Entre dois mundos

Aceleração da vida contemporânea e novas configurações do universo do trabalho criam uma nebulosa zona de fronteira entre escola e família quando o assunto é a transmissão de valores

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A dificuldade de lidar com o tempo é uma das características mais marcantes da sociedade contemporânea. Não apenas o tempo presente, que sempre falta para atender às demandas e aos desejos do dia-a-dia. Mas também o tempo passado. Com efeito, talvez a marca registrada da pós-modernidade, especialmente em países jovens, como Brasil e Estados Unidos, seja o ato, por vezes inconsciente, de apagar constantemente as pegadas da história. E essa falta de perspectiva temporal, além de embaçar a capacidade de julgamento, apequena o debate sobre o que é realmente importante e em que dimensões da vida. Como conseqüência, há uma volúpia por olhar apenas para o presente, esquecendo não apenas o que passou, mas também menosprezando o que está por vir. Embora muitas vezes a lógica do imediatismo possa funcionar no mundo dos negócios, em educação ela é nefasta. Afinal, educar é um longo processo.

Em seu aspecto mais concreto, a dificuldade para lidar com o tempo tem gerado, especialmente nos grandes centros brasileiros, uma discussão sobre quais papéis família e escola, os dois pilares da educação, devem desempenhar na formação de um indivíduo. Sufocados pela necessidade de trabalhar diuturnamente para fazer face à reprodução material, pais e mães dispõem de menos tempo para os filhos. Com isso, muitos deles acreditam não ter condições de educá-los satisfatoriamente. Assim, decidem transferir para a escola responsabilidades tradicionalmente da alçada da família, como a criação de hábitos alimentares e de higiene, por exemplo, bem como a difusão de ensinamentos éticos e morais. A escola, por sua vez, em geral não está preparada para assumir essa responsabilidade adicional. E parece não ter disposição para isso.


Em livro, a psicóloga Rosely Sayão alerta que, querendo ser próximos de seus filhos, os pais adotam uma postura de deserção do papel educativo

De acordo com a psicóloga Rosely Sayão, há de fato um despreparo educacional das crianças quando ingressam na escola. "Se as crianças não têm recebido da família a educação que deveriam, isso se deve ao fato de que os pais também têm adotado, no convívio com os filhos, uma postura de deserção do seu papel. Eles têm preferido ser ‘amigos’ dos filhos a ser pai e mãe", diz ela no livro Em Defesa da Escola (Papirus, 2004), escrito em diálogo com Julio Groppa Aquino, colunista de Educação. "E o que faz a escola em vez de se atualizar para atender esses alunos que chegam com uma formação diferente daquela que os professores desejavam? O que menos esperávamos: tenta se transformar em uma família substituta para esses alunos", emenda. "Querendo ser família, a escola deixa de ser escola", conclui.


Nova organização social

Essa inversão de papéis é, em grande medida, responsável pelo atual conflito que opõe família e escola. "As famílias delegam muita coisa para a escola. Eu me pergunto: quanto tempo passam com seus filhos? É preciso discutir os limites da educação à luz da sociedade contemporânea", afirma Valéria Amorim Arantes, docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp) e coordenadora do Ciclo Básico da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP Leste.

"Formar e instruir gerações antes era função da Igreja e da família. Hoje a família não dá conta. Houve uma mudança na organização social. Isso é um fato. E a escola não tem saída. Isso agora é função também dela", afirma Ulisses Araújo, professor livre-docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP Leste e autor, em parceria com o espanhol Josep Maria Puig, de Educação e Valores (Summus, 2007). "A sociedade não criou outra instituição para educar que não a escola", diz ele, para quem a família possui um papel complementar ao da escola, não antagônico. "Alguns valores do mundo privado são de responsabilidade da família. Os do mundo público, da escola. Onde o individual entra em conflito com o coletivo, este submete o individual. Aí é o espaço da escola", defende Araújo, ao explicar que as famílias, muitas vezes, ensinam violência, por exemplo. "Droga, sexualidade e valores não são invenções, mas sim resultado de demandas da sociedade. O problema é que o professor não foi treinado para isso", conclui.

