Entre iguais

Doenças consideradas típicas da classe docente acometem muitos outros profissionais: modificando as condições da organização do trabalho é possível tornar o ofícioum promotor de saúde

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Em certo momento da carreira, o professor de Educação Artística Rodney Alfredo D’Annibale, 44, assumiu, por razões financeiras, as aulas de 21 turmas, ministrando 28 aulas semanais, o que representava por volta de 840 alunos. Após quatro anos nessa rotina, Rodney passou a ter sintomas de quem estava com a saúde emocional abalada: desânimo para o trabalho e agressividade com estudantes e familiares. As discussões com os alunos tornaram-se intensas e corriqueiras, a ponto de a diretora da unidade pedir para o professor procurar um médico. Um psiquiatra o avaliou e solicitou o afastamento do profissional. O caso de Rodney demonstra as condições de muitos professores pelo país: os docentes estão adoecendo mais por questões psicológicas do que físicas. Mas, o que poderia ser considerada uma “doença docente” é, na verdade, uma doença de quem lida com o “público”.


Dados da Secretaria de Administração do Estado de Santa Catarina apontam que, em 2007, 29% dos servidores públicos estaduais estavam licenciados por conta de transtornos mentais e comportamentais, e 18% em razão de doenças osteomusculares, dois dos principais problemas de saúde que acometem também os educadores.


Desgastes parecidos acontecem com profissionais do âmbito privado. O bancário é um exemplo de profissional que, assim como o professor, pode sofrer de transtornos pós-traumáticos – adquirido após situações de violência, verbal ou física, nas quais o trabalhador se sente refém. Para a psicanalista e professora da Universidade Federal Fluminense Hilda Alevato, experiências que afetam o emocional de um trabalhador podem ser mais sérias do que as de caráter físico. “É o caso de um bancário que passou por um assalto na agência e desenvolveu pânico, por exemplo. Ao retornar, ele volta a enfrentar a mesma situação, todo dia, podendo impedir um retorno bem-sucedido, agravar seu estado e até provocar um novo afastamento”, afirma.


De acordo com Renata Paparelli, doutora em psicologia social e do trabalho, os principais transtornos mentais que acometem os educadores são a conhecida Síndrome de Burnout ou esgotamento profissional, o estresse pós-traumático e a depressão. A Síndrome de Burnout, tão associada à carreira docente, costuma atingir também servidores da área da Saúde, como médicos e enfermeiros, e da Assistência Social. “São profissionais para quem o trabalho é tido como um compromisso militante e que investem suas melhores energias psicológicas e biofísicas nele”, explica Renata. E quando o trabalho não atinge o resultado esperado e isso se prolonga no tempo, o profissional se desgasta emocionalmente e acaba sem energias. Em Santa Catarina, no ano de 2007, 25% dos servidores afastados para tratamento de doenças eram da Secretaria da Saúde.


Depressão
Por outro lado, a depressão, como sentida pelo professor Rodney, pode estar relacionada à capacidade de o profissional interferir em seu ofício. “Se o trabalho é muito rígido, tem regras muito inflexíveis e o trabalhador pode interferir pouco, abre-se espaço para o desgaste mental”, explica Renata Paparelli. Na área educacional, ela cita o exemplo da política de progressão continuada como um fator de estresse, já que, muitas vezes, não é possível acompanhar o desenvolvimento do estudante ao longo do ano, de forma satisfatória. “Um dos atores sociais que mais sofrem no interior de uma política pública de progressão continuada, que impede o aluno de ser reprovado quando não aprendeu, é o professor, porque seu trabalho acaba perdendo o sentido”, acredita Renata.


Profissionais do chamado telework – aqueles que trabalham com headphone, como operadores de telemarketing, SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) de empresas e bank fone – também sofrem desse desgaste. Para quase tudo o que fazem ou dizem há um padrão e a incapacidade de poder interferir no trabalho pode causar transtornos mentais, como a depressão.


