Em nome da integridade e da auto-estima

Pianista portuguesa cria escola-modelo de ensino básico, com ênfase nas artes e em valores comunitários, e planeja unidade na Bahia

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Além de ensinar a ler e a escrever, uma escola tem a obrigação de formar cidadãos capazes de se exprimir por meio da música, da dança, da escultura. Essa idéia é aplicada pela pianista portuguesa Maria João na pequena escola que criou, em 2000, na Beira Baixa, região central de Portugal. O conceito de que toda criança deveria crescer rodeada de arte poderá chegar em breve ao Brasil: ela planeja, ainda para 2005, a instalação de uma instituição com perfil semelhante na Bahia.

Na Escola da Mata, crianças de diferentes idades, alunas da 1ª à 4ª série, convivem na mesma classe. As regras de disciplina variam de acordo com a auto-reflexão de cada estudante e artistas convidados pelo centro se tornam professores de conteúdos variados. O ensino é gratuito e em intenso contato com a natureza.

O projeto se apóia-se em dois pilares: a presença das artes na educação básica, inclusive na alfabetização, e uma consciência ativa dos valores da comunidade em que a escola se insere. “Assim, pretendemos acrescentar uma abordagem séria e criativa aos programas curriculares, oferecendo um ensino que possa desenvolver nas crianças valores consolidados de integridade e auto-estima”, explica Maria João.

No dia-a-dia, as aulas se caracterizam por tentativas de inovação. Mais do que apenas proposta pedagógica, a interdisciplinaridade é a base para a dinâmica das aulas. A cada dois meses, por exemplo, a escola convida para uma visita um artista expressivo de alguma parte do mundo, que assume o desafio de trabalhar seu conhecimento com as crianças.

“Durante esse período de convivência, os alunos têm contato com a obra do artista e com os costumes e histórias do seu país. Há pouco tempo, recebemos um artista indiano. Enquanto ele estava conosco, as crianças estudaram a geografia e a história da Índia, aprenderam quais são os animais que vivem lá, as comidas, as religiões, as roupas, a moeda”, conta. “Além de ser um aprendizado muito rico, elas crescem sem idéias de racismo ou preconceito porque se acostumam a escutar e a olhar com atenção aquilo que é diferente a elas.”

A quinta (espécie de sítio) da pianista onde funciona a Escola da Mata — projeto que integra o Centro para o Estudo das Artes de Belgais — é cercada de vegetação típica da região e aves canoras. Com a ajuda de patrocinadores e de recursos do governo, são atendidas 20 crianças carentes, entre 6 e 10 anos, que têm aula na mesma classe para que o trabalho em grupo e a solidariedade sejam estimulados. “Os maiores ajudam os menores. E a música, as danças, as artes plásticas estão presentes em todas as disciplinas. Até na alfabetização. As pessoas têm muitas habilidades e é papel da escola dar chance para que todas possam se desenvolver.”

A pianista acredita que toda criança tem que saber ouvir, aprender a dar e a receber. “Não queremos formar futuros artistas, embora até possamos ajudar futuros artistas a trabalhar. Mas queremos preparar as crianças para a vida, com um alimento espiritual importante que é a arte”, afirma. “Para ser feliz, uma criança necessita de disciplina e motivação também emocionalmente. E isto pode ser oferecido por meio das várias formas de representação artística.”

Para Maria João, as artes podem, ainda, auxiliar no ensino de outras disciplinas porque ajudam a desenvolver a concentração, o raciocínio e a disciplina – que, ali, envolve raciocínio incomum. Partindo de um princípio liberal, os educadores do colégio estimulam os estudantes a buscar a auto-disciplina, tendo como base regras gerais.

“Incentivamos os alunos a pensar, a refletir sobre suas ações e a chegar a conclusões sobre seu modo de agir”, diz. “Fazemos isso com muita conversa e por meio de exercícios de respiração e de meditação. Foi assim que desenvolvi meu trabalho com o piano e acho que é um bom caminho. Quando a gente pára e pensa no que faz, enxerga melhor os erros e acertos”.

De acordo com a pianista, é possível notar grandes mudanças de comportamento nas crianças. “Alguns dos nossos alunos eram muito agressivos quando chegaram e hoje são calmos, equilibrados.” Para dar aula na Escola da Mata, os professores não precisam ser artistas, e sim educadores que gostem de artes, passando por estágios no colégio e por orientações com psicólogos. “Aqui, não basta acreditar no projeto pedagógico. Ele precisa ser parte da filosofia de vida do professor.”

Maria João acredita que é hora de multiplicar a experiência da escola. E escolheu o Brasil para abrir a segunda unidade do colégio em virtude da riqueza cultural do país. “Vamos criar uma escola em uma cidade próxima a Salvador, porque acredito que o Brasil é um país aberto. Acho que a proposta será bem recebida por pais e educadores brasileiros.”

Agora, a pianista está em busca de parceiros e patrocinadores para que as atividades possam ser gratuitas. “O mais fascinante de todo esse trabalho é ver a mudança das crianças, o aprendizado e o crescimento delas”, diz. “Acompanhar suas descobertas é maravilhoso. Adoro perceber como são capazes de mostrar a beleza interior e de se expressar pela arte. É uma oportunidade que toda criança deveria ter e queremos estendê-la a estudantes brasileiros.”




Reportagem: Daniela Tófoli




Saiba mais:



www.belgais.net


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