Em defesa dos clássicos

José Sérgio Fonseca de Carvalho fala de sua experiência com Émile Durkheim e da importância de ler clássicos sem preconceitos

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Em defesa dos clássicos

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Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha a nos dizer. Um livro sobre o qual sempre ouvimos comentários e boatos, mas que quando decidimos ler, surpreende-nos pela profundidade de seus pensamentos ou pela originalidade de sua configuração. É aquela obra que, a cada releitura, nos brinda com um aspecto que antes nos passara despercebido. Ter nas mãos A educação moral, de Émile Durkheim (1858-1917), é confirmar cada uma dessas teses propostas por Italo Calvino (1923-1985).

A maior parte dos professores que tive na graduação – com uma honrosa exceção – me garantiam que o positivismo de Durkheim era ultrapassado; que sua visão organicista da sociedade era ideológica, uma vez que encobria a luta de classes e que sua visão de mundo era afinada com os ideais liberais e burgueses. Não sou sociólogo e hoje pouco me interesso pelos rótulos por meio dos quais se procura evitar a experiência de descobrir um pensador em sua singular complexidade. Mas a primeira leitura que fiz de Educação e sociologia – ainda na década de 80 – foi toda ela guiada pelas certezas que me haviam sido transmitidas. Não fui, à época, capaz de desafiá-las. Foram precisos muitos anos para que pudesse ler Durkheim livre das certezas daqueles que estavam mais preocupados em me dizer por que eu não deveria apreciar a obra do que em me capacitar para compreender a complexidade de suas ideias, a firmeza de suas convicções, ou o vigor de suas teses.

Algumas dessas teses aparecem de uma forma clara e didática na obra A educação moral, um curso que ofereceu em 1902 na Sorbonne. Ao comentar, por exemplo, a importância da disciplina na formação moral das crianças, Durkheim expõe inicialmente o fascínio que a ideia do ilimitado exerce sobre os europeus do século XIX: Parece que o homem se sente oprimido se não tiver diante de si um horizonte ilimitado. Sabemos que jamais teremos condições de atingir esse horizonte, mas acreditamos que a expectativa disso é algo necessário, que somente isso pode nos dar o sentimento de plenitude do ser. Mas, a seguir, pondera: Uma sede insaciável não pode ser aliviada. Para que possamos experimentar algum prazer ao agir, é preciso que tenhamos a percepção de que nos aproximamos progressivamente do objetivo estabelecido. Mas não é possível aproximar-se de um objeto situado no infinito. Nesse caso, a distância em relação ao objetivo sempre será a mesma, não importa o caminho que se tenha percorrido. O que pode ser mais desolador do que caminhar para um ponto que não está em lugar algum, porque se esquiva à medida que avançamos? É algo tão vão como caminhar em círculos […]. Eis porque épocas como a nossa, que conheceram o mal do infinito, são necessariamente épocas tristes.

Em sua percepção, o limite, representado pela disciplina moral, é menos causa de frustração e tristeza do que a exaltação do ilimitado, que nos deixa a errar sem um claro sentido para a caminhada. Claro, sempre podemos evocar Nietzsche, para quem a vida humana se caracteriza pelo errar sem qualquer destino prévio. Mas não podemos ignorar que é uma luta entre gigantes e que ambos merecem nossa atenção, nossa leitura e meditação. O que não devemos fazer é ignorar um clássico pelo simples fato de que alguns supostos iluminados creem que seu juízo acerca de uma obra nos dispensa de pensar por nós próprios o significado que ela pode ainda hoje guardar para quem a lê.

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