Em escola aberta, violência não entra

Gestores públicos mudam a realidade de suas comunidades

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Grafite estampado no muro da Campos Salles (à esq.) e alunos da escola em atividade nos finais de semana


A crescente expressão da violência nos grandes centros urbanos apresenta para os educadores mais um desafio em seu trabalho cotidiano: transformar as escolas em centros de liderança e compromisso com o saber capazes de alterar esse panorama. Os projetos pedagógicos que têm essa perspectiva apontam para duas direções, paralelas e complementares: a interação da escola com a comunidade e o entendimento do aluno como agente na dinâmica de ensino.


Esse é o caso da Escola Municipal de Ensino Fundamental Presidente Campos Salles, em Heliópolis, periferia da zona sul de São Paulo. Após perder uma aluna de 16 anos assassinada a tiros ao sair da escola, o diretor Braz Rodrigues Nogueira decidiu que era hora de tomar uma atitude. "A gente não conseguia realizar uma ação concreta porque tinha medo. Em 1999, houve o assassinato de Leonarda, uma menina sociável e alegre. Fui ao velório com um professor, e me senti omisso. Eu olhei para ele e disse: ‘Vamos  organizar uma caminhada de protesto?’", conta Nogueira.


Ele procurou também a liderança comunitária do bairro, no intuito de transformar a tragédia em uma oportunidade de promover a cultura da paz em Heliópolis. O resultado foi a união de 2 mil pessoas, de dezenas de entidades locais, na Marcha pela Paz, passeata que agora ocorre todos os anos, e, em junho de 2006, contou com mais de 10 mil participantes. O evento mobiliza a comunidade e gera um intenso debate sobre o tema. "A escola tem que ser um centro de liderança na comunidade em que atua, articulada a outras instituições, como a Igreja e a família. Deve contribuir para melhorar as relações. Os problemas da escola são os problemas da comunidade", diz o diretor.


Em Heliópolis, esses problemas não são poucos. Numa região de aproximadamente 1 milhão de metros quadrados, estão concentrados mais de 125 mil habitantes, a maioria carente de serviços básicos de saúde, habitação, transporte e lazer. Outro problema é o tráfico de drogas nos arredores da escola. Apesar das adversidades, Nogueira não tem uma visão paternalista nem vitimiza a condição da escola que dirige: "Quem tem afinidade com a comunidade dificilmente vai ter problema com o tráfico. Os filhos, os sobrinhos, os parentes deles estão aqui. Qual é o interesse deles em atacar a escola?"


Entre os temas que passaram a ser discutidos mais abertamente estava o próprio projeto pedagógico da escola. Preocupado em trazer para o cotidiano o imaginário criado em torno da escola, o diretor focou sua pesquisa de extensão acadêmica na elaboração de uma nova proposta que valorizasse a autonomia, a responsabilidade e a solidariedade na relação entre alunos e professores. "A escola comete uma violência diária contra o aluno, ao desprezar o saber que ele traz e impor um novo conhecimento que não lhe interessa, artificial, que não tem nada a ver com a vida dele", diz Nogueira.
Sobre o caráter transdisciplinar da proposta, que transformou disciplinas em áreas com maior amplitude tais como ciências humanas (história e geografia), ciências da natureza (ciências e matemática) e linguagens (português, educação física, educação artística e inglês), Nogueira afirma: "Não quebrei as paredes porque depois ia ter de correr atrás de um dinheiro que nós não temos para colocá-las de novo. Por outro lado, tivemos que destruir as paredes que não são físicas e que, às vezes, são até mais fortes."


Com o intuito de estabelecer os objetivos específicos para aquela comunidade, foram levados em consideração o sentido e a importância de cada área na vida dos alunos e um método pedagógico que permitisse a flexibilidade do currículo e da abordagem do professor.




Dione de Souza, diretora da Emef General De Gaulle: escola malcuidada incentiva o vandalismo e a indisciplina


Aluno protagonista



– Na Campos Salles, as crianças trabalham em grupos e encontram espaços para discutir coletivamente os conflitos cotidianos. Podem até convocar uma reunião com pais ou professores caso a situação exija. "O aluno tem autoridade, ele é sujeito. E o professor também está ganhando com isso, porque não é mais aquele professor falador, reprodutor: é um professor orientador. Antes, o que eu menos gostava era ver um professor fora da sala de aula. Hoje, nada me alegra mais do que ver as crianças trabalhando sozinhas, concentradas, discutindo com o seu grupo", afirma Nogueira.


