Ensino em parceria

Regime de terceirização nas escolas envolve aulas de idiomas, de educação física, de informática e até de robótica

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A partir dos anos 70, um grande número de organizações passou a delegar o funcionamento de alguns de seus setores a outras empresas, com o objetivo de reduzir custos e aumentar a eficiência. Serviços de almoxarifado, segurança e alimentação de funcionários começaram então a ser terceirizados. A tendência virou coqueluche mesmo a partir dos anos 90, quando a responsabilidade por sistemas de transportes e de informatização, entre outros, também foi entregue a empresas especializadas. A quantidade de prestadores de serviços cresceu vertiginosamente.

Hoje, a terceirização tornou-se negócio lucrativo e alcançou também o nicho educacional. Com o objetivo de oferecer novos atrativos aos pais dos alunos, muitas instituições de ensino têm promovido parcerias com escolas de línguas e de informática, e também com academias de educação física. Em casos mais radicais, as empresas contratadas têm obrigações intracurriculares. As aulas de língua estrangeira da matriz curricular, por exemplo, ficam inteiramente a cargo da conveniada, inclusive no que diz respeito a avaliação e controle de freqüência.

Quem aposta na terceirização acredita que ela é uma maneira de modernizar o ensino dentro das escolas. Caio Aguirre, mantenedor do Instituto Politécnico de São Gabriel d´Oeste (MS), colégio de ensino médio, é um deles.”Atualmente, existe um erro de interpretação dos diretores e professores quanto à filosofia de ensino de língua nas escolas”, diz. “Para aprender inglês e espanhol, a gramática não importa tanto, o que importa é a conversação. Devemos ter aulas dinâmicas. No sistema vigente, o aluno é obrigado a decorar várias regrinhas e detalhes gramaticais profundos. No final das contas, nada se aprende.” Aguirre fez uma reforma pedagógica no colégio e elegeu a terceirização de ensino como uma de suas principais metas.

O Colégio Quasar, de Rio Verde (GO), optou há dois anos pelo formato intracurricular de terceirização. “Até agora, estamos satisfeitos com o resultado”, afirma Gizele Braz, secretária de coordenação. “Tínhamos uma carência no ensino de inglês. Os professores do colégio viram que essa deficiência seria suprida se contratássemos uma escola particular. E agora notamos uma grande diferença nos alunos. Mudou para melhor.” Ali, a eventual reprovação na disciplina terceirizada não interfere com as demais.

Algumas escolas fazem ressalvas, no entanto, à opção intracurricular. “As escolas de inglês têm exigências diferentes das nossas”, pondera Tobias Ribeiro, diretor pedagógico da Unidade Paineiras do Curso e Colégio Integral, em Campinas (SP). “Elas lidam com grupos pequenos, enquanto nós temos salas de até 40 alunos, em que uns sabem inglês e outros não, uns têm medo de inglês e outros não. São dificuldades naturais, difíceis de conciliar.” No início do ano, Ribeiro firmou parceria com uma escola de inglês para oferecer o curso de forma extracurricular.

“A adesão, para um primeiro momento, foi interessante”, avalia. “Fizemos três turmas de oito a dez alunos, o que para um início de trabalho está bom. Mas acho que ainda precisamos ter mais conhecimentos tecnológicos, usar mais programas de informática, projeções de multimídia.” A Unidade Paineiras do Integral oferece, há dois anos, curso extracurricular de teatro; desde agosto de 2004, aumentou a oferta com jazz, karatê e guitarra. “O aluno tem que ficar na escola, isso facilita para os pais”, acredita Ribeiro.

Na opção extracurricular da terceirização, a escola cede um espaço físico fora do período normal de aula. O centro de idiomas oferece um desconto especial para alunos daquele colégio, que pode chegar a 70% do valor cobrado no mercado. O professor vai até o local e ministra as aulas nos moldes utilizados em suas turmas normais, inclusive com apostila própria. Principal diferença: as classes não são as mesmas das aulas convencionais. As turmas se dividem de acordo com o grau de conhecimento dos estudantes. Assim, alunos de 12 a 14 anos podem estar nas mesmas turmas — que, geralmente, não chegam a 20 alunos. Todo o sistema de notas e aprovação fica por conta da contratada.