"Vivemos num mundo paupérrimo de ética. A principal função dos pais é transmitir princípios, valores. O resto a criança aprende por conta própria", acredita Ceres Alves de Araújo, professora de Psicologia Clínica da PUC-SP e especialista em psicoterapia de crianças e adolescentes.

A defesa da participação ativa da escola na inoculação de valores éticos e morais está longe de ser consensual, inclusive entre os pais. "Não acho que isso seja função da escola. Tenho de fazer a minha parte", diz a professora de inglês Paula Perito, mãe de Sofia, 3 anos, e Tarsila, 9. "Não faço lição com a minha filha. A responsabilidade é dela. Se tem dúvidas, digo para levar para a escola, que deve ensinar a criança a pensar, a se colocar, a defender seu ponto de vista", opina Paula, que paga em torno de R$ 1.300 mensais para a filha mais velha estudar na Escola Vera Cruz. "Não me preocupo com os conteúdos que o colégio está passando, tenho de confiar nisso", diz Paula, que anualmente vai à escola para ouvir um relato do que foi feito e conhecer os objetivos do período. "Acho bom que seja assim", conclui. "Trazer família para dentro da escola é besteira", ecoa Ulisses Araújo. "O professor não quer saber disso. Nem a família. Ela já tem seus problemas. E não tem de se meter na relação pedagógica", defende.

Opiniões a um só tempo divergentes e convergentes apenas evidenciam a complexidade do tema. Mas nem tudo é água e óleo nesse oceano de posições aparentemente contraditórias. A educadora Olga Santana, por exemplo, acredita que "escola e família têm papéis bem definidos e complementares". Para ela, que atua também como assessora pedagógica em projetos de formação de professores, o papel do pai começa logo que a criança nasce, com o planejamento, mesmo que inconsciente, do tipo de filho que deseja ter. "Algumas habilidades são função de a escola desenvolver, outras, dos pais. Pai é pai, não é amigo, não é professor, tem função de educar que é diferente da de professor", pontua.


A escolha da escola

Nas famílias de classe média para cima, que enviam seus filhos para colégios particulares, a principal tarefa dos pais é escolher a escola certa. Deve-se optar por uma instituição compatível com sua visão de mundo. Parece óbvio, mas, em geral, não é o que ocorre: é comum pais rigorosos colocarem os filhos em escolas liberais e vice-versa, o que causa um perigoso curto-circuito na cabeça do jovem. "A elite não sabe avaliar a escola", afirma Santana. "Quando conversam com alguém do colégio, querem saber se tem droga, querem ver o banheiro, saber se oferece aulas extras. Às vezes até perguntam coisas pertinentes, mas não sabem analisar as respostas", diz ela, que aconselha os pais a perguntar coisas como: "A escola trabalha cidadania? Dê um exemplo".

Para Olga, o problema na escolha da escola e no diálogo entre família e professores não é exclusivo dos pais. "A escola diz o que a família quer ouvir, não o que deve dizer", adverte, lançando luz em outra faceta da intrincada relação: sua dimensão mercantil. Não é difícil constatar que, nos últimos anos, a educação no Brasil virou uma mercadoria, um bem de consumo encarado por muitos como outro qualquer. Orientadas por consultores, administradores de empresas e especialistas em reengenharia de processos, que têm como norte a busca da famigerada qualidade total, as instituições se prepararam para satisfazer as vontades dos consumidores. E quem são esses "clientes", na visão dos burocratas? Os pais, responsáveis por pagar a mensalidade. Com isso, os alunos foram relegados a segundo plano, o que se caracteriza como uma inversão de prioridades.

