estudava, não havia mais condições financeiras. Por isso, acabei em outra escola particular muito fraca e mais barata”, conta Soares, que hoje faz cursinho para prestar vestibular para jornalismo.

No terceiro ano do ensino médio, graças a uma melhora financeira, a solução encontrada pelos pais de Soares foi colocá-lo em uma outra escola particular. A escolha foi pelo Colégio Objetivo, de São Paulo (SP). “Senti tanta dificuldade para acompanhar o que era ensinado que desanimei. Não conseguia acompanhar as aulas e senti um arrependimento enorme de ter deixado meu primeiro colégio”, recorda.

Luciana Soares, educadora e mãe do estudante, admite que, apesar de sempre ter considerado a questão pedagógica importante, outras questões foram privilegiadas na hora do aperto. “Quando a situação financeira é muito grave, não há alternativa: você pensa antes de mais nada em ter o que comer, o resto torna-se supérfluo”, avalia.

A ironia é que o troca-troca entre as cinco escolas, que acabou atrapalhando o desempenho de Soares, não compensou financeiramente no bolso da mãe. “No fim das contas, gastei mais em aulas particulares do que se tivesse mantido ele em uma boa escola desde o princípio”, completa Luciana.

Formação – Nem sempre a escolha por uma escola pública está associada a questões financeiras. Maíra de Borja Reis Cerqueira, 16 anos, e seu pai, Laurez Cerqueira, acreditam que a escola pública se preocupa mais com a formação humanista que a particular. Maíra, que sempre estudou em escolas públicas de Brasília (DF), mudou-se para uma particular quando estava na sétima série do ensino fundamental. No mesmo ano, seus pais se separaram e, como conseqüência desse momento, Maíra começou a ter problemas no desempenho escolar. “A escola particular, por estar muito focada na preparação para o vestibular, esquece de olhar o aluno como ser humano e acaba punindo-o por algo que ele nem sempre tem culpa”, analisa Cerqueira.

No ano seguinte, após voltar para o Centro Educacional da Asa Norte, considerada uma das melhores escolas públicas de Brasília, Maíra conseguiu resgatar sua auto-estima. “Na rede pública, o aluno tem mais espaço de atuação e isso faz com que eu me sinta mais motivada. A escola pública é mais consciência e menos ciência”, finaliza.





Contra a maré


Leonardo Valentino escolheu estudar na pública Alves Cruz por causa do envolvimento da comunidade

Após ter passado por três diferentes escolas particulares de São Paulo e repetido o primeiro ano do ensino médio em uma delas, Leonardo Valentino tomou uma decisão que não se apoiou em problemas financeiros. Resolveu fazer novamente o primeiro ano do ensino médio na Escola Estadual Professor Alves Cruz, na capital paulista.

Segundo ele, o que mais chamou atenção na Alves Cruz, e que de certa forma funcionou como um diferencial com relação às outras, foi o envolvimento comunitário dentro da escola. “Gostei muito de ter estudado na Alves Cruz. Havia a ação de ONGs e de ex-alunos que movimentavam a escola. Estudei à noite, com pessoas mais velhas que não estavam lá para brincar”, conta Valentino, que hoje cursa o primeiro ano de comunicação social.

A ação comunitária foi o que salvou a Alves Cruz do fechamento. Considerada modelo nos anos 70, a escola passou por um processo incomum nos anos 90: apesar da grande procura por vagas nas escolas públicas, a Alves Cruz quase fechou as portas por falta de matrículas, uma vez que está localizada em um bairro de classe média.

O carinho de alunos, ex-alunos e pais ajudou a criar a ONG Projeto Fênix. Associada à comunidade e a outras instituições do terceiro setor, a Fênix divulgou as vantagens da escola, como a boa rede de transporte público da região e a pedagogia diferenciada. O envolvimento desse grupo permitiu a revitalização da estrutura física e a reforma dos jardins e da rede elétrica, além de pressionar o poder público por mais verbas.




(AS e MR)



Cobertor curto


Tendência de fusão de escolas perde força; especialistas






prevêem fechamento ou compra de estabelecimentos de ensino


Se administrar diferentes propostas educativas já é difícil na troca de escolas, imagine se essa mudança ocorre sem que o aluno saia da instituição. Segundo José Augusto de Mattos Lourenço, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), a profusão de abordagens pedagógicas presente nas escolas particulares torna incompreensível uma das saídas encontradas pelas instituições para a evasão de matrículas: a fusão.

A tendência ganhou força no final do ano passado, quando o índice de inadimplência pulou de 3% para 3,7% em São Paulo, e alguns conglomerados de escolas com propostas educativas aparentemente díspares começaram a surgir. “A não aceitação das fusões por parte dos alunos e dos pais já é uma realidade. A questão da identidade, da formação dos grupos de amizade e mesmo questões como o uso do uniforme pesam muito quando não há um trabalho pedagógico que seja bom para todos”, explica.

Segundo ele, o que tem ocorrido e deve aumentar nos próximos anos é a compra das escolas ou, simplesmente, seu fechamento. A previsão deve se confirmar, já que os últimos dados registrados pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostraram um índice de -2,1% na previsão de crescimento do consumo das famílias brasileiras.
(AS e MR)




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