Os alunos também participam do conselho da escola, formado eqüitativamente por sete membros titulares e suplentes de cada classe envolvida: pais, estudantes, coordenação e funcionários. Todos são eleitos para garantir a representatividade. A família de Adriana Camelo Gomes, mãe de alunos, participa em peso das reuniões mensais: além dela, seus filhos Felipe, 14, e Samia, 12, são conselheiros titulares desde as primeiras séries do ensino fundamental. "Eu gosto de participar porque, além de acompanhar os nossos filhos, a gente entende o que acontece na escola." Samia sente a cobrança dos colegas, mas assume a responsabilidade desde os 7 anos de idade. "Quando tem algum problema, eles dizem: ‘fala com ela, que é conselheira’", diz a aluna. O trabalho é recompensado quando participam das atividades abertas da escola, como vôlei e caratê – ensinado aos sábados pelo próprio Nogueira, faixa-preta na arte marcial.


O resultado do projeto já foi sentido pela professora Maria do Rosário Leale, que leciona para a 2ª série: "Quando eu cheguei aqui tinha muita violência, mas agora eu venho para a escola e me sinto mais segura." Tanto as ocorrências de brigas e conflitos entre alunos diminuíram quanto as manifestações de crimes e agressões nos arredores da escola são menos freqüentes.




Poder de mudança

– Para a socióloga Flávia Schilling, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, as diferentes dimensões da violência têm impacto na escola. No entanto, sempre existe a possibilidade de trabalhar com esses reflexos sem ocultá-los ou represá-los para fora de seus muros: "A escola pode ensinar a lidar com os conflitos de forma não-violenta."  Ela explica: "Isso começa pela própria instituição. Muitas vezes, a escola é violenta na relação entre os adultos, é um lugar hostil, competitivo, de desconfiança, de ausência de projeto coletivo e de diálogo. É como se tivesse se tornado uma instituição não-pública, partida, de ninguém."


No entanto, iniciar a mudança dentro da própria instituição não é tão simples quanto parece. F.M., professora de ensino fundamental de uma escola pública da periferia da zona leste da capital paulista, diz que, durante o planejamento pedagógico, o medo fala mais alto: "A ordem é de que a gente não saiba e não se envolva com a violência da comunidade."


A educadora conta que, em casos de indisciplina, a escola procura os pais, e esse é o ponto mais importante de interação com a família. Ela dá o exemplo de um pai que, ao sair da prisão, compareceu à escola quando convocado para tratar de uma ocorrência envolvendo seu filho. "Ele disse que ia acompanhar tudo de perto e que a gente poderia chamá-lo quando preciso. Foi uma pessoa que reconheceu o nosso trabalho, muito provavelmente porque não queria que o filho passasse pelo que ele passou."


Esse tipo de contato com a família do aluno, nem sempre estabelecido, é essencial para que se entenda a origem de um comportamento agressivo ou mau desempenho na escola. "As famílias não estão desestruturadas, muito pelo contrário. Elas estão tão estruturadas que uma mãe ou uma avó pode criar uma criança sozinha. O que elas têm é uma estrutura diferente, e a escola não está sabendo responder às demandas dela como deveria", diz a socióloga Miriam Abramovay, da Universidade Católica de Brasília e autora da pesquisa Cotidiano das Escolas: entre Violências, realizada entre os anos de 2003 e 2004 em parceria com a Unesco (veja abaixo).




Flávia Schilling, socióloga da USP: "A escola tem uma possibilidade muito grande de ensinar a lidar com os conflitos de forma não-violenta"


De acordo com Miriam, a escola é o primeiro espaço de socialização de uma criança depois da família: "Se ela não for ensinar, por meio do que acontece dentro dela, conceitos, princípios, formas de pensar, maneiras de agir, nenhuma outra instituição poderá ensinar."




Fórmula da degradação

– O espaço físico da escola pode oferecer mais um caminho para a compreensão dos fenômenos de indisciplina e violência. Carregados de simbolismos que representam as tensas relações de poder entre seus agentes, os muros, paredes, carteiras e espaços coletivos do ambiente escolar são mais freqüentemente avariados quando os alunos se sentem oprimidos por eles. A Escola Municipal de Ensino Fundamental General De Gaulle, no jardim São Luís, passou a debater o cuidado com o patrimônio e viu despencarem os índices de depredações e pichações. Alunos e funcionários da escola, localizada em um bairro pobre da zona sul de São Paulo, sofriam com o mau cheiro de um esgoto que corria dentro de um dos pátios da escola e que ficava alagado quando chovia. Professores de geografia e ciências resolveram, então, trabalhar em conjunto para averiguar de onde vinha a água não-canalizada e cobraram da Sabesp uma solução. Além disso, não havia jardim na fachada e o lixo não era recolhido todos os dias. "O próprio visual da escola incentivava a depredação", avalia a diretora Dione Lemos de Souza.