A função da escola, afinal, não é atender às demandas dos pais. Em muitos sentidos, pelo contrário. Os professores devem concentrar energias no desenvolvimento dos seus alunos. Para Rosely Sayão, uma das funções da escola é ajudar o jovem a se libertar dos pais. Por ser o espaço em que se relaciona com outras pessoas, ele pode experimentar ser diferente do que é ou deve ser em casa. Expandindo o raciocínio, a autora aproveita para cutucar pais e professores:


Valéria Amorim, professora da Faculdade de Educação da USP: "uma pessoa aprende a ser generosa sendo"

"Tudo o que essa geração de adultos queria, quando jovem, era livrar-se da família. E não é que eles hoje querem cada vez mais família para a nova geração?", escreve ela, referindo-se à confusão de papéis entre família e escola. Lembrando que o aprendizado ocorre com prazer e com dor, a psicóloga sustenta que, ao invadir o espaço escolar, os pais, na ilusão de atenuar o sofrimento e a dor do filho, acabam com a construção da sua autonomia. "Nossa geração talvez tenha de aprender a suportar o lugar de testemunha da dor do crescimento da nova geração, tanto quanto ser protagonista da própria dor", vaticina.

Alheia aos conflitos existenciais que assolam pais e professores, a nova geração está aí. E precisa ser educada, ascendendo ao centro do palco. "Você não forma o cidadão do futuro. Ele já é esse cidadão", resume Olga Santana. É alguém que cresce bombardeado por estímulos, com fácil acesso à informação. E que deve aprender a se orientar nessa overdose de símbolos e mensagens. "É missão da escola impedir que as pessoas fiquem ‘submersas nas ondas de informação, mais ou menos efêmeras, que invadem os espaços públicos e privados’", afirma Nádia Bossa, citando o Relatório Jacques Delors, que leva o nome do coordenador da Comissão Internacional sobre Educação para o Século 21, da Unesco, que definiu os quatro pilares da educação ao longo da vida: aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser. Cabe a pais e escolas acompanhar o desenvolvimento da nova geração, contribuindo para a construção de sua autonomia, com consciência social e autocrítica, para aprender as competências da cidadania no século 21.


Educação em valores

A efetiva formação dos alunos passa pela educação para formação de valores, talvez a mais controversa questão envolvendo família e escola. "No Brasil evita-se falar em educação moral", afirma Ulisses Araújo, consultor do Ministério da Educação no programa "Ética e cidadania: construindo valores na escola e na sociedade". Mas o que vem a ser educação em valores, e o que a escola pode fazer para participar desse processo, normalmente tido como de responsabilidade dos pais?


Para a educadora Olga Santana, ao tratar os pais, e não os alunos, como seus clientes primeiros, escolas operam uma inversão de valores

Para Josep Maria Puig, professor titular de Teoria da Educação da Universidade de Barcelona e coordenador do Grupo de Pesquisas em Educação Moral (Grem), é preciso entender a origem da moralidade. "Por que o ser humano é moral? Viemos ao mundo inacabados, muito plásticos. Podemos ser acabados de maneiras distintas, e decidir como queremos viver. Como educadores, devemos ajudar as pessoas para que construam uma forma de vida que as deixe felizes e que seja socialmente justa", defende Puig.

O teórico espanhol lança mão de uma paráfrase metodológica da recomendação da Unesco ao estruturar em quatro pilares a sua visão da educação em valores. "É preciso aprender a viver, ter auto-ética, que nos ajude a ser críticos, a nos auto-realizarmos; desenvolver também uma alter-ética, que vá contra o egocentrismo para construir empatia e altruísmo; além disso, devemos participar, ter uma vida em comum, fazer parte de uma coletividade; e, por fim, habitar o mundo, ter uma ética universal, de responsabilidade, uma eco-ética, cosmopolita, não só com os próximos, mas com os que estão longe", diz ele.

Puig aponta três caminhos para esse aprendizado. O primeiro é interpessoal, e está relacionado à construção de laços de afeto entre professores e alunos. "Não é possível educação moral sem afeto". Em segundo lugar, diz , deve-se ensinar a dialogar: "quando dialogamos, supomos que não temos toda a verdade". E, finalmente, é necessário desenvolver uma relação de cooperação. "Aprendem-se valores fazendo coisas junto, participando, com outras pessoas, em projetos coletivos que beneficiem a sociedade. Isso é aprender valores", define.

Quando questionado se ocorre destruição de valores pelas instituições políticas ou pela imprensa, Puig diz que "as mídias parecem trabalhar contra a escola". Cabe à escola resistir: "Temos de seguir com o nosso trabalho. Podemos influir tanto ou mais que a televisão. A criança passa mais horas na escola que em frente à televisão. Uma boa experiência escolar é difícil de destruir. Educação em valores não é questão de quantidade, mas de qualidade. Há coisas que valem para sempre", conclui.