Pesquisa do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), realizada em 2010, mostra que mais de 80% dos professores entrevistados apresentam sintomas de cansaço, 68% de nervosismo, 62% de ansiedade e 58% de dores nas pernas. Entre os diagnosticados, 48,5% têm estresse e 36% problemas de voz.


Renata Paparelli lembra que nenhum trabalho é naturalmente estressante: todo trabalho pode ser modificado. “A profissão de professor tem sido uma ocupação estressante, mas isso não é um dado da natureza. Se modificamos as condições da organização do trabalho é possível torná-lo um trabalho promotor de saúde”, diz Renata, que também é professora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).


A extensa jornada de trabalho de Rodney, aliada à dificuldades de relacionamento com alunos, o levou à licença médica e à readaptação. “A época de fechamento de notas era uma loucura, eu tinha 21 diários para colocar a nota”, recorda. A licença foi renovada de tempos em tempos até que, um ano e oito meses depois, o professor voltou para a escola, na condição de docente readaptado, ou seja, sem dar aulas.


Além das condições físicas e materiais da escola, como acústica das salas, qualidade de lousa e giz, altura das carteiras, localização, segurança e higiene, a organização do trabalho – como a quantidade de alunos por sala e a excessiva jornada – pode ser determinante para a saúde docente.


Readaptação
Levantamento do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes) revelou que 50% das licenças médicas concedidas a professores da rede municipal de Vitória, entre janeiro e agosto de 2011, aconteceram em razão de transtornos mentais. A professora de Filosofia Maria de Lourdes Gonçalves, de 60 anos, é um exemplo. Após seis anos de magistério, não via mais o ambiente escolar com o mesmo olhar entusiasmado de quem largara um emprego estável de arquivista na Cúria Metropolitana de São Paulo para dar aulas. Os alunos pareciam desinteressados, os colegas docentes, cansados, e a didática empregada para os estudantes, inadequada.


A docente se sentia ansiosa diante das classes de aproximadamente 50 alunos adolescentes, com os quais ela não mais conseguia ter paciência. No início dos anos 2000, por conta de uma cirurgia para a retirada de um câncer de mama, ficou dois anos afastada da escola. Ao final da licença médica, o psiquiatra que a acompanhava optou por não permitir que sua paciente retornasse ao trabalho, cujas condições a afligiam anteriormente. Em 2002, Lourdes voltou para a escola, como professora readaptada, trabalhando na biblioteca. Atualmente, ela gasta quase R$ 200 por mês com terapia e remédios para ansiedade.


Promover a saúde do servidor público não é tarefa simples. Para o médico e diretor do Departamento de Saúde, Previdência e Benefícios do Servidor do Ministério do Planejamento, Sergio Antonio Martins Carneiro, em seu artigo “Saúde do servidor: uma questão para a gestão de pessoas”, um dos desafios da administração pública é definir quem deve se responsabilizar pelas ações de saúde do servidor: a estrutura de Gestão de Pessoas ou de Saúde. Ele cita São Paulo como exemplo onde o departamento estadual de Perícias Médicas faz parte da estrutura da Secretaria Estadual de Saúde, enquanto o departamento municipal de Saúde do Servidor é vinculado à Secretaria Municipal de Gestão, “sendo que a assistência médica é prestada por uma autarquia hospitalar vinculada à Secretaria Municipal de Saúde”. De acordo com Sergio Carneiro, outros estados brasileiros apresentam a mesma situação. Para ele, no entanto, “as questões relativas à saúde do servidor dizem respeito à política de gestão de pessoas, não são ações de saúde do Estado, promotor de políticas públicas, e sim ações do Estado empregador, que tem responsabilidades trabalhistas para com seus empregados”.


