Ensino da mídia

Em análise sobre o ensino médio, autor fala sobre superexposição do Enem na imprensa e a falta de atração da carreira docente

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 O livro de Moaci Alves Carneiro, O nó do ensino médio, sistematiza de forma precisa a denúncia que os pesquisadores do mundo acadêmico e os que atuam nos movimentos sociais vêm constatando ao longo da história da educação brasileira.

O estado de calamidade deste que é considerado o “patinho feio” da Educação Básica é mostrado no trabalho do autor que, de forma articulada, faz um exame racional das condições precárias da educação pública no Brasil e a forma como vêm sendo conduzidas as políticas voltadas para a última etapa da Educação Básica. São situações que têm contribuído para aprofundar o apartheid educacional na nossa sociedade, fato reiterado pelo autor quando afirma que o Brasil “jamais planejou um ensino médio para receber alunos de classes populares”.

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Um dos aspectos que nos salta aos olhos é a crítica feita ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), criado na década de 1990 para servir de base – por meio de seus resultados – para a construção de políticas públicas que melhorassem a qualidade do ensino público nesse nível. Entretanto, o que temos assistido é uma desconexão entre o pensamento do Ministério da Educação e a atual configuração do Enem, que, ao abandonar os princípios teórico-metodológicos que fundamentaram a sua proposta, se converteu num simples exame de vestibular e um forte instrumento de propagação na mídia. Nos principais veículos do país, 74% do que é publicado nas editorias de educação é sobre o exame.

É nesta perspectiva que o Enem/vestibular – expressão usada pelo autor – transformou o ensino médio em ensino da mídia. Os rankings divulgados anualmente não só acirraram a competição entre as instituições privadas, beneficiando-as do ponto de vista institucional e mercadológico, como comprovaram a fragilidade pedagógica das redes públicas estaduais que, na maioria das vezes, impede seus alunos de disputar em condições de igualdade as vagas mais concorridas das universidades públicas.

O autor dedica um espaço no seu trabalho para enfatizar o problema da escassez de professores de matemática, física, química e ciências biológicas, justificando-a pela falta de atratividade da carreira docente, os baixos salários e as péssimas condições de trabalho a que são submetidos nas redes públicas.

O nó do ensino médio, portanto, poderá contribuir para a reflexão sobre o tema nos cursos de licenciaturas das universidades, bem como orientar os gestores públicos na formulação de políticas consistentes para o setor.

*Jailson dos Santos, doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense e professor da Faculdade de Educação da UFRJ.

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