Em cartaz, a escola

Repetência, avaliação, corpo docente – como o cinema pode ajudar a conhecer situações comuns em instituições de ensino de todo o mundo

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Sérgio Rizzo

Catherine Deneuve, Gérard Depardieu e Isabelle Adjani todos conhecem. São grandes estrelas do cinema francês, talvez as maiores ainda em atividade no país. E Georges Lopez? Também, ora. Esse professor – hoje aposentado – foi visto por cerca de 2 milhões de franceses, sem contar milhares de espectadores de diversos outros países, em
Ser e Ter

(2002), documentário de Nicolas Philibert sobre o cotidiano de uma escola de “classe única” (em que convivem alunos de diversas idades, sob a coordenação de um único professor) localizada na região de Auvergne, na parte central da França.




A reação de Lopez ao sucesso foi inesperada: alegando ser co-autor do filme, já que a matéria-prima do longa-metragem são as suas aulas, moveu um processo contra os produtores, exigindo o pagamento de 250 mil euros. Pais de alguns dos 13 alunos que aparecem no documentário seguiram o exemplo do professor e também entraram na Justiça com reivindicações semelhantes. Philibert argumenta, em sua defesa, que Lopez e as famílias das crianças autorizaram o uso de suas imagens. Agora, aguarda-se o desfecho do caso.




Por conta dessa passagem do cinema para os tribunais,
Ser e Ter

continua a ser assunto na imprensa, dois anos depois de seu lançamento. Com isso, ocupa lugar de destaque entre as dezenas de filmes que, nos últimos anos, vêm retratando a escola. A maioria pertence à ficção, mas se inspira em histórias verídicas ou se baseia em situações muito próximas da realidade. Graças a eles, é possível conhecer um pouco dos sistemas educacionais de diversos países e compará-los ao nosso. A seguir, um apanhado dos longas-metragens sobre educação lançados recentemente no Brasil, nos cinemas e em vídeo. E, ao leitor disposto a dar a volta ao mundo da escola pelas asas do cinema,
Educação

deseja boa viagem.



Estados Unidos



Em 1999, dois adolescentes, de 13 e 11 anos, protagonizaram o massacre da escola Columbine, em Littleton (Colorado). O que os teria levado àquele curto-circuito mental? O cinema americano também busca a resposta, em filmes como o documentário
Tiros em Columbine

(2002), de Michael Moore, que investiga a violência no país, e
Elefante

(2003), de Gus Van Sant, que recria, como ficção, o episódio do massacre. Se a preocupação for compreender o que se passa na cabeça dos adolescentes, é preciso incluir na lista o polêmico
Aos Treze

(2003), de Catherine Hardwicke, que se detém sobre a transformação precoce de meninas em mulheres no início do ensino médio dos EUA, quando as pressões sociais pela inserção em grupos se acirram.






Cenário comum em dramas e comédias de Hollywood desde as primeiras décadas do século XX, a escola marca presença na produção recente com abordagens muito distintas. A nobreza do ensino universitário, por exemplo, aparece em
Uma Mente Brilhante

(2001), de Ron Howard, e
O Sorriso de Mona Lisa

(2003), de Mike Newell. O contraponto a eles é
Garotos Incríveis

(2000), de Curtis Hanson, que apresenta professores e alunos em tom mais irônico. O ensino médio é retratado com acidez em
Três é Demais

(1998), de Wes Anderson, e
Eleição

(1999), de Alexander Payne, mas com ternura em
Encontrando Forrester

(2000), de Gus Van Sant. Já o ensino fundamental aparece como um momento crucial na formação da cidadania no lacrimoso
A Corrente do Bem

(2000), de Mimi Leder. A educação musical, vítima habitual de cortes de verbas nos EUA, é defendida com veemência em
Mr. Holland – Adorável Sedutor

(1995), de Stephen Herek, e
Música do Coração

(1999), de Wes Craven.





Irã








Filhos do Paraíso



(1997), de Majid Majidi, mostra como dois irmãos se viram para usar o mesmo par de sapatos nas idas à escola. Em
A Cor do Paraíso

(1999), também de Majidi, um menino cego de 8 anos vive isolado da família em uma escola especial de Teerã.
O Quadro-Negro

(2000), de Samira Makhmalbaf, conta a história inusitada (e verídica) de professores “sem-sala”, que perambulam pela região iraniana do Curdistão com uma pequena lousa às costas para dar aulas em troca de comida. A tradição de filmes iranianos sobre educação vem desde
Onde Fica a Casa do Meu Amigo?

(1987), de Abbas Kiarostami, e
O Jarro

(1992), de Ebrahim Foruzesh.





Bélgica




Em
O Filho

(2002), de Luc e Jean-Pierre Dardenne, um professor de carpintaria em uma escola técnica para jovens infratores enfrenta dificuldades pessoais com a chegada de um novo aluno.