Ulisses Araújo é menos benevolente com a escola. "Também sou otimista, mas acho que o trabalho tem de ser feito aqui e agora. A escola precisa se transformar, precisa se abrir, sair do pedestal. O problema da escola no Brasil é estar fechada nela mesma. Ela precisa romper com esse egocentrismo", defende ele, que baseia sua teoria (e prática) de educação em valores na Declaração Universal dos Direitos Humanos. E os valores, são universais? "Não trabalho com essa concepção, embora muita gente acredite nisso. Apesar de reconhecer certa universalidade, não caio nessa de tudo pode, tudo vale. Há o certo e o errado. Não dá para colocar na mesma balança violência e generosidade", conclui.


Na escola, os valores individuais devem se submeter ao coletivo, diz Ulisses Araújo, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP Leste

E como se ensinam valores? Rosely Sayão acredita que cabe à escola a formação para a cidadania e o ensino de "regras de convivência social e valores éticos na prática, na vivência dos alunos". Já Ulisses defende a utilização dos temas transversais, nas aulas de português, enquanto Valéria Amorim Arantes segue o exemplo de Puig: "Uma pessoa aprende a ser generosa sendo", diz ela, para quem o risco da educação em valores é cair no moralismo. Em tempo: e a família, como fica nessa história?

"Não dá para educar fora de valores seus. Educação é feita por ações, não por intenções. A ação não está batendo com a intenção, por isso tem tanto filho perdido", resume Olga Santana. Seria essa a deixa para um inevitável entrelaçar de dedos entre família e escola, entre pais e professores, com o único e nobre objetivo de, cada um na sua seara, contribuir efetivamente para a educação da nova geração? Ainda há tempo..




O NOVO TEMPO DO TRABALHO

Foi-se o tempo em que estudar e se especializar era garantia de um futuro material tranqüilo. "O fracasso não é mais a perspectiva normal apenas dos muito pobres ou desprivilegiados; tornou-se mais conhecido como um fato regular nas vidas da classe média", afirma, Richard Sennett em A Corrosão do Caráter: Conseqüências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo (Record, 2004).

Estudioso das mutantes configurações do trabalho no flexível capitalismo global, Sennett, professor de Sociologia da London School of Economics, aprofundou suas indagações em trabalho posterior, A Cultura do Novo Capitalismo (Record, 2006), que reúne conferências realizadas na Universidade de Yale sobre ética, política e economia. No segundo capítulo do livro, intitulado "O talento e o fantasma da inutilidade", a autor põe o dedo na ferida. Partindo de duas indagações – Que significa capacitação, ou, de maneira mais abrangente, talento? Como pode o fato de uma pessoa ser talentosa traduzir-se em valor econômico? – ele logo diz que não apresentará respostas, apenas esclarecerá alguns problemas.

"No início da era industrial", diz , "apenas pouquíssimos trabalhadores tinham acesso à educação superior; a mobilidade para cima era rara". Embora nos países ricos isso não seja mais a regra, um novo fantasma ronda os cidadãos com elevado nível educacional: o de não encontrar trabalho, exatamente como os peões que buscavam emprego em plena Depressão da década de 1930.
 
"A economia das capacitações continua deixando a maioria para trás; o que é pior, o sistema educacional gera grande quantidade de jovens formados mas impossíveis de empregar, pelo menos nos terrenos para os quais foram treinados", observa Sennett. Para ele, isso ocorre em função da própria lógica do novo capitalismo, a qual, entre outras coisas, busca mão-de-obra mais barata em qualquer lugar do globo e, em vez de valorizar experiência, opta por profissionais mais jovens, com "potencial de crescimento", mais adaptados às empresas flexíveis de hoje. E, com isso, hordas de pessoas educadas são "deixadas no limbo", por serem consideradas "carentes de recursos internos". A radiografia apresentada por Sennett é indigesta, talvez por ser pungentemente real. Nunca é demais lembrar que o universo estudado é o dos países ricos…

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