Embarque para o mundo

A tríplice operação proporcionada pelo ato de ler: desencadear, descortinar, descomplicar

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Passageiros no aeroporto de Hanói, no Vietnã


Os livros podem atuar como desencadeadores e/ou descortinadores e/ou descomplicadores. Vejamos primeiramente sua ação como desencadeadores. Uma história, ou uma metáfora, ou um diálogo fictício, ou uma rima podem retirar o cadeado. Esse desencadeamento pressupõe uma situação de "prisão" ou de "tolhimento". Teremos de admitir que linhas de raciocínio, disposição para certas descobertas ou determinados processos emocionais estão encadeados dentro de nós. Tais cadeados podem e devem ser abertos.

Franz Kafka (1883-1924) escreveu em certo ponto de sua obra: "Tu és a tua própria lição de casa". Dizia isso a si mesmo, era um pensamento íntimo que se tornaria público. Assumiremos sua voz e repetiremos a frase para nós mesmos. Essa frase atuará como desencadeadora. No momento em que uma pessoa se torna sua própria lição de casa, decide as tarefas essenciais a realizar, os objetivos existenciais a atingir.

É claro que há um preço a pagar nisso tudo. Quando alguém se torna sua própria lição de casa, não terá como acusar os outros dos seus fracassos. Não ficará esperando que alguém lhe diga tudo o que deve fazer. Está aí uma frase que desencadeia processos de amadurecimento.

Definir-se e comportar-se como sua própria lição de casa significa descobrir a senha que desencadeia a liberdade. A liberdade de escolher, mesmo quando os caminhos são estreitos, mesmo quando os recursos são escassos. A liberdade de aprender com os próprios erros, e de pensar por conta própria (como se fosse possível pensar "por conta alheia"…)


Abram-se as cortinas!


Como descortinadora, a leitura educa nossa visão, abre-nos novos palcos, convida-nos a conhecer dimensões ainda não visitadas.
A sempre sugestiva analogia entre leitura e viagem cabe aqui também. Embarcados no livro, sobrevoamos nossas circunstâncias, elas agora estão incluídas num panorama mais vasto e mais complexo. Essas circunstâncias perdem a sua imediatez. Descortinamos a relatividade do que nos assusta, a relatividade de nossas urgências. Ou descobrimos novas urgências.

O cientista Richard Feynman (1918-1988) pensava que o papel de um educador, de um comunicador, de um cientista também, é o de ensinar maravilhas. Etimologicamente, "maravilha" é tudo aquilo que miramos com os olhos arregalados, querendo que beleza e conhecimento entrem em nós aos borbotões. Abrimos a boca, os braços, o coração.
Uma leitura maravilhosa abre as cortinas e renova a nossa visão de mundo.

Pensemos numa categoria de jovens e de adultos desengajados. Pensemos numa atitude "nem-nem": nem isso nem aquilo, nem do passado nem do futuro, nem próximos nem distantes, nem frios nem quentes, nem por dentro nem por fora, nem real nem virtual…

Uma leitura educadora desfaz esse impasse de vida. Um romance (ainda não traduzido entre nós) como Por dónde sale el sol ("Onde nasce o sol"), de Blanca García-Valdecasas (1936-), conta a história de um pintor que, impulsionado pela esposa, sai da Espanha e vai com a família morar no Chile. Vai conhecer novas paisagens e novas cores para renovar seu estilo, há muito estacionado em temas e procedimentos. As aventuras cotidianas de um europeu em terras sul-americanas são marcadas pela promessa de reencontrar a beleza, o gosto, a alegria de criar. Não acontecem grandes coisas na história, mas sentimos o efeito descortinador na vida de alguém que busca um novo nascimento.


A descomplicação não é nada simples…


É simples complicar, o complicado é simplificar. Uma leitura descomplicadora não é simplista. A simplicidade autêntica faz da complexidade um caminho que se pode percorrer. A simplicidade não elimina paradoxos, coisas absurdas e incertezas. Mas faz com que aceitemos como reais, e de certo modo belas, as incertezas, as coisas absurdas e os paradoxos.

"Texto livre", do escritor francês Bernard Friot (1951-), do seu livro Histoires pressées ("Histórias apressadas") é um bom exemplo de literatura descomplicadora:


Domingo, fui na casa do meu tio e da minha tia. A gente comeu frango com batata frita.
Depois a gente foi no zoológico
e a gente viu o tigre na jaula.
Que dia legal!
Segunda, fui na casa do tigre.
A gente comeu o meu tio e a minha tia com batata frita.
Depois a gente foi no zoológico
e a gente viu o frango na jaula.
Que dia legal!
Terça, fui na casa do frango com batata frita. A gente comeu o tigre. Depois a gente foi no zoológico e a gente viu o
meu tio e a minha tia na jaula.
Que dia legal!
Etc.

A naturalidade com que o narrador conta sua história nos liberta, pela via surrealista, de nossas confusões mentais. A imaginação passeia tranquilamente e experimenta, sem medo, as diferentes possibilidades que as palavras nos oferecem.

O "etc." nos convida a seguir em frente: domingo, segunda, terça… cada dia da semana será sempre um dia legal.


Gabriel Perissé


é doutor em filosofia da educação (USP) e professor do Programa de Mestrado da Universidade Nove de Julho (SP) (



www.perisse.com.br



).

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