Sem voz própria
A falta de organização da responsabilidade pela saúde do servidor público pode dificultar, por vezes, o acesso do trabalhador a consultas, exames e tratamento médico. Marlene Pereira Nunes Silva, de 47 anos, é professora da educação infantil e professora polivalente do 1° ao 5° ano do ensino fundamental. Há 28 anos leciona em escolas públicas municipais e estaduais. Após 15 anos de magistério, passou a ter crises de rouquidão com frequência, chegando a não ser ouvida ao telefone. Sem plano de saúde particular, a educadora recorreu à estrutura pública de Saúde. Demorou meses para descobrir que tinha nódulos nas cordas vocais, causados pelo abuso do uso da voz. Continuando a lecionar, o quadro se agravou e uma cirurgia passou a ser necessária. A operação só foi acontecer após cinco anos do primeiro diagnóstico. A lesão nas cordas vocais da professora era tão grave que foi preciso realizar um procedimento chamado enxertia, ou seja, enxertar tecido da orelha nas cordas vocais. 


Poucos profissionais usam tanto a voz para trabalhar quanto os educadores, que, como afirma a fonoaudióloga Fabiana Zambon, chefe do Programa de Saúde Vocal do Sindicato dos Professores da rede privada de São Paulo (Sinpro-SP), falam em público o dia inteiro. Uma pesquisa realizada pelo Sindicato comparou as percepções sobre a saúde vocal de docentes e trabalhadores de outras áreas. Com exceção do uso de medicamentos para problemas de voz, todos os aspectos do estudo mostraram que os professores adoecem muito mais por questões vocais do que os demais profissionais. Um dado apontado foi o de que 16,7% dos educadores consideram a necessidade de mudar de ocupação no futuro, em virtude de um problema de voz. Entre os demais entrevistados, o número não chega a 1%. 


Recentemente alguns estados passaram a oferecer orientação a respeito do uso da voz aos professores. Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, há programas de saúde vocal, para minimizar e eliminar sinais e sintomas de doenças da voz, reduzindo o número de afastamentos. No Rio, de acordo com a Superintendência de Perícia Médica e Saúde Ocupacional do Estado, de 75 a 100 professores são licenciados ou readaptados todo mês devido a problemas vocais. Em Minas, grande parte dos docentes já participou de palestras sobre saúde e vocal e, desde 2010, foram distribuídos DVDs com informações sobre o tema para todas as 3.779 escolas estaduais. Além desse tipo de medida, a fonoaudióloga Fabiana Zambon acredita que os administradores de escolas, particulares ou públicas, poderiam diminuir o número de alunos por turma e disponibilizar o uso de microfone em sala de aula para evitar o desgaste vocal.


Além disso, professores também sofrem de problemas musculares, como LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e DORT (Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho). “Os ombros e a coluna vertebral, pela utilização e pelos movimentos repetitivos no quadro-negro e por ficarem muito tempo em pé, são as regiões que mais sofrem”, diz a fisioterapeuta Claudia Wanderck. “Além disso, problemas vasculares, como as varizes, surgem com mais frequência nesses profissionais, também por ficarem muito tempo em pé.”







Microfone em sala de aula

Em fevereiro deste ano, a Câmara dos Deputados arquivou projeto de lei (PL 1106/2001) que propunha a obrigatoriedade de instalação de sistemas de som em salas de aula com 40 alunos ou mais, no ensino médio e superior. O autor, deputado Ricardo Quirino, justificava que a proposta visava reduzir os danos causados pelo uso excessivo da voz pelo professor. O projeto apresentava dados do Simpro que apontam que 35% dos professores ativos relataram a presença de cinco ou mais problemas vocais; 63% disseram já ter tido algum problema durante a vida profissional; 16,7% consideram que terão de mudar de profissão no futuro por conta de problemas vocais. A Comissão de Educação e Cultura rejeitou o projeto argumentando que “o senão a ser apontado é simplesmente quanto à forma escolhida pelo parlamentar para tratar a questão. Nosso entendimento é que não cabe tratar o tema em lei federal, mas sim por meio de orientações técnico-administrativas emanadas do Ministério da Educação.” A Comissão pediu pelo encaminhamento da indicação ao MEC.

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