Problemas internos resolvidos, os estudantes passaram a explorar mais o bairro e discutir as conseqüências de um processo de urbanização desenfreado. Hoje, orientados pelos professores, não só cuidam da escola como se envolvem em campanhas de conscientização ambiental dentro do contexto de serviços e infra-estrutura urbana de toda a região. Dione conta que, interagindo dessa forma, o aluno se percebe cidadão e se vê ator do processo: "Antes, eles faziam o possível para destruir, agora eles conservam."


Desde 2002, a De Gaulle organiza anualmente o Fórum de Educação Comunitária, durante o qual escola e comunidade trocam experiências. Oficinas de rádio, brincadeiras infantis, inclusão digital, estética e eletrônica, entre outras atividades, são promovidas para atrair os pais e vizinhos. Qualquer um que tenha alguma habilidade e queira ensiná-la pode participar dessas atividades. "Tem aluno dando aula para o professor, e isso mexe com a auto-estima deles", conta a diretora.


Segundo os especialistas, essa forte relação do conteúdo e das práticas pedagógicas com a sua realidade é fundamental para oferecer ao aluno uma perspectiva concreta de atuação social, evitando que ele se sinta atraído a abandonar os estudos para encontrar uma forma de ascensão financeira no crime organizado.


"As promessas da escola estão em xeque. Esse é um dos motivos da inquietação dos alunos em relação à educação. A escola se firmou como uma instituição disciplinar com a promessa de um futuro ‘lugar ao sol’", dispara a socióloga Flávia Schilling. Para ela, tal como está estruturada, a escola reproduz a sociedade em sua pobreza e desigualdade: "Os jovens das escolas públicas saem do ensino médio para ocupar os postos de trabalho subordinados." Embora lamente tal realidade, Flávia acredita haver espaço para negar esse processo e recuperar o conhecimento, maior diferencial da escola. As histórias, acima contadas, dos diretores Braz Nogueira e Dione de Souza, mostram que ela está certa.



Para pesquisadora, escola reproduz socie   dade "adultocrata"


A pesquisa Cotidiano das Escolas: entre Violências traz alguns números interessantes para se entender a dinâmica da violência no ambiente escolar. Como procedimento metodológico, a coordenadora do projeto, Miriam Abramovay, adotou um critério amplo para definir o que é uma ação violenta: tudo o que machuca, o que frustra, seja físico, verbal ou até o próprio silêncio. Sob esse ponto de vista, a autora diagnostica e debate casos de agressões, humilhações, intimidações, constrangimentos, desrespeitos, ameaças, discriminações raciais, presença de armas nas escolas, roubos, furtos, ações de gangues e de traficantes no seu entorno e a atuação da polícia no ambiente escolar.

Foram cerca de 10 mil questionários respondidos por estudantes, docentes e funcionários de escolas municipais e estaduais nas cidades de Belém, Brasília, Porto Alegre, Salvador e São Paulo. Na seqüência foram organizados grupos de discussão para validar a análise qualitativa da pesquisa. A cidade do Rio de Janeiro foi incluída nessa fase.

Perguntados sobre a relação dos alunos com os professores, o resultado mostra que, em São Paulo, 47,9% dos estudantes a definem como "mais ou menos" e 14,5%, como "péssima ou ruim". O melhor índice está em Belém, 32,6% para "mais ou menos" e 6,8% para "péssima ou ruim". A maioria – 69,4% – dos alunos de ensino fundamental e médio das capitais pesquisadas por Miriam alega que há roubos ou furtos nas escolas onde estudam.

Para retratar a violência transmuros – a que ocorre fora da escola, mas que comumente atravessa seus muros, na definição do estudo -, a socióloga relacionou a impressão dos estudantes e adultos sobre o bairro e a sua opinião sobre a escola. Cerca de 21% dos alunos que indicam que o bairro é "bom ou ótimo" afirmam que não há nenhuma violência em suas escolas. O grupo dos que consideram haver "muitíssima" violência na escola e definem o bairro como "péssimo ou ruim" é de 23%. Dos consultados, 75% dos meninos afirmam terem sido xingados no último ano. Em relação às meninas, esse número cai para 55,4%.

Miriam assinala que, para evitar o preconceito socioeconômico na abordagem das manifestações de violência, o educador não pode individualizar o problema na figura do aluno, mas entendê-lo como parte de um processo social mais amplo. "A escola não incorpora a cultura jovem. Ela reproduz as regras de uma sociedade ‘adultocrata’ que é pouco tolerante. As regras não são decididas pelo conjunto de atores sociais envolvidos, mas só pelos adultos", afirma a socióloga.

O download da investigação pode ser feito no site


www.unesco.org.br



. Para solicitar a edição impressa, basta entrar em contato com a Unesco: (61) 2106-3500 ou



grupoeditorial@unesco.org.br



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