Entre anônimos e esquecidos

Museu da Pessoa estimula estudantes a resgatar histórias de familizares, vizinhos e moradores da comunidade local

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Sérgio Rizzo




Ainda há quem acredite, talvez por força do hábito adquirido na escola, que a história só pode ser contada por seus personagens mais famosos – aqueles que governaram países, formularam avanços científicos ou criaram obras-primas. Mas, graças à crescente popularização dos conceitos da história oral, já não é mais tão difícil encontrar quem compreenda que todo e qualquer ser humano, anônimo ou célebre, tem o direito de eternizar sua trajetória de vida e integrar sua história à memória social.







A preservação de cada uma, transformada em informação que possa ser documentada, consultada e integrada à de outras pessoas, reforça a identidade de grupos da sociedade, promove a auto-estima e, com isso, gera potencial para mudanças sociais.





Foi por acreditar nisso que um grupo de pesquisadores criou, em 1991, o Museu da Pessoa, em São Paulo. Desde então, montou-se um acervo que reúne hoje mais de 4 mil depoimentos gravados e 5 mil fotos digitalizadas. Desenvolveu-se também um método diferenciado de coleta e sistematização de informações. Em 2001, para ampliar o impacto social do trabalho, surgiu o Instituto Museu da Pessoa.Net, constituído como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, que tem o objetivo de multiplicar e democratizar o acervo e a metodologia, implantando uma rede de memória virtual.




Ainda em 2001, teve início uma parceria do Museu da Pessoa com o Instituto Avisa Lá, ONG que trabalha com a formação continuada de professores, para desenvolvimento de projetos de história oral em escolas públicas. “A idéia de trabalhar com crianças era interessante porque, além de aprenderem como fazer, teriam, no fim, um produto voltado para a história local”, explica Sonia London, diretora do Museu da Pessoa.

Durante os últimos três anos, alunos e professores de cinco cidades, em três diferentes Estados, foram apresentados a conceitos fundamentais para o trabalho de coleta de informações e, em seguida, preparados para realizar entrevistas e registrá-las.



“A memória e a integração com a comunidade são assuntos que começam a surgir na escola. Mas, no Brasil, ela [
a escola

] ainda é muito fechada em si mesma”, observa Silvia Pereira de Carvalho, coordenadora executiva do Avisa Lá. Os projetos de história oral implantados pela parceria entre as duas instituições costumam trabalhar inicialmente com a sensibilização dos professores, que dizem, ao final, se querem ou não participar.

Depois, eles escolhem os temas e preparam o roteiro de entrevistas ao lado de seus alunos, que vão a campo em busca de informações. Ouvem pais, vizinhos, comerciantes e quem mais julgarem pertinente para a recuperação da memória do bairro ou da cidade. A etapa seguinte envolve a organização e divulgação desse material.

“Os pais entram na escola de outra forma, a convite das crianças. E trazem um saber que a escola não tem, sobre a comunidade”, destaca Sonia. “Quando um projeto entra na escola, fica sendo apenas mais um. Com o envolvimento, no entanto, todos passam a enxergá-lo com um conteúdo capaz de integrar leitura, escrita e história. Então, ele incorpora-se à prática pedagógica”, acrescenta. A inclusão digital também é contemplada pelos projetos de história oral na educação, graças à inserção das informações em rede pelas próprias crianças. A empresa IBM doou computadores às escolas.


Outro resultado do trabalho, de acordo com Silvia, é o de “descobrir que as crianças são capazes e competentes”. “É incrível, mas muita gente não acredita nisso. É um espanto para muitos professores, que partem do princípio de que elas não sabem nada. Nosso princípio é o contrário: vamos ver primeiro o que as crianças sabem. Além disso, não se pode esquecer que os professores desenvolvem competências em leitura e escrita”, afirma.



 





Serviço






Museu da Pessoa



Site: www.museudapessoa.net




 


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