É o que acontece também com o Colégio Seleção, de Recife (PE). Saulo Ramos é um dos nove sócios. Foi ele quem conheceu o estande de uma escola de idiomas durante feira de empreendedorismo em educação e chamou representantes da empresa para uma conversa. Cauteloso, preferiu apostar apenas no convênio extracurricular. “Penso que não dá para colocar a escola de idiomas substituindo as aulas de inglês convencionais”, explica. “São coisas diferentes: com os professores do Seleção, o aluno aprende o conteúdo de inglês para o vestibular. Com os professores da escola conveniada, pagando uma taxa a mais, embora com desconto, ele aprende a se comunicar em inglês.”


Alienígenas –

“Existe uma espécie de tabu dentro do ambiente escolar no que diz respeito aos professores de inglês”, observa Lauro Gisto Xavier, diretor pedagógico da Skill, que atua no mercado de convênios entre colégios e escolas de línguas. “Normalmente, eles não fazem parte dos projetos político-pedagógicos. Os professores de geografia e história costumam promover atividades fora do ambiente da sala de aula, por exemplo. Os de inglês, não. E é muito comum que eles cedam espaço da sua aula para que outros professores promovam suas políticas. Logo, acabam sendo como alienígenas dentro desse ambiente. Daí ser necessário renovar o ensino de idiomas com os convênios.”

Xavier aponta a terceirização de idiomas – intra e extracurricular – como instrumento de modernização das escolas. “Com ela, a instituição de ensino, dentro do conceito escola-empresa, só tem a ganhar. É comum, hoje, um colégio não ter tempo de investir nele mesmo, com os milhares de afazeres que existem ali. Então, o diretor procura quem tenha
know-how

sobre o assunto. O colégio ganha como empresa, fica mais eficiente porque oferece melhor serviço”, diz.

Da perspectiva das escolas de línguas, a visão do cenário atual vai do otimismo ao ceticismo. A Skill, por exemplo, pensa alto. “Temos 120 escolas conveniadas pelo Brasil, somando intra e extracurriculares”, afirma Carlos Eduardo Pereira, gerente de expansão. “Desde 2000 oferecemos esse tipo de serviço, mas somente agora pensamos em uma estratégia de marketing ofensiva. A meta é dobrar esse número até o fim do ano, e passar das 500 escolas conveniadas até 2010.”

Nem todas, porém, têm visão tão positiva. O CNA mantém um pé atrás e ainda não entrou no setor intracurricular. “Queremos ensinar inglês dentro dos critérios mínimos exigidos por nós”, afirma Silvio Montesani, gerente de marketing. “Se não for assim, não assinamos contrato com as escolas. Não queremos colocar em risco a qualidade das parcerias. Isso é fundamental para nossa marca.” A cautela não significa que o CNA não entrará no mercado intracurricular. “Por enquanto, não estamos nesse ramo porque enxergamos que não vale a pena. Mas isso poderá mudar no futuro. Estamos apenas em
stand-by

“, explica.


Útil ao agradável –

Escolas de ensino fundamental e médio têm optado por oferecer aulas fora da grade curricular obrigatória para agradar tanto os alunos quanto os pais. É o que tem ocorrido na escola St. James, em Londrina (PR). A diretora Márcia Yumi Kobayashi investe para aumentar o leque de opções, que vai de convênio com academias para a prática de esportes até a extensão das aulas de física. “Convênios são uma tendência interessante”, acredita Márcia. “Apresentamos mais opções de aprendizado aos alunos por preços acessíveis. Hoje, os pais não têm mais tempo de levar os filhos da escola para o inglês, do inglês para a informática. Se a escola conseguir oferecer tudo isso, tanto ela quanto os pais saem ganhando. Eles deixam os filhos o dia todo conosco e ficam tranqüilos.”.

