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Nascidas em função da necessidade de escolarizar os filhos de estrangeiros residentes no país, as escolas bilíngües são cada vez mais disputadas por brasileiros que querem ser cidadãos do mundo

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A economia cada vez mais internacionalizada, o acesso via internet a informações em outros idiomas e um mercado de trabalho sempre mais seletivo têm imposto a escolas e estudantes uma nova realidade: a habilidade no trato com as línguas estrangeiras não deve mais se circunscrever à leitura e ao entendimento. É preciso ter bom domínio escrito e falado dos idiomas que se quer acrescentar ao currículo pessoal. 

Por esse motivo, muitas escolas têm apostado no ensino bilíngüe como um diferencial para a formação oferecida, transformando a segunda língua não mais em uma disciplina, mas em parte do dia-a-dia do aluno na escola. Ou seja, ele deve aprender a falar e a escrever em outro idioma com a mesma fluência do português.

Atualmente, existem 110 escolas bilíngües no Brasil, com idiomas como inglês, francês ou espanhol utilizados como língua corrente em aulas de matemática ou educação física, por exemplo. A cidade de São Paulo concentra 80% dessas escolas. A capital paulista é a que tem maior número de empresas e instituições multinacionais no país. A maioria dessas escolas atua desde a educação infantil com o ensino bilíngüe.

Um exemplo é o Colégio Sidarta, em Cotia (SP), que adotou o inglês na educação  infantil e no ensino fundamental. Durante toda a manhã, as crianças são acompanhadas por tutores que só conversam com elas em inglês. À tarde, as aulas são em português. Segundo Carmen Maria Hester, coordenadora de ensino da instituição, até os seis anos de idade, o aprendizado é muito rápido. "As crianças aprendem naturalmente o idioma estrangeiro, como assimilam o português."

”Há períodos sensíveis no desenvolvimento do cérebro, nos quais determinadas aprendizagens são favorecidas. Sabe-se, por exemplo, que o aprendizado de uma segunda língua deve ser iniciado antes dos dez anos”, explica a psicóloga Edna Maria Marturano, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

A educação infantil representa, para essas escolas, uma espécie de imersão do aluno na língua estrangeira. As crianças tomam contato com o idioma por meio de atividades práticas e lúdicas, quase da mesma forma como aprendem a nomear os pais ou os objetos com que tomam contato no dia-a-dia. Por isso, segundo Jean-Baptiste Hitta, diretor do Liceu Pasteur, é difícil que crianças com mais de cinco anos e que ainda não tenham tido contato com um segundo idioma se adaptem a uma escola bilíngüe.


Lúdico e fonético

Uma dúvida constante é se as crianças de três a seis anos não têm dificuldade com um professor que fala apenas um idioma a que elas não estão acostumadas. Segundo Graciela Alvarez, diretora da Escola Kinderland, de Curitiba (PR), a criança encara a novidade de maneira muito diferente. "Procuramos trabalhar com o aprendizado da língua de forma lúdica, sem cobranças. Com isso, os alunos se adaptam muito rápido."

A escola, que ensina em alemão e português na educação infantil e no ensino fundamental, começou em 1998, como resultado da necessidade de atender os filhos de executivos alemães que chegavam à região. "Eles precisavam de instituições que suprissem as exigências curriculares da Alemanha", explica Graciela. Hoje, o número de estudantes brasileiros é maior do que o de estrangeiros, e a escola tem um currículo mais voltado à realidade brasileira. As aulas, porém, são dadas em alemão e português. Segundo Graciela, a maior parte dos pais matricula os filhos na escola em função do interesse no ensino da língua e da cultura alemã desde cedo.


Jean-Baptiste Hitta, do Liceu Pasteur: 50% dos alunos fazem universidade na França

A história da Kinderland é similar à do ensino bilíngüe como um todo no Brasil. As escolas internacionais nasceram aqui com o objetivo de atender os filhos de estrangeiros que desejavam seguir o currículo dos seus países de origem e, ao mesmo tempo, assimilar o português e alguns aspectos culturais do Brasil. Para os brasileiros, tornaram-se opções interessantes por terem a exigência curricular da educação de países norte-americanos e europeus. Já as bilíngües seguem o conteúdo curricular brasileiro.

Uma das mais tradicionais instituições internacionais é o Liceu Pasteur. A escola tem 85 anos no Brasil e em sua matriz está organizada como uma escola tradicional. Em 1983, porém, entrou em operação uma segunda unidade, a Experimental Bilíngüe. Seu diretor, Jean-Baptiste Hitta explica que a escola nasceu da necessidade de filhos de profissionais vindos da França e de outros países de idioma francês continuarem seus estudos seguindo os parâmetros curriculares franceses. Hoje, 60% dos alunos são estrangeiros. No total, cerca de 50% dos alunos formados pela escola cursam a universidade na França.