Albânia





Slogans




(2001), de Gjergj Xhuvani, mostra uma escola no interior da Albânia em que, na segunda metade dos anos 70, durante o regime do ditador Enver Hoxha, professores e alunos são obrigados a montar frases políticas gigantes em colinas, usando pedras.





Dinamarca




Aprender uma língua estrangeira significa, principalmente, passar por um processo de sociabilização para a turma de alunos adultos de
Italiano para Principiantes

(2000), de Lone Scherfig.







Suécia




Durante a II Guerra, um adolescente de 15 anos envolve-se com a professora de 37 anos no poético
Todas as Coisas são Belas

(1995), de Bo Widerberg. Já
Amigas de Colégio

(1998), de Lukas Moodysson, trata das dificuldades em assumir o homossexualismo vividas por uma adolescente, apaixonada por uma colega de escola, em uma pequena cidade sueca.





Nova Zelândia





Encantadora de Baleias





(2003), de Niki Caro, mostra duas escolas ligadas à cultura maori: uma, formal; a outra, dedicada à preservação das tradições da comunidade e ao desenvolvimento, entre as crianças, de um futuro líder.




Áustria






Em
A Professora de Piano

(2001), de Michael Haneke, uma exigente (e neurótica) professora de piano e um aluno dedicado mantêm relação proibida e conflituosa em disputada escola de música de Viena.




Taiwan






Um dos diversos personagens de
As Coisas Simples da Vida

(2000), de Edward Yang, é uma criança que descobre a complexidade do mundo no caminho de casa para a escola e vice-versa.




Alemanha




Em
Adeus, Lênin!

(2003), de Wolfgang Becker, uma professora da antiga Alemanha Oriental, fervorosa defensora dos valores socialistas, sofre um infarto e, em coma, não vê a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã. Seu filho cuida de sua recuperação simulando outra realidade.



Inglaterra





O ensino público inglês aparece como pano de fundo de
Billy Elliot

(2000), de Stephen Daldry, em que o filho de um mineiro troca a opressiva realidade da cidade natal por uma carreira no balé em Londres, e de
Um Grande Garoto

(2002), de Chris e Paul Weitz, no qual um pré-adolescente é estigmatizado pelos colegas.
Driblando o Destino

(2002), de Gurinder Chadhaxx, fala da integração entre ingleses e indianos graças à escola (e ao futebol). E a série
Harry Potter



, que chegou, no cinema, ao terceiro episódio, traz o personagem da escritora J. K. Rowling entre os colegas e mestres da insólita Escola Hogwarts de Bruxaria – que, apesar do título, lembra escolas que conhecemos muito bem.






Uganda





Em
ABC África

(2001), o iraniano Abbas Kiarostami faz uma viagem a Uganda para mostrar o drama da aids no país e descobrir que as escolas não fogem a ele.





Japão





Verão Feliz




(1999), de Takeshi Kitano, mostra o que pode se esconder por trás da inevitável redação de um aluno sobre as “minhas férias”.




China



Nenhum a Menos



(1999), de Zhang Yimou, narra a história verídica de uma adolescente que substitui o professor de uma aldeia e procura evitar que haja evasão entre os alunos. Yimou fez também
O Caminho para Casa

(1999), sobre um professor que trabalha durante meio século em um vilarejo. Já
Bicicletas de Pequim

(2001), de Wang Xiaoshuai, trata da chegada da sociedade de consumo e de seus valores ao sistema educacional chinês.




República checa




Na Checoslováquia do pós-II Guerra, um novo e rígido professor é designado para cuidar de uma classe arruaceira em
Lições da Infância

(1991), de Jan Sverák, o mesmo diretor de
Kolya – Uma Lição de Amor

(1996), sobre o relacionamento forçado entre um músico checo e uma criança russa.




Espanha





Enquanto não estréia no Brasil
A Má Educação

(2004), de Pedro Almodóvar, que recria o ensino religioso durante o regime franquista, esse período negro na história espanhola e seus efeitos sobre a escola podem ser vistos em
A Língua das Mariposas

(1999), de José Luis Cuerda.





Itália





O lançamento em DVD de
Pai Patrão

(1977), de Paolo e Vittorio Taviani, permite conhecer a dura realidade de escolas nas regiões menos desenvolvidas da Itália, onde as famílias relegam a educação formal a segundo plano. Mais recentemente, a escola particular, com suas qualidades e defeitos, aparece em
O Quarto do Filho

(2001), de Nanni Moretti.
Malèna

(2000), de Giuseppe Tornatore, e

Concorrência Desleal




(2001), de Ettore Scola, que lembram como eram as escolas italianas durante a II Guerra – em tom mais leve, no primeiro, e como palco de preconceito contra judeus, no segundo.




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