A St. James trabalha com a terceirização do ensino de línguas e da prática de esportes, mas a principal novidade é o curso de robótica. A direção da escola firmou contrato com a Didaki, empresa especializada em ensino de física para estudantes de ensino fundamental. “Quando firmamos contrato, a instituição de ensino cede um espaço físico onde montamos um laboratório de robótica, com tudo a que ele tem direito”, explica Roberto Mathias Sufin, engenheiro responsável pela experiência, que já funciona de maneira terceirizada em quatro escolas do Paraná.

Os professores que dão essas aulas podem ser da própria escola ou da Didaki. Os estudantes que se interessam pagam R$ 90 por mês para formar turmas de oito alunos, no máximo. O desafio de cada módulo semestral é montar um veículo para disputar uma competição estudantil. Em 2004, a competição promovida pela Didaki envolveu barcos fabricados pelos alunos. Todo ano o veículo muda.

“A procura pela aula de robótica explodiu, faz muito sucesso entre os alunos e seus pais”, garante Márcia. “Entendo que terceirizar, hoje, é o caminho para buscar qualidade”. Mathias cogita expandir o projeto. “No momento, não penso em fazer das aulas de robótica uma substituta para as aulas de física na matriz curricular. Mas, a longo prazo, isso também pode acontecer”, diz.


Queimando gordura –

A educação física ainda é um problema para muitas escolas. Grande parte delas não tem espaço adequado para a prática; outras não enxergam a disciplina como prioridade. Foi justamente pensando nessa brecha que Luiz Gustavo Kohn e José Maria de Campos, sócios da Global Health, passaram a olhar com carinho para o nicho educacional a partir de 2004. Explica-se: a empresa, sediada em São Paulo, presta serviços na área de esportes e educação física para empresas, envolvendo desde ginástica laboral até projetos de montagem de academias.

Agora, trabalha também com escolas. “Não temos pretensão de concorrer com os professores”, afirma Kohn. “Queremos aproveitar a nossa experiência em consultoria para capacitar professores das escolas que nos solicitarem, ou treinar equipes de alunos para competições.”

Em São Paulo, o colégio St. Nicholas entendeu que suas dependências estavam por demais acanhadas para a prática de educação física e contratou os serviços da Fórmula Academia, que cede seu espaço para os alunos e professores. As aulas de ginástica são ministradas em inglês, conforme norma da escola para todas as disciplinas. Carla Strafacci, diretora de marketing do St. Nicholas, diz que a parceria resolveu o problema. “A academia fica a três minutos do colégio. Os alunos vão até lá e voltam no ônibus da escola. O resultado tem sido positivo e agradado aos pais”, diz.

“Os professores do St. Nicholas ficam à vontade para utilizar as dependências da academia”, garante Adriana Souza, gerente de marketing da Fórmula. “Fornecemos até as toalhas, e nossos instrutores dão o apoio necessário. Mas nada além disso. Temos instrutores aprendendo inglês e, no futuro, talvez possamos firmar convênio para também ministrar as aulas.”


Informatização –

Em São Paulo, o diretor do Colégio Ofélia Fonseca, Sérgio Brandão, buscava uma maneira de tornar as aulas mais agradáveis para os alunos e descobriu um sistema em que a aula pode ser preparada em um programa de computador, o ConectRede, desenvolvido pela Rede Ensinar. O colégio comprou então os direitos de utilização. Luiz Otávio Gaspar, sócio da Rede Ensinar, diz que o objetivo do software é aumentar a interatividade entre aluno e o objeto a ser estudado.

“O professor prepara a aula como quiser: pode colocar textos, fotos, apresentação em PowerPoint”, explica. “Se o aluno perder a aula, pode acessar o ConectRede em casa e assistir à aula.” O colégio precisou também capacitar os professores para utilizar o software. Foi então que Sérgio Brandão contratou outra empresa, a SOMAI, consultoria que se responsabiliza pelo trabalho de reciclagem dos professores. “Não há um acréscimo direto na mensalidade para os alunos. E trazer essas empresas agregou valor ao Ofélia”, diz.





Reportagem: Fernando Vives




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