A escola também se encaixa nas orientações educacionais do MEC. Por isso, as aulas de português, história e geografia do Brasil são dadas em português, na parte da tarde. O padrão é seguido por diversas outras escolas internacionais que, em geral, trabalham com uma carga horária de 35 horas/aula por semana para se acomodar às exigências nacionais e internacionais.
 


Lyle French, da Playpen: formando professores para outras escolas bilíngües

A carga horária é uma das justificativas dos altos preços cobrados por essas escolas. Segundo dados da Organização de Escolas Bilíngües (Oebi), o preço anual das bilíngües varia entre US$ 4,8 mil e US$ 7,4 mil anuais, acrescidos de US$ 2 mil de matrícula. Já as internacionais ficam entre US$ 12,8 mil e US$ 16,7 mil, com matrícula em torno de US$ 5 mil.

"Ao mesmo tempo em que nossos estudantes têm uma educação francesa que valoriza aspectos culturais e históricos do país, são submetidos ao conteúdo escolar brasileiro e participam de viagens a cidades históricas e reservas naturais brasileiras, onde aprendem e vivenciam a cultura do Brasil", explica Aristide Adeikalam, vice-diretor do Pasteur.

Outras escolas internacionais, entretanto, são totalmente centradas no currículo e calendário estrangeiro. Para alguns, essa relação tão diversa da realidade brasileira pode levar o aluno a uma perda de identidade cultural. "Muitas vezes, o aluno torna-se um estrangeiro dentro da escola que fica em seu próprio país", alerta o psiquiatra Francisco Assumpção, da Faculdade de Saúde Pública da USP.


Currículo brasileiro

A necessidade de aliar o ensino de outro idioma ao currículo brasileiro é um dos motivadores das escolas bilíngües. Uma das primeiras a operar com esse caráter no Brasil é a Playpen, de São Paulo (SP), fundada há 26 anos. A partir do ensino fundamental, as aulas são divididas em dois períodos. Segundo Lyle French, coordenador do ensino em inglês, essa organização permite que o aluno se aprofunde nas matérias. "Os alunos estudam meio ambiente pela manhã, em português, nas aulas de geografia. À tarde, assistem às aulas sobre o Protocolo de Kyoto, em inglês", exemplifica.

O inglês não é uma matéria complementar ou extracurricular: é integrada ao currículo básico da escola. "Ela faz parte da vida escolar da criança desde os primeiros passos. O tempo destinado a essa aprendizagem é dosado de acordo com o ciclo em que o aluno estuda", explica.

A Playpen também é atuante no debate sobre o ensino bilíngüe no Brasil. Em 2005, promoveu um seminário para discutir o papel dessas escolas. Além disso, conta com um espaço de formação contínua para professores bilíngües. Segundo Lyle French, o número de instituições do gênero no Brasil ainda é tímido se comparado com países como Argentina e Venezuela.

Mas a inserção do país no mercado internacional e um maior interesse por culturas estrangeiras têm feito o número de escolas crescer. "Já formamos professores para mais de 15 escolas", afirma.


Outras línguas

O crescimento do número de escolas bilíngües tem feito com que outros idiomas sejam ofertados aos alunos. O Colégio Sidarta, por exemplo, tem aulas de chinês ou espanhol para os estudantes do 5o ano em diante. "O ensino dessas línguas é encarado como o inglês nas escolas tradicionais brasileiras", afirma Maria Aparecida Schleier, assistente de direção da escola. Comemorações tradicionais no Oriente, como a cerimônia do chá e o ano novo chinês, reforçam as atividades de ensino.

O Pasteur tem como um de seus objetivos a formação de alunos poliglotas. A partir da 6ª série, os estudantes entram em contato com o inglês. No ensino médio, podem optar por aulas de alemão ou espanhol. "Se trabalhamos com um horizonte de formação do aluno em universidades francesas, temos de nos preparar para a unificação de cursos que hoje acontece na Europa, onde é possível começar os estudos universitários na França e continuá-los na Holanda, na Espanha ou na Inglaterra", explica.

O argumento é parecido com o de Lyle French, da Playpen: "Vivemos em um mundo muito plural e o aprendizado de uma nova língua é uma necessidade para a formação de cidadãos com inserção